Barcelona: o mar ali atrás


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E no entanto, tirando essa faixa litoral, quem está na cidade não dá por ele - pelo mar. Barcelona é quase toda plana. Portanto, excepto nos bairros encostados aos montes que a cercam, as vistas não vão dar à água. A estrada marginal que corre entre o passeio marítimo e o centro, embora facilmente atravessável, talvez justifique também esta sensação de que o mar está longe, assim como o facto de a zona mais central das ramblas ir dar a uma marina e a um centro comercial, com esculturas públicas e outras urbanidades pelo caminho a desviar-nos a atenção, e não à matéria bruta da praia, onde possamos enterrar os pés. Dificilmente somos surpreendidos ao atravessar uma rua - olha, o mar ali ao fundo! Nada disso. O mar, quando se vê, já está inteiro, fabricado. Não se dá ao trabalho de ir semeando pistas pelos nossos sentidos.

Pior do que tudo: não cheira a mar, não há as cores de uma cidade à beira-mar (as cores que na minha história pessoal são as de uma cidade à beira-mar). Os cinzas, castanhos e ocres da maior parte da cidade são quase centro-europeus. O vento, de onde vem ele? Não faço ideia, mas sopra forte; há a famosa tramontana, esse vento que serve de justificação aos actos de loucura dos habitantes, mas não vem do mar. O ar que chega até nós não tem cheiro, a não ser o dos carros. É preciso entrar num mercado ou numa peixaria para recuperarmos o elo perdido.

Não é assim em toda a parte. Poblenou, o antigo bairro operário cheio de armazéns e fábricas agora ociosas - o bairro em 'reconversão', um dos sítios da moda para onde muita gente quer ir viver - é uma dessas excepções. Poblenou tornou-se uma curiosa mistura de ruas que são puro mediterrâneo, ruas do sul, e de avenidas de edifícios de habitação e 'equipamentos' modernos. A cada três ruas, uma obra, um buraco a esventrar o chão. Se seguirmos as artérias principais, há algo de sofisticado no ambiente em redor. Mas se por um momento fugirmos e nos enfiarmos por qualquer pequena rua lateral, caímos noutro mundo, no terceiro mundo, onde as paredes são brancas, as casas pequenas e desiguais, a tinta gasta, as laranjeiras não chegam para fazer sombra, as tascas servem comidas pobres, e o cheiro do mar anda às voltas pelos cantos das praças - como a belíssima e modesta Plaça de Prim, com as suas três árvores retorcidas. Não é preciso olhar: pelo cheiro, sabemos onde está o mar, e viramo-nos para lá quase involuntariamente.

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Curioso que esta parte da cidade vá subindo ligeiramente, como uma suave pala, mesmo até à beira-mar, de tal forma que é preciso atravessar a marginal e avançar até ao passeio marítimo para vê-lo (seguindo a maresia, sempre) - e aí temos a segunda surpresa: este mar, que coisa é ele? Um lago azul e imenso, sem ondas nem marés, sem desvarios. Um mexicano contava-me há dias, desolado e incrédulo, que isto não podia ser o mar. Eu, até dar o meu primeiro mergulho, mantenho o meu voto de confiança no Mediterrâneo.


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