
Até há três ou quatro anos este nome era praticamente desconhecido. Foi descoberto quase por acaso e rapidamente se tornou um fenómeno no mundo da arte e da fotografia. Quem é afinal Miroslav Tichý? É um velho andrajoso que optou por uma vida marginal após diversas vicissitudes que lhe foram impostas pela guerra e pelo regime totalitário do seu país, a ex-Checoslováquia. Se bem que o seu aspecto de vagabundo possa sugerir alguém derrotado, Tichý manteve sempre um espírito livre e resistente, recusando em todos os sentidos colaborar com o "sistema". Fotografar foi, de certo modo, uma manifestação desse inconformismo.
Tichý começou a fotografar nos anos '60, após ter passado uma temporada na prisão por motivos políticos. Foi nesta altura que assumiu a sua marginalidade e negligenciou definitivamente o seu aspecto físico. Em coerência, a tudo na actividade de fotógrafo se tornou também marginal, desde o próprio equipamento rudimentar, construído com pedaços de sucata, até ao próprio acto de capturar as imagens, feito de modo furtivo, escondido, como um voyeur.


E o que fotografava ele? Mulheres. Perseguiu-as obsessivamente. Fez centenas de registos - chegou a impor a si próprio uma norma: 100 fotografias por dia. As modelos involuntárias do seu universo feminino eram mulheres apanhadas a passear na rua ou a tomar banhos de sol. Por vezes não se apercebiam disso; de outras vezes protestavam e zangavam-se; outras, deixavam-se fotografar com complacência. Rostos, bustos e pernas dominam os enquadramentos crus e espontâneos, revelando um erotismo sofisticado e surpreendente.
Dos numerosos negativos que fazia apenas revelava alguns - uma única cópia - e colava-os em cartões onde desenhava molduras e efeitos decorativos com lápis. Nódoas diversas, propositadas ou não, acrescentavam-lhe patine e um aspecto estranhamente melancólico. Todo este conjunto de fotografias acaba por expressar qualidades poéticas extraordinárias, facto a que não é estranha a formação artística de Tichý na Academia de Artes de Praga e a sua adesão ao Expressionismo, durante a sua juventude. E o que é ainda mais extraordinário é que as fez para si, para seu desfruto pessoal, como excluído e independente que sempre foi.






7 comentários
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augusto
maravilhoso. a criatividade e a genialidade do ser humano extrapola qualquer barreira. basta deixá-la fluir e os resultados certamente serão surpreendentes.
É bem verdade que a dificuldade aguça o engenho...
Eduardo antonio
O barato é louco mas o processo é lento ...
siusi
vejo como genio e obediente a arte e pureza de intenção
Claudio Hess
pois é!!
para fazer arte o cara precisa só ser artista, só!!...
mais um Van Gogh vagando no mundo...
Amós Mondlane
Eduardo António, Suisi e Clúdio não só faço vossas como minhas, mas também importa vincar que é do imaginário infinito secundado á dúvida (será que estou sendo enteendido?) do gosto e da alma que os melhores artistas se inspiram.
Além de fotógrafo atento exibe uma humildade para com o que faz.
Mesac
Humildade, respeito e ousadia diante do mundo