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Mayday: televisão para vegetais

publicado em cinema por | 12 comentários

 Voar Aviao Paisagem Viagens Televisao Tv Serie Voo
Alex MacLean

Tenho uma relação quase inexistente com a televisão que é por vezes interrompida por vícios fugazes. Foi assim com a série Mayday, em Outubro último. Sabia que era má ideia. Mesmo se não fosse má ideia, era feio: Mayday é programa doentio, cujo vício só pôde formar-se numa qualquer falha no meu pobre e indisciplinado cérebro.

A ideia era má, visto, mais cedo ou mais tarde, eu sempre ter de voar. E gosto, gosto muito, mesmo sem ser em férias, porque a sensação de descolagem é das melhores coisinhas que há na vida a seguir à montanha russa, e porque a vista das cidades e da terra pequeninas, seja dia ou noite, há-de colar-me o nariz às janelas de avião enquanto me restar um pingo de curiosidade pelo mundo, isto é, enquanto estiver viva e lúcida. Do que não gosto, depois, é do tédio. Depois da emoção física, bestial, da descolagem, voar é tédio. Conversar não posso, que lá em cima fico surda. Raros livros me salvam da medonha sensação. Depois, não gosto do cheiro da generalidade dos aviões, o perfume-average dos assistentes de bordo – ou a sua mistura – enjoa-me, a comida de plástico introduz uma distracção momentânea para logo de seguida me enjoar, por um lado, e me deixar cheia de verdadeira e voraz fome, por outro, uma fome que só pode ser resolvida em terra e que soma ao tédio uma grande impaciência. Sentir o avião começar a descer é excelente, apesar das dores horrendas nos ouvidos, porque me concentro naquilo que é a aproximação da minha libertação. Aterragem e imobilização do avião são momentos altos, seguidos de uma ligeira irritação-de-fim-de-tédio que só passa quando o aeroporto fica longe e começo seja o que for que me fez viajar.

Vem isto a propósito de eu ter voado agora pela primeira vez depois de ter consumido alguns episódios do Mayday. Claro que a culpa é minha e o televisor tem botão para alguma coisa e quem o pôs em casa até fui eu. Não obstante, ao constatar que a minha experiência de descolagem, antes intacta alegria, se fazia acompanhar de alguma apreensão, não pude deixar de me perguntar para que serve, afinal, um programa daqueles? Para os profissionais e pelos profissionais não pode ser - esses têm escolas, relatórios, congressos, livros, colegas, aulas, seminários, dissertações. Não me espantaria, aliás, se o programa tivesse incorrecções que o tornam impróprio para profissionais, visto ser o que acontece com a generalidade do entretenimento televisivo científico (um conceito bonito). Para passageiros, como?, só se for para os absolutamente não sugestionáveis e que, sobretudo, tenham péssima memória. Para quem não voa não pode ter utilidade, não é? Acresce que, hoje em dia, voar não é propriamente uma escolha ou uma opção, mas muitas vezes uma imposição da vida, mesmo que seja a imposição de nos querermos mover no mundo porque sim, o que, a par do trabalho – ou mais ainda, eu diria – também se impõe e dificilmente se recusa.

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Alex MacLean

Enfim, nada pode vir de bom, parece-me, de uma série que se alimenta da curiosidade mais doentia de que somos capazes e que ainda por cima nos torna conscientes de coisas que não nos servem para nada – só para ficarmos medrosos. Contra mim o concluo. E é bem feito. Ninguém me manda baixar a guarda ao inimigo. O facto do Outono, além de sistematicamente me envelhecer, me transformar num vegetal de sofá não é desculpa.

sao
Sobre a autora: São Reino é uma colaboradora multifacetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Saiba como fazer parte da obvious.

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Comentários

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Sergio Phelipe

Olá,

Gostaria de um e-mail de contato de vc(s). Procuerei pelo site e não achei.
Se possivel entre em contato, o assunto é iPhone, ok?

Abraços e aguardo contato.

Sergio Phelipe

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O mail está na coluna da direita, onde diz "email do obvious"...

Gosto muito de visitar o vosso blog. Fala de tudo o que é interessante, sempre com outro olhar. Para não variar as fotografias são fantásticas. Quanto ao Mayday, nem sabia que isso existia. E acho que prefiro continuar ignorante.

Author Profile Page seven

Sim, tentamos que seja interessante. Obrigado pelo elogio, Maria. Sobre o resto... dizem que na ignorância é que está a felicidade ;)

Não nado, não vôo exceto em avião comercial. Quanto a descolar, ficou meio gozado. É gíria do Brasil para arrumar tóxicos, como em -- Subiu o morro pra descolar uma trouxinha.
E o pequeno traficante intermediário é o avião.
Prefro sofrer e saber que ser ignorante, Seven.

são

Neste caso é mesmo >:>
Obrigada Maria :)

Cesar

Para o desconforto do ouvido há uma manobra simples, que equilibra a pressão dentro e fora do ouvido: bocejar com a boca bem aberta. Ou a manobra de Valsalva (http://pt.wikipedia.org/wiki/Manobra_de_Valsalva )

são

Obrigada, César. Vou tentar. Eu sofro horrores com os ouvidos que por vezes, uns dias depois de chegar, ainda estão a virar aos poucos (para a posição normal).

O meu "neste caso é mesmo" era para o seven e o "na ignorância é que está a felicidade", quando respondi não se via o teu comentário, tina. A propósito de quase tudo eu concordo contigo. Mas saber que coisas podem causar desastres de avião é um conhecimento pesado e inútil na medida em que, por um lado, não me vai nunca salvaguardar, visto eu não deixar de viajar, e, por outro lado, me estraga o prazer das viagens, por me tornar consciente de coisas que não dependem de mim e relativamente às quais eu não posso fazer nada. Eh pá, se tiver de ser, é e pronto. O que eu mais quero é não pensar nisso. Em terra, pelo contrário, ter consciência da minha fragilidade e efemeridade, já me parece um conhecimento cheio de vantagens, porque me permite viver mais, melhor.

são

Tina, se calhar o “descolar” da gíria brasileira vem do “to get high” do Inglês norte-americano? (não sei se no Inglês inglês existe a mesma expressão para “drogar-se”).

Descolar é comprar.Achoque vem do des- colar, em que cola é grude, pega de por duas coisas coladas, saca? Ficar high é ficar muito louco, doidão e não sei quais as mais modernas.

Em inglês comprar é to cop some ____. To get high é to get spaced out também.(1951)

LILI

SIM OBRIGADA BEIJOSSSSSSSSSSSS!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ivana Rowena

São,
acho que tão cedo você não vai se livrar da tentação de assistir à série canadense Mayday pois o feedback do público aumentou talvez porque o tema seja a investigação científica dos desastres. Começou em 2002 e nem os produtores imaginavam que duraria tanto,o que significa que a série continua a dar retorno financeiro (vendida para 144 países)com seasons até 2012. Mas voltando à minha revista eletrônica preferida, mais uma vez você escreveu um texto interessante e as fotos de Alex MacLean são de uma beleza ímpar.
Tem razão, é melhor ficarmos com o prazer da beleza e das viagens por este mundo maravilhoso!

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