Resgates obsessivos não-fotografados: mito do nascimento do meu ver

O Rio de Janeiro me apareceu duas vezes; primeiro não fui sozinha, por isso o vi por olhos que não são meus (e nisso o ano de 1957 é emblemático). No segundo nem sabia mais onde estava; comprei um guia de ruas, me perdi. Foram pensares de olhos novos que não enxergavam bem, melhor esquecer enxergar, mãe: escolho me afundar d´onde vim e nunca mais fui embora.


 Cidades Conto Ensaio Ficcao Romance Rio Janeiro

Conheci a cidade duas vezes e, primeiro, ela foi lugar. Hoje é tempo suficiente para fazer uma lembrança indiferente. Ainda sim, não esqueço, não consigo esquecer das anteriores, quando as árvores eram muito maiores. Vi primeiro, pela primeira e incrível já esquecida vez, o Rio de Janeiro pela placenta da minha mãe, quando as barcas iam atracando e ela passava por cima das bóias feitas de pneu, das cordas do atracadouro, alheia aos atos de parir; levantou a mão recusando ajuda e - isso me lembro bem - foi por esforço que não caí no chão da Zona Portuária.

Nasci na Freguesia da Candelária na primeira e última manhã cedo em que acordaria sem dar a mínima pra chuva que caía lá fora. Meu pai trabalhava do lado da maternidade, na Marinha, e devo a isso o motivo dele ter saído naquele dia e entrado no primeiro botequim da Rua Visconde de Inhaúma, desses em que fica suspenso aquele audacioso fog de churrasquinho-de-espeto (dizem que é feito de gato). Estava tanto devidamente acompanhado pelos colegas do sindicato quanto devidamente bêbado. Batucou um samba acompanhado por caixas de fósforos, mesa de metal e o painel do rádio onde gravaram uma K7. A preta que me tomava conta quando eu era pequena ria demais quando ouvia fita. Ria de mim. Quero dizer, ela cantava o sambinha de cor e acabei por me enfurecer e desgravei; pus por cima João e Maria dum vinil 12" [arranhado] que adorávamos dançar espalhando pão no piso.

Foi nessa época que a vi por dezenas de vezes inéditas e a São Sebastião veio vindo pelas mãos arrastadoras da mãe que prosseguia recusando quaisquer ajudas tácteis. O que retive? Mais uma vez chovia pro chão quase preto refletir os lojas da Rua México onde tinham aquelas modelos dentro do vidro com lenços marrons no pescoço; peças incompreensíveis, paradas, inatingíveis e cheirosas, como hoje. Acho que já naqueles meses eu pensava que olho servia bem pra objetiva, pra obturador porque piscava capturas de lembranças. Elas foram se acumulando, misturando com contos, nelsons rodrigues, urina no meio-fio, medos, músicas, hálito de café com cigarro e cutias: penso que é por isso que tão poucas foram reveladas. Nesse tempo, pensava que nunca ia querer rever nada que não fosse novo, daí não levei a nenhuma câmara escura, não fiz quase nenhuma revelação, hoje tento e percebo filmes queimados que...

Me espanta que as cores, os formatos e os guardas municipais recordados com mais agudos apontem para o chafariz em frente ao prédio do Banco do Estado, o que foi comprado. Esse aqui, o verde coberto por grades. Verde, encimado por um gradeado verde e cavado em plena calçada feito uma piscina muito, mas muito funda, parecia, em que muita gente jogava moedas. As grades eram pra que os mendigos não nadassem lá, mas eles enfiavam os pés entre os vãos de qualquer maneira. Perguntei a ela se lembrava disso, hoje ela anda tão mais devagar (reticências). Lembra mãe? Esses dias passei por lá e estava vazio, seco, com um monte de papel da Kibon, de latas, de folhas, jornais e um monte de troço que não queremos saber. Ela continua indo em frente fazendo bater meu cotovelo na testa. Ela não lembrava. Por que estou tão apegada à essa piscina verde metida na calçada? Não sei. Depois daquela época da Rua México-lojas/manequins veio outra, depois ainda outra e houve uma especialmente em que vendíamos comida congelada nos prédios comerciais. Aí sim, somente olhos estroboscópicos capturariam a pressa, os postes, as pedras portuguesas, os vendedores de Biscoito Globo. O Rio de Janeiro parecia sempre tão absurdamente frio (reticências), acho que porque era sempre nas férias de Julho que estava eu por lá de um lado pro outro sem nunca, nunca conseguir ir na praia, meu maior desejo. Via as barcas jorrando água pelas laterais e, lá da varanda dela [ferry], o vento bate fortíssimo. Está logo lá à frente muitos pequenos dez passos de faixa de areia, eu achava que aquilo era praia e queria pular lá de cima da amurada. A praia, mãe! Não podia, ela não gostava e faltava tempo.

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Mamãe chegou da Bahia em 1957 e não consegue se lembrar do que pensou, do que sentiu além do alívio de estar no chão novamente porque tinha passado mal a viagem inteira, porque o avião naquela época, ela diz, não andava reto como hoje - nesse mesmo ano o papai levantou a caixa de engraxate, colocou no ombro e começou a refazer o caminho da Uruguaiana à Rua do Rosário, prestar contas. Nunca gostou de praia, ela, por seus motivos tão fortes que estou aqui na soleira tentando não começar a chorar novamente. O frio apertou e fechei o casaco quase no queixo. Mamãe segurou a câmera e bateu uma foto do Morro Dois Irmãos: não saiu o flash...! É assim mesmo, tá claro ainda. Deixa eu tirar uma foto sua? Ela não queria porque estava velha. A praia do Leblon estava vazia já que choveu então bati uma dela de perfil olhando as ondas, isso sim, ela gosta de ver as ondas mas nunca entrou lá, só os pés, só molhar os pés. Pulei na areia, ela disparou, olhamos as conchinhas. Quantas fotos a gente tirou aquele dia? Eu nem sabia mexer na máquina direito. Saíram sem graça, mas paradas (!), era isso (!), pr'eu lembrar que ela não era o coelho da Alice. Saímos correndo pra pegar aquele ônibus que desce em altíssima velocidade toda a orla e ela se impressiona sempre - sempre - com o Pão de Açúcar visto pela beirinha do Aterro do Flamengo. Não houveram outras vezes em que fizemos esse passeio, até hoje não fomos ao Jardim Botânico, só ao Parque Lage porque, no dia, ela não tinha dinheiro e eu era comunista aos 13 anos. Vimos folhas sobrenaturalmente grandes. Quase quis ficar doente novamente só pra que ela fosse comigo. Mãe, você precisa entrar no Paço Imperial. Nunca entrei lá. Tem até cinema lá, mãe! Vamos, vamos, queria tanto que você visse o Rio de Janeiro que você não viu desde 1957! Sei que ela não vai, que não vamos.

A verdade é que nunca andei, ela sempre passou por mim, ela sempre me disse para ser disciplinada o que nunca fui, ela impôs horários mesmo quando o relógio da Central está apagado e, invariavelmente, eu me perdia nas ruas por não saber como fazia, como ir sem a tração das mãos dela. Minha mãe desde o início, concreta constituída, santificada pelas putas da Praça Tiradentes, enfeitada pelo Teatro, formulada pelos sebos, pela água aterrada, era mesmo outra. Abri o guia de ruas da banca de jornais, e depois fechei, e contei as moedas novamente, e olhei os classificados novamente, e preenchi uma ficha escrevendo "Ensino Médio Completo". A Igreja da Candelária está sempre lá no fundo da avenida e aquela beleza nunca, nunca é feliz. Entrei no Centro Cultural (Av. Presidente Vargas / Rua Primeiro de Março / Praça XV / Largo do Paço). Comi uma maçã fértil. Comeu? Comi, mãe, almocei bem. Ela fechou os olhos e a televisão a assistiu. Foi assim mesmo o nosso fim, hoje ela me adotou, o cinza me adotou, a pia batismal e eu me joguei na água desesperada por mais uma vez e bem depressa ser levada.


Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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