Barcelona: Olhá bola, Manel


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Eu queria ver como conviviam ambos os partidos: de um lado, os amantes de flores e livros; do outro, os do futebol. E não me refiro aos adeptos do Barça, mas sim aos do Manchester. Tradicionalmente, as claques e apoiantes invadem a zona das ramblas nos dias do jogo (disseram-me que são mesmo impedidos de passar para outras zonas da cidade); e claro, as ramblas são uns dos sítios em que mais bancas de livros e vendedores de rosas se instalam no dia de Sant Jordi.

Já na véspera se notavam os fãs da bola: grupos de giris, como aqui chamam aos turistas, de pele muito rosada e camisola vermelha, a vaguear pelas ruas, com latas de cerveja e um ou outro grito de guerra em voz de tenor embriagado. Vi mesmo um "C. Ronaldo" a pedalar esforçadamente num rickshaw, carregando dois compatriotas relaxados. No dia do jogo e do santo saí à tarde e dirigi-me às ramblas. Com o trânsito cortado, a multidão era ainda mais caótica que o habitual. Entre as bancas, cobertas de panos com as riscas amarelas e vermelhas da Catalunha, algumas exibindo posters ou livros independentistas, mal se conseguia andar. Aparentemente, as águas estavam bem separadas: futebol e livros ignoravam-se respeitosamente. Ao furar pelo meio das bancas, detectei apenas duas ou três camisolas do Barça, e uma do Manchester - um bom metro e noventa de giri a devorar um gelado de cores radioactivas.

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Porque os fãs ingleses têm esta coisa, que pode ser racista mas que não renego: são de um nível de abrutalhamento assombroso. Feios na maneira de assentar o pescoço largo em cima dos ombros vermelhos, na maneira de andar, na maneira de falar, na maneira de urrar, na maneira de comer gelados e beber cervejas. Muitos de cabelo quase rapado, muitos com sinais de terem em algum momento da sua vida frequentado um ginásio de musculação, que entretanto trocaram pelos sofás e esplanadas, de maneira que há uma massa muscular escondida por entre curvas domésticas e adiposas, uma espécie de inchaço global que absorve litros e litros de cerveja.

Onde estariam eles? E à medida que descia pela lateral da rambla, comecei a escutar, ao longe, um bramido de fundo, a tal coisa de tenor embriagado - não um, mas muitos. Perto da passagem para a Plaça Reial, quatro carrinhas da polícia marcavam o território, e eu fui ver. Já no dia da minha chegada aqui, em que se jogava um Barcelona - Celtic de Glasgow, era ali o ninho, numa esplanada ao canto. E lá estavam eles, umas boas dezenas, a entoar gritos de guerra, com cinco ou seis polícias espalhados em meia lua para impedir que houvesse contacto com os fãs do Barça. Mas do Barça apenas se via um rapazito magricela, em tronco nu e com a bandeira do clube às costas, como uma capa de Superhomem, a avançar e recuar numa coreografia de forcado.

O jogo, como se sabe, terminou em empate. Saí do cinema à hora a que estava a terminar, e o silêncio das camisolas vermelhas e das camisolas às riscas era eloquente. Já Sant jordi terá sido mais proveitoso - para as livrarias e editoras, e para os paquistaneses que, por um dia, trocaram os negócios das garrafas de gás e da venda ambulante de DVDs pirata pelas bancas de rosas.


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