Barcelona: somos do Equador


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Agora, Barcelona: preciso de um quarto para viver alguns meses. Embora não seja uma imigrante que vem à procura de uma vida inteira, estou do lado de quem pede alguma coisa. E a cidade, apesar de cordial, tem mais com que se preocupar. Barcelona foi atacada por uma onda de frio e vento gelado, com o maior nevão deste Inverno a cair em Saragoça ainda há dias. E só descendo-lhe às entranhas, aos subterrâneos do Metro, vamos degrau a degrau aquecendo.

É saudável, isto, porque nos obriga a aproximar-nos daqueles que, no nosso país, são os outros. Põe-nos no lugar deles. É uma espécie de jogo do 'Mamã dá licença?'.

Os outros aqui são brasileiros, equatorianos, bolivianos, chilenos, venezuelanos, mexicanos - toda a América latina - e marroquinos, paquistaneses, portugueses, italianos, e europeus do Norte na sua busca mística de sol e sangria.

Começa-se a procurar numa ponta - os anúncios na Internet, por exemplo -, e de repente estamos num circuito que não conhecemos na nossa terra, embora também exista: mãe e filha precisam de quarto, faço serviços de limpeza, tomo conta de idosos, alugo quarto com cama de casal; coisas de trabalho e casa e comida a uma escala do dia-a-dia. E uma força semelhante à gravidade puxa cada um para o lado dos seus: anúncios de aluguer de quartos que não querem espanhóis nem italianos - querem só latino-americanos, ou dão preferência a venezuelanos. Um folheto de uma igreja brasileira avisando que a Espanha precisa de Cristo. Um anúncio num site de Internet com um rebuscado 'quarto para alugar a rapaz, que não seja russo, nem húngaro, nem italiano'. Tudo menos estudantes ERASMUS. Um homem de 38 anos que oferece cama grátis, em troca de uma companheira que durma com ele e mantenha a casa limpa. E um surpreendente e jovial 'Bom ambiente - somos do Equador'. Muitos destes anúncios, portanto, rejeitam-me, e isso faz parte também de estar deste lado.

Perguntem-me agora: então, mas e que tal Barcelona? A catedral? O parque Guell? As ramblas? E eu respondo-vos: o que vi até agora, insistentemente, estoicamente, em corredores e mapas da rede de Metro de fio a pavio, são as estações de Verdaguer, Urquinoana, Poble Sec, Plaça de Sants, Diagonal, Joánic, Rocafort, Jaume I, Les Corts, Drassanes, Liceu, Passeig di Grácia, e mais e mais, quantas querem?, onde quer que haja um quartinho para mim; vi as linhas azul, verde, amarela, vermelha, cor-de-laranja, mais o comboio até San Joan Despì, o eléctrico da linha castanha; e vi a calle Maquinista na Barceloneta, e por acaso, porque me ficava no caminho para uma casa que ia visitar, quando atravessava uma avenida apercebi-me da multidão de basbaques de máquina fotográfica na mão a impedir a passagem, e ao olhar na direcção para onde todas as lentes apontavam, ali estava ela: não uma índia boliviana cansada da vida, mas a Sagrada Família. E não foi lá que entrei, mas sim num prédio onde havia um quarto que me prometia cama de 200x90 cm, janela para pátio interior, boa luz, armário, secretária, não fumador, casa muito bem localizada a 2 minutos da linha amarela, 400 euros com despesas incluídas.

Apesar de tudo, começo a pensar que esta é talvez uma forma mais interessante de conhecer uma cidade que a dos basbaques à procura do modelo dos postais: vendo as casas por dentro, respondendo aos anúncios de aluguer de quartos. Confesso que já visitei algumas que sabia à partida que não me interessavam, mas tinha curiosidade em ver: apartamentos em prédios antigos, ou sótãos com vista sobre a cidade. Uma pessoa que esteja muito sozinha podia também fazer isto para ter com quem falar (e digam-me que não sou eu). Eis a minha Barcelona: as entranhas do metro e as entranhas dos prédios. E alguma ternura, que também faz falta: o paquistanês roliço do 'locutorio' onde acedo à Internet que me dá os bons dias com um grande sorriso e me diz adeus com os dois bracinhos a agitar-se no ar; outro paquistanês, de risco ao lado a separar duas madeixas de cabelo negro e brilhante com a firmeza com que Moisés apartou as águas do mar, a quem compro todos os dias uma garrafa de 1,5 l de água e que, dia sim, dia não, me oferece uma pastilha elástica. E o rapaz que, no topo das ramblas, agitava um cartaz 'HUGS FOR FREE'. Mas ainda não cheguei a tanto.


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