
Há dias trouxe da biblioteca uma antologia da poesia catalã. O livro foi concebido com propósitos didácticos, e portanto inclui uma introdução que passa em revista a história cultural e literária da Catalunha e um longo quadro cronológico com os principais acontecimentos históricos do século XII à actualidade - quer nacionais (ou melhor, catalães e espanhóis), quer alguns marcos da cultura internacional.
O livro, à parte a poesia em si, permitiu-me duas coisas interessantes. A primeira, ver quais os acontecimentos da história portuguesa que cabem na visão (nesta visão) da história da Catalunha - não só quais são eles, mas como são descritos. A conclusão é que são muito poucos. Duas ou três coisas dos Descobrimentos (a passagem do Bojador, a chegada à Índia por via marítima - mas não a descoberta do Brasil); a perda da independência em 1580, descrita como 'integração em Espanha', e a sua recuperação em 1640, no 'motim de Lisboa'. A publicação de Os Lusíadas também tem direito a uma nota. Mais uma ou outra coisa, e acabou.
Não me causa desconforto esta perspectiva histórica dos nossos camaradas peninsulares que quase não dá por nós; da mesma forma um pouco autista - se não mais - é contada a história de Portugal nas escolas, é contada qualquer história, pessoal ou nacional. O mundo da Catalunha é o Mediterrâneo, Castela, França, Itália. E, precisamente, gosto de ver de que forma as coisas de que falamos com tanta pompa são reduzidas a manchas no horizonte, e vice-versa.
Pouco antes das eleições que deram nova vitória a Zapatero, um catalão comentava comigo, rindo-se, que no fundo o que eles queriam era uma autonomia 'do mesmo tipo que a vossa'. E acrescentava, apontando-me o dedo, que em 1640 Portugal só tinha conseguido a independência porque as tropas espanholas estavam na Catalunha ocupadas com uma grande revolta local. O que este livro refere, aliás - e coisa que não me recordo daquilo que aprendi na escola. Da restauração de 1640 fala-se sempre de forma bastante desajeitada, sem saber de que forma preencher esse vazio morno no qual não há lendas heróicas, elaboradas estratégias militares, figuras inspiradoras, e tudo parece culminar palacianamente no apunhalamento e defenestração de Miguel de Vasconcelos. (Na verdade, tenho um fraquinho por este episódio por incluir uma defenestração - a ideia de se ter criado uma palavra para o acto de matar alguém atirando-o de uma janela sempre me pareceu extraordinária.) É saudável ser lembrado de que a história é em grande parte isto: a forma como se escolhe falar das coisas, e as coisas de que se escolhe falar.
Por outro lado, neste livro vão surgindo inúmeras personalidades e acontecimentos da cultura catalã que eu já conhecia dos nomes das ruas, e que agora ganham corpo. A cidade enche-se de poetas, políticos, episódios, onde até agora só havia nomes nas esquinas dos quarteirões. Uma cidade, como um livro, escreve a sua toponímia com um discurso pessoal, uma visão do mundo e de si mesma; instala os seus mortos célebres e as suas datas em locais públicos de maneira a compor um quadro - generais e políticos nas grandes praças, revoluções em avenidas imensas, poetas em largos modestos com árvores, santos em ruas e bairros antigos, e uma multidão de gente que fica no limbo da história nos bairros periféricos, memórias frágeis a quem desajeitadamente se acrescenta ao nome a descrição do que fizeram: (político), (professor universitário), (benfeitor), (aviador).
Daqui a semanas ou meses hei-de esquecer quem foram Jacint Verdaguer, Rafael Casanova, Ramon Muntaner, o que foi o cerco de 1714 (que dá nome à rua onde estou), a que propósito há uma estátua de Colombo no porto de Barcelona. O que não vou esquecer, provavelmente, é que as famosas Demoiselles d'Avignon, de Picasso, devem o seu nome, não à cidade francesa de Avignon, mas ao carrer d'Avinyó barcelonês. Hei-de procurá-las quando voltar a passar por lá.
9 comentários
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Guido
Durante anos cobri jornalísticamente a ditadura do general pinochet (me recuso a escrever este nome com maiúsculas)e quando a democ racia por fim venceu, lembro-me da imagem de uma multidão avançando pelo meio da rua entoando seus hinos de triunfo e levantando uma grande faixa onde se lia: "pinochet, ninguna calle llevara tu nombre"
(pinochet, nenhuma rua terá teu nome). Legal, não é?
troca letra
Portugal é mesmo insignificante
Até para os nossos vizinhos espanhóis
Paulo Ferreira
Isto lembrou-me a piada que define o (super)ego como o espanhol que vive dentro de nós. Enfim, o que nos falta, aos portugueses, em auto-estima, os restantes povos têm-na em demasia.
Como costumo privar ocasionalmente com espanhóis, e sem querer cair em generalizações, já ouvi esta e outras histórias sobre a História, desde a derrota da armada invencível, passando pelos descobrimentos. Pessoalmente, não me abala o pífaro. A História narrada em Portugal sabe a "morango", em Espanha preferem "baunilha", em Inglaterra é "chocolate"...
PIPA
a já antiga inveja espanhola pelos portugueses nao é desconhecida. deixem-nos ficar com as calles, nós ficamos com as coisas bonitas.
tajana
Nunca dei por os espanhóis terem inveja de nós. Acho que nós é que queremos que eles nos dêem essa importância - que seja quem for nos dê alguma importância. Ficamos histéricos com qualquer noticiazeca sobre Portugal no estrangeiro. Temos o complexo dos injustiçados, porque só conseguimos ver-nos e avaliar-nos pelo olhar dos outros.
Acho também que eles têm muitos motivos para ter orgulho histórico, embora me cause comichão por vezes a forma como o mostram. Pá, o Quixote é deles. Entre muitas outras coisas fantásticas. Nada disto tira valor (deste ou doutro tipo de valor) ao que outros povos tenham feito, mas a eles dá-lhes motivos mais que sólidos para reivindicarem o seu lugar ao sol.
Mas!: a fruta deles não presta. O pão é horrível. E isso é indesculpável.
pulseezar
Nem mais... sem falar que o café é um terro e a tortilha não é assim tão boa como dizem...;)
tajana
De qualquer forma, esta versão da história que eu li não é espanhola, é catalã. Creio que as nossas histórias dizem zero da história da Catalunha.
João
Tajana,
Será possível ficarmos a saber o nome do livre, se ainda se recordar? Fiquei curioso...
Infelizmente, não me lembro do nome da antologia. E só agora reparo que me esqueci de indicá-la no artigo, está mal!
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