Barcelona: Hola, mami!


 Viagens Barcelona Espanha Pessoas Sociedade Costumes Telefone

Os locutorios estão para o dia-a-dia dos imigrantes que vivem em Barcelona como a ONU está para os destinos das nações. Aí se encontram e tratam das suas vidas: falam com a família que ficou no país de origem, acedem à Internet, procuram casa e trabalho, ouvem música e lêem notícias da sua terra, imprimem e digitalizam documentos. Desde o primeiro dia cá aprendi a importância destes locais, que escasseiam quando entramos nos bairros mais abastados ou modernos, onde se supõe que toda a gente tem Internet em casa. E como nunca dei pela sua existência em Lisboa, pergunto-me também se existirão, ou se eu simplesmente lá não os vejo porque não preciso deles (o que me deixa preocupada quanto à minha provável cegueira para com inúmeras coisas que decorrem em paralelo à minha vida, mesmo ao meu lado).

De dentro das cabines de telefone chegam as vozes de todos os episódios da vida doméstica: palavras de amor, saudade, zangas, recomendações, lamentos, reprimendas. Esta língua sonora não é muito dada à discrição das conversas - e menos ainda quando uma matrona cubana desanca furiosamente não sei quem do outro lado, fazendo desintegrar as consoantes à passagem da sua ira e com uma linguagem gestual que ameaça deitar abaixo a cabina. Todos param a olhar, e logo se afundam de novo nos monitores do computador.

Os donos dos locutorios são quase todos paquistaneses, ou passíveis de serem confundidos com paquistaneses. Dia após dia, é sempre a mesma cara atrás do balcão, a receber e dar moedas, a explicar como as coisas funcionam. Estão lá às dez da noite, e estão lá às dez da manhã.

A rapariga do locutorio ao lado de minha casa, uma mulata de ar entediado que olha fixamente as novelas da TV sempre que lá vou, estava ontem empoleirada numa cadeira a acertar os relógios, pendurados na parede atrás dela com as horas de Caracas, Rio, Cidade do México, Quito, Buenos Aires, Manila. Uma tarefa de grande responsabilidade, esta de acertar o tempo de todas as cidades do mundo.


version 4/s/recortes// @obvious, @obvioushp //tajana