Arte Degenerada

Entartete Kunst - literalmente Arte Degenerada - foi a designação que o regime nazi da Alemanha deu genericamente à arte moderna, a toda aquela que não fosse figurativa, imitativa, realista ou tradicional. Nesta classificação incluíam-se sobretudo as obras vanguardistas da pintura e da escultura de carácter abstracto, surrealista ou expressionista. Os autores destas "aberrações" eram, segundo os nazis, alegadamente judeus bolcheviques - uma ameaça, portanto - e, consequentemente, sujeitos a sanções de vária ordem, como interdição de expor, de dar aulas, de vender as suas obras, etc. Estamos a falar de artistas como Wassily Kandinsky, Marc Chagall, Max Ernst, Paul Klee, para citar apenas alguns dos mais conhecidos. Mas a Arte Degenerada não foi só isso.
A expressão Arte Degenerada foi habilmente difundida pelo ministro da propaganda de Hitler, Josef Goebbels, numa imensa campanha de descrédito da arte moderna. Em 1937, uma comissão por ele nomeada ficou incumbida de confiscar dos museus e colecções particulares todos as obras consideradas "subversivas" - ao todo mais de 5000. A maioria era de artistas alemães mas entre elas também se encontravam telas de Matisse, Picasso e até van Gogh. Com este imenso lote montou-se então uma exposição para ridicularizar a arte moderna e tentar incutir nos seus visitantes repulsa pelas expressões artísticas que, na óptica dos seus organizadores, maculavam a genuína cultura alemã. Como era de prever Entartete Kunst foi o nome dessa exposição.



Em 19 de Julho de 1937 cerca de 650 pinturas, esculturas, gravuras, etc. foram mostradas ao público num decrépito edifício de Munique. À forma propositadamente desordenada, amontoada e tendenciosa como as obras se encontravam patentes juntavam-se slogans "pedagógicos" que pretendiam explicar o seu significado aos visitantes: Revelação da alma racial judia, Insulto às mulheres alemãs, Natureza vista por mentes perturbadas, Troça do Divino, etc. (tradução livre). A exposição viajou ainda por mais algumas cidades da Alemanha e da Áustria.
Enquanto decorria este evento Goebbels ordenou a apreensão de mais obras de arte degenerada, um número que se pensa ter chegado a mais de 16000! Depois da exposição várias obras integraram as colecções particulares de alguns membros do partido nazi que sabiam bem o que valiam (Hermann Goering foi um deles) enquanto outras foram enviadas para a Suíça para serem leiloadas. Só assim puderam sobreviver até hoje.
Curiosamente, esta campanha de descrédito teve um reverso da medalha e um desenlace irónico. Pela mesma altura os nazis promoveram outra enorme mostra destinada a divulgar a arte oficial, caucionada pelo regime. Chamaram-lhe pomposamente Grosse deutsche Kunstausstellung (Grande Exposição da Arte Alemã) e alojaram-na no magnífico Haus der Kunst, em Munique. Após o seu término verificou-se que tinha sido visitada por pouco mais do que um quarto das pessoas que visitaram a Entartete Kunst...

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8 comentários
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Sempre fui fã de teu blog, mas estive afastado um tempão de escrever e publicar, até mês passado, quando resolvi colocá-lo de volta online. Como o Obvious sempre exalou cultura por todos os poros, pensei em passar pra te parabenizar por um trabalho tão bom, e pra te convidar pra participar do Movimento Blog Voluntário, no qual me inscrevi, e que tende a espalhar mais a cultura dos blogs e incentivar mais pessoas a participar deles.
Se puder, dê uma passada pelo "Algo..." e veja se vc não seria uma fantástica adesão ao movimento.
Pensador Louco em 23 de abril de 2008

Excelente post. Muitos ignoravam porque os nazis faziam tiro ao alvo com os quadros de René Magritte.
Esta parte "fantástica" da História não é revelada pelo historiador clássico: Só a História política lhe interessa, as guerras, o movimento das fronteiras, as datas dos combates, os nomes dos chefes... tudo descreve mas nada explica!
A verdadeira história, a das técnicas e a das artes, é sempre usurpada pela história política, uma história parasita, que lhe rouba o significado e até o nome.
A propósito de nomes, essa de chamar os Judeus de bolcheviques não lembra ao diabo!
Mateus em 23 de abril de 2008

Pensador: agradecemos o elogio. Vamos dar uma vista de olhos lá, certamente. Obrigado pela dica. Um abraço.
Mateus: é bem verdade o que diz e quantas vezes a História não é contada através da Arte, de forma bem mais eloquente e sentida do que nos textos dos historiadores?
seven em 23 de abril de 2008

Na música também houve "degenerados" na opinião desses senhores. Todos aqueles que representavam a corrente moderna da música erudita foram classificados dessa forma. Conta-se a propósito que quando o ministro austríaco da cultura decretou Schoenberg e Stravinsky degenerados Bartok apressou-se a escrever uma carta ao dito referindo ser ele então igualmente degenerado criando um festival de "Música Degenerada" como cúmulo da provocação.
Fernando Vasconcelos em 23 de abril de 2008

É absolutamente verdade, meu caro. Aliás o último poster apresenta um negro a tocar saxofone, com uma estrela de David na lapela, sob o título "Música Degenerada". Ah, e o fundo é vermelho. Sem comentários...
O padrão musical "oficial" era a música de Wagner, de que o próprio Fuhrer era um grande admirador. Stravinsky, Schonberg e outros compositores da chamada música atonal eram uns perfeitos dementes mentais sob esta perspectiva.
seven em 24 de abril de 2008

Ah, na primeira foto vê-se bem uma Fallen Madonna with the big boobies. Mas são maminhas não-degeneradas.
tajana em 28 de abril de 2008

Pois não. A degenerescência vem com o tempo...
seven em 28 de abril de 2008

Muito longe do conceito que tinha na época, nos dias de hoje em democracia seria um espectáculo um caso de música «degenerada».
Não para inferiorizar estilos ou aspectos conceituais mas sim para
deixarmos esses conceitos «degenerados » que ainda persistem de parte
e encarar-mos os novos tempos, abertos a todas as manisfestações de humanismo universal.
E, não é que ainda existe hoje muita coisa degenerada!
Vasta para tanto vermos como a critica social aos estados totalitários que ainda existem ser considerada pelos mesmos degenerada...«entenda-se» a inversão do termo.
carlos firmino em 12 de junho de 2008
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