Bem me quer, mal me quer


 Direitos Flores Malmequer Plantas Vegetais

Em regra não leio PPS, e-mails de aviso – “Isto é SÉRIO, aconteceu com um amigo meu!” – ou pedidos de reenvio – “Lê! Não custa nada e vai transformar-te no Oliver Twist!”. Mas às vezes, segundo uma conjugação aleatória de factores decisivos, abro-os, leio-os, fico fascinada e acabo a fazer leituras higiénicas no Museum of Hoaxes. Foi assim que fiquei a saber de um estudo datado de Abril de 2008, do Federal Ethics Committee on Non-Human Biotechnology (ECNH), da Suiça, intitulado “The dignity of living beings with regard to plants”.

Este estudo não é uma fraude. As imagens da Society for the Protection of Plants, sim, fazem parte de uma falsa campanha visando a equiparação total entre os direitos humanos e os direitos das plantas e, reflexamente, a morte à míngua dos vegetarianos.

 Direitos Flores Malmequer Plantas Vegetais

O estudo da ECNH pretende ser o primeiro passo sério para um debate ético sobre a dignidade das plantas e sobre a forma como devemos tratá-las. O comité manifesta a consciência de que tal passo há-de parecer risível e defende-se antecipadamente com a bondade dos critérios a que possa chegar. São sete as conclusões do estudo.

1. Não devemos fazer mal às plantas sem uma boa razão. 2. É inadmissível a defesa de uma completa instrumentalização das plantas, que devem defender-se também por possuírem um valor intrínseco, próprio, apenas seu. 3. É inconcebível a propriedade absoluta sobre as plantas – podem ser nossas, mas não as podemos tratar como bem entendemos; uma minoria dos membros do comité defende o contrário. 4. Nada obsta à modificação genética das plantas, desde que as suas capacidades de reprodução e de adaptação não sejam afectadas. 5. O comité tenta uma saída airosa – à Tribunal Constitucional, portanto – quanto ao registo de patentes sobre plantas, com uma maioria a dizer que, bem, essa é uma questão de ética social e a ética social não é objecto deste estudo. Uma minoria pronuncia-se pela incompatibilidade do registo com a dignidade das plantas. 6. A diversidade natural deve ser uma preocupação constante da modificação genética. 7. As acções que servem a preservação humana encontram-se moralmente justificadas, desde que proporcionais e adequadas.

Metade destas conclusões parecem-me coisas do bom senso traduzidas para a linguagem oficial dos comités. Como exemplo, na primeira, o relatório fala em decapitação de flores silvestres à beira da estrada. Para tanto, há que ter uma boa razão. Oferecer? Decorar? Jogar ao bem-me-quer?

A outra metade está no limbo entre a aparência de fraude e a razoabilidade de um debate que, num planeta feito de equilíbrios frágeis – muito frágeis, cada vez mais frágeis –, não é assim tão desprezível.

Transversal ao estudo, estranha surge a postura do comité – parece que à força de examinar à lupa os pós e os contras da defesa da dignidade das plantas, a visão de ecossistema desapareceu. Aliás, não consigo perceber se estava lá no começo. É como se as plantas interessassem muitíssimo, bem como conseguir uma postura humana de respeito, mas o comité deliberasse a partir do Olimpo. O facto de ser um comité suíço faz-me desconfiar um bocadinho e/ou não conseguir evitar algum preconceito na leitura: a Suiça é o país da grande ordem e eu ainda não percebi se a grande ordem é uma ambição pelo bem comum ou uma ambição em si. Mas deve ser pelo bem comum, visto tratar-se de uma democracia. Uma democracia a pedir ficções assépticas, mas uma democracia.

Há parágrafos inteiros do relatório que ainda me fazem pensar que daqui a uma semana o Museum of Hoaxes vai pedir desculpas ao público: “Afinal o estudo do ECNH era uma fraude.” Nem assim o assunto sairia do limbo.


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