Barcelona: para acabar de vez com o turismo


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O turismo, como o fazemos desde há décadas, é um sintoma de decadência civilizacional. Entro com vocabulário pseudo-académico, para fingir que são ideias bem pensadas. Não são. São, acima de tudo, embirrações - mas tenho provas. Tenho esperança de que neste momento alguém, algures, esteja a desenvolver uma brilhante teoria sobre este fenómeno que corresponda ao que eu penso, já que eu não sei fazer essas coisas.

Para que é que fazemos turismo? Refiro-me a deixar a nossa cidade ou, sobretudo, o nosso país para irmos visitar outras cidades ou regiões. Quase toda a gente dirá que é para conhecer outros lugares (as famosas "outras culturas"). Haverá uns quantos que vão procurar as ondas, as miúdas, as roupas de marca, os bares, os coffeshops, os quadros do seu pintor de eleição.

O primeiro paradoxo é este: na verdade, quase ninguém faz turismo para conhecer um outro sítio. Fazemos turismo para reconhecermos os lugares. Porque são poucos os lugares do mundo dos quais não nos chega hoje informação antes de lá irmos - textos, imagens, relatos nas notícias, comentários de amigos, música que descarregamos da net. E portanto, quando hoje vamos a algum lugar, vamos para encontrar aquilo que de alguma forma já vimos ou ouvimos. Vamos a Barcelona para ver a Sagrada Família dos postais, ver ao vivo uns quadros de Picasso ou de Miró cuja reprodução temos na sala, para nos emborracharmos nuns bares de que os nossos amigos nos falaram, para termos a nossa fotografia com o mesmo homem-estátua que é fotografado com toda a gente; para, no pior dos casos, comprarmos uma t-shirt do Hard Rock Café e irmos ao Starbucks.

Viajar, ou fazer turismo, tornou-se assim uma forma de coesão (fazer o que os outros fazem), e também de afirmação e de conquista. Para que tiramos uma fotografia ao pé do gato de Botero, na rambla do Raval? (Este é um mau exemplo; curiosamente, não costumo ver pessoas a tirar esta fotografia) Imagino que para criar o nosso mapa de conquistas territoriais, num tempo em que já não há espaço físico nem mental para conquistar. Ter estado num sítio é o máximo a que podemos aspirar, e a fotografia a sua prova oficial (já que aqueles padrões antigos em pedra saem caros). Convém que na fotografia tenhamos um grande sorriso ou uma pose de alegria, com o corpo meio desequilibrado e a boca muito aberta (o grito do conquistador!). É que não basta termos estado num sítio - divertimo-nos nesse sítio, e divertir-se é hoje em dia uma das experiências emocionais mais profundas do viajante.

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Tomemos o parque Güell, em Barcelona. Quem vai lá para apreciar a fantasia decorativa de Gaudi no grande terraço e na escadaria, e a galeria de colunas, vê-se rodeado de uma enchente de turistas e quase não vê nada. Só na minha segunda visita encontrei o famoso lagarto - rodeado de turistas a tirar fotografias. Da primeira vez, a multidão era tanta que passei por ele e não o vi. Aquele episódio do filme "A Residência Espanhola" em que o protagonista encontra a sua amada no parque Güell é totalmente irrealista, porque eles estão os dois sozinhos. Não há turistas.

O autêntico, o original, a Barcelona profunda (ou Lisboa, ou Roma, ou...), é agora um tópico turístico como outro qualquer. Como em tudo o mais desta vida, bastou que as agências e demais empresas se apercebessem de que esse era um mercado com potencial para que fosse transformado num produto, e alegremente consumido como tal. O mesmo se pode dizer da ida aos museus, que faz parte do circuito expectável do bom turista - esse que, na sua cidade, não vai nunca aos museus. E cidades como Barcelona moldam-se rápida e oportunamente - reconvertem-se, como sói dizer-se - à imagem desse modelo vendável: de cidade de festa, de cultura, de edifícios emblemáticos de arquitectos famosos, de sol, de vida nocturna.

Voltemos ao turista, agora à sua presença física. Mal o sol desponta: os calções, as sandálias ou ténis, a mochila. Já não digo a máquina fotográfica, porque hoje em dia algumas escondem-se no bolso. Há qualquer coisa neste conjunto, como na subtileza das feições de cada rosto individual, que distingue o turista de outras pessoas com a mesma indumentária que sejam nativas da cidade (se é que estas ainda existem). Não sei se tem a ver com o nível de relaxamento dos músculos faciais. Já nem falo dos turistas em grupo, que geralmente assumem, explicitamente, a postura do conquistador embriagado, ou de alguém que acabou de chegar a uma grande festa e desata a pular e não consegue controlar a altura da voz. Todos nós, turistas, temos esta marca. Há formas de disfarçá-la, no entanto: levar um saco de plástico com compras de supermercado é uma delas. Torna-nos quase invisíveis e dignifica-nos (embora o artifício seja patético). Isso e não tirar fotografias com o lagarto ou com o homem-estátua ou em frente à Sagrada Família.

Nos primeiros dias que cá passei ouvi uma das conversas mais extraordinárias da minha vida, e era de um português. Dizia ele a uns amigos, no Metro: "Claro, o pessoal da terrinha, o que é que se pode esperar? Nunca saíram de lá, não viram nada... nunca podem deixar de ser broncos." (pausa para reflexão) "Pá, eu vim aqui, já vi a Sagrada Família... 'tá bem que não saí do autocarro, mas pronto, uma pessoa imagina como é por dentro, com aqueles retratos e aqueles vidros às cores...".

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Nem todos somos esta caricatura, felizmente. Mas os turistas (e há-os) que compram um sombrero mexicano nas ramblas também encaixam nesta categoria; tal como os que saem de chinelos e camisola de alças num dia de chuva porque, se estão em Espanha, há sol e sangria. Já são muitos.

Não é só a questão dos souvenirs mais ou menos kitsch. Há dias li na revista Time Out um comentário de alguém que dizia que não percebia porque é que as autoridades políticas de Barcelona proibiam que houvesse lojinhas de souvenirs no Passeig de Grácia - a avenida das lojas chiques e das grandes cadeias multinacionais. O argumento era de que esse tipo de comércio descaracterizava a cidade, mas, dizia o autor, em que medida é que uma avenida que tem exactamente as mesmas lojas que Paris ou Londres ou Nova Iorque - Vuitton, Hermés, Ermenegildo Zegna, Benetton, Bulgari, e por aí fora - é uma avenida característica da cidade? O mesmo, claro, vale para o Hard Rock Café, para o Starbucks, para os índios que tocam êxitos da Céline Dion na flauta de pã e, na verdade, para inúmeras coisas. A fotografia que tiramos no Starbucks de Barcelona é diferente da de Londres em quê? A t-shirt do Hard Rock Café, igual às que temos de Lisboa, Londres, Madrid, prova o quê?

É triste. Tenho alguma vergonha de fazer também parte disto, mas ainda não percebi como é que se sai deste quadro e se consegue continuar a viajar. Para já, para já, tenho cada vez menos vontade de viajar nas cidades ocidentais. O problema é que começa a haver muitos turistas como eu.


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