Mayday: televisão para vegetais


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Tenho uma relação quase inexistente com a televisão que é por vezes interrompida por vícios fugazes. Foi assim com a série Mayday, em Outubro último. Sabia que era má ideia. Mesmo se não fosse má ideia, era feio: Mayday é programa doentio, cujo vício só pôde formar-se numa qualquer falha no meu pobre e indisciplinado cérebro.

A ideia era má, visto, mais cedo ou mais tarde, eu sempre ter de voar. E gosto, gosto muito, mesmo sem ser em férias, porque a sensação de descolagem é das melhores coisinhas que há na vida a seguir à montanha russa, e porque a vista das cidades e da terra pequeninas, seja dia ou noite, há-de colar-me o nariz às janelas de avião enquanto me restar um pingo de curiosidade pelo mundo, isto é, enquanto estiver viva e lúcida. Do que não gosto, depois, é do tédio. Depois da emoção física, bestial, da descolagem, voar é tédio. Conversar não posso, que lá em cima fico surda. Raros livros me salvam da medonha sensação. Depois, não gosto do cheiro da generalidade dos aviões, o perfume-average dos assistentes de bordo – ou a sua mistura – enjoa-me, a comida de plástico introduz uma distracção momentânea para logo de seguida me enjoar, por um lado, e me deixar cheia de verdadeira e voraz fome, por outro, uma fome que só pode ser resolvida em terra e que soma ao tédio uma grande impaciência. Sentir o avião começar a descer é excelente, apesar das dores horrendas nos ouvidos, porque me concentro naquilo que é a aproximação da minha libertação. Aterragem e imobilização do avião são momentos altos, seguidos de uma ligeira irritação-de-fim-de-tédio que só passa quando o aeroporto fica longe e começo seja o que for que me fez viajar.

Vem isto a propósito de eu ter voado agora pela primeira vez depois de ter consumido alguns episódios do Mayday. Claro que a culpa é minha e o televisor tem botão para alguma coisa e quem o pôs em casa até fui eu. Não obstante, ao constatar que a minha experiência de descolagem, antes intacta alegria, se fazia acompanhar de alguma apreensão, não pude deixar de me perguntar para que serve, afinal, um programa daqueles? Para os profissionais e pelos profissionais não pode ser - esses têm escolas, relatórios, congressos, livros, colegas, aulas, seminários, dissertações. Não me espantaria, aliás, se o programa tivesse incorrecções que o tornam impróprio para profissionais, visto ser o que acontece com a generalidade do entretenimento televisivo científico (um conceito bonito). Para passageiros, como?, só se for para os absolutamente não sugestionáveis e que, sobretudo, tenham péssima memória. Para quem não voa não pode ter utilidade, não é? Acresce que, hoje em dia, voar não é propriamente uma escolha ou uma opção, mas muitas vezes uma imposição da vida, mesmo que seja a imposição de nos querermos mover no mundo porque sim, o que, a par do trabalho – ou mais ainda, eu diria – também se impõe e dificilmente se recusa.

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Enfim, nada pode vir de bom, parece-me, de uma série que se alimenta da curiosidade mais doentia de que somos capazes e que ainda por cima nos torna conscientes de coisas que não nos servem para nada – só para ficarmos medrosos. Contra mim o concluo. E é bem feito. Ninguém me manda baixar a guarda ao inimigo. O facto do Outono, além de sistematicamente me envelhecer, me transformar num vegetal de sofá não é desculpa.


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