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Alguns quadros porque sim

publicado em artes e ideias por tajana | 9 comentários

 Antiga Arte Espanha Pintura Quadros

Há dias, numa conversa, veio à baila a questão de a arte contemporânea não ter o poder (ou a pretensão) de comover. Esse papel foi tomado pela televisão, pela publicidade, por meios que têm toda uma missão de conseguir a adesão emocional das pessoas. Eu acrescentaria que a arte contemporânea tem muito pouco sentido de humor, o que se calhar também poderia incluir-se na capacidade de comoção.

Talvez seja esse um dos motivos pelos quais volto regularmente à arte antiga. Continuo a gostar de ver imagens que me emocionem de alguma forma sem que seja para fazer-me comprar um desodorizante ou votar num partido político. A vantagem das obras antigas é que, se por acaso tinham na altura alguma pretensão desse género, ela já está perdida para a nossa fruição de leigos, a não ser como matéria da história da arte.

Tudo isto para falar de alguns quadros de que gostei pelo prazer de quem vê curiosidades. A arte antiga presta-se muito a estes exercícios lúdicos de observação dos pormenores (basta pensar em Bosch).

Os quatro primeiros são do Museu de Belas-Artes de Valência - um excelente museu numa cidade lindíssima, cuja visita recomendo.

Começando por ordem cronológica, logo ao início damos de caras com um tríptico que inclui uma espécie de rodapé com os profetas do Antigo Testamento. A obra é de Domingo Ram (finais do século XV), e chama-se Lavatorio de los pies, Cristo ante Pilato y Cristo camino del Calvario/Profetas. As faixas que saem da boca dos profetas lembram-me irresistivelmente os balõezinhos das falas de banda desenhada. Gostei deste em particular, pelo douto e eloquente dedo em riste.

 Antiga Arte Espanha Pintura Quadros

Mas o que me tinha levado ao museu era o facto de ter lido que havia uns quadros de Ribera, e encontrei este fabuloso, e tenebroso, La mujer barbuda (1631). O original é vertical - esta imagem é apenas uma parte.

 Antiga Arte Espanha Pintura Quadros

Mais à frente, as Crianças ensinando um gato a dançar, de um anónimo holandês; a qualidade da imagem é má, mas o ar satisfeito das crianças não deixa dúvidas quanto ao que sofre o pobre animal.

 Antiga Arte Espanha Pintura Quadros

Das naturezas-mortas destaco este Bodegón con aves muertas y mono, novecentista, de José Felipe Parra Piquer - há nesta composição qualquer coisa de delirante que me seduziu. Creio que Bordalo Pinheiro (o da cerâmica) teria sido um bom amigo deste pintor.

 Antiga Arte Espanha Pintura Quadros

Finalmente, e já em Barcelona, no museu da catedral de Santa Eulália, uma obra que me chamou a atenção por motivos menos ligeiros que os anteriores - muito concretamente, pelo tema. Trata-se de uma pintura que representa o menino Jesus a dar os primeiros passos, apoiado num andarilho e vigiado atentamente por um anjo (?); e Maria, sentada mais atrás, a costurar-lhe roupas. É o único quadro que conheço sobre este tema tão caseiro e tão íntimo (gente da história de arte, vinde em meu auxílio!). A obra, de autor anónimo, data de cerca de 1400. E o chão de ladrilhos é muito bonito. Quero um assim na tal casa que hei-de ter um dia.

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tajana
Sobre a autora: tajana é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz. Saiba como fazer parte da obvious.

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9 comentários

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sao

Ontem por acaso enviei uma coisa ao sete que fala em pormenores e arte antiga. E no Sábado, no Museu Nacional de Arte Antiga, reparei num quadro chamado "Acampamento" em que, entre outras coisas, é visível, do lado esquerdo, um bacano escondido atrás de uma elevação, de cócoras :') Desgraçadamente, não me lembro do autor e não consta do catálogo que cá tenho.

sao

Tinha.me escapado o resumo, lá fora. Pensei que tinhas dito "A Rótula do Profeta", mas enganei-me... tenho que fazer qualquer coisa que se chame "A Rótula do Profeta" :')

tajana

Eu nesta imagem do profeta BD, ainda por cima, tenho sempre a sensação de que ele, a continuar a falar assim, às tantas vai ficar todo enredado naquela faixa, que já lhe passa por cima e em baixo e à frente dos braços. Era uma ideia interessante - que todas as coisas que disséssemos fossem fazendo uma teia física e nós tivéssemos de aprender a viver e movimentar-nos no meio dessa teia. Pobre Fidel Castro, pobres pregadores :)
Esse senhor acocorado atrás de uma elevação estava seguramente a colher flores...

são

Estava, claro. Se estivesse a fazer outra coisa punham o quadro atrás de um biombo, pelo menos… digo eu.

Paulo

Discordo quanto ao comentário de que a arte contemporânea nao emociona.
Concordo sim que a televisão e outros meios são mais cativantes, mas justamente por necessitarem ser.
A arte contemporânea segue outro caminho.
Não é porque a denominamos de 'arte-visual' que não é preciso um estudo, uma compreensão, quase como uma investigação.
Dessa forma conseguimos ser, talvez mais profundamente, tocados.
Vivemos nos tempos da 'arte do indivíduo', não mais dos grupos artísticos, ou movimentos.
Vemos nos dias de hoje a Arte Subjetiva. Mergulhe na mente do artista e sinta como ele.

tajana

Paulo, obrigada por comentar. Quanto à experiência da arte, cada um sabe de si... pessoalmente, tirando alguns artistas, creio que há nas formas de arte das últimas décadas um apelo muito mais a uma experiência intelectual ou sensorial do que emocional. A arte conceptual, por exemplo. Não sinto necessidade de sentir o que o artista sentiu, se é que sentiu alguma coisa. Compreender não implica sentir, emocionalmente. Eu compreendo, intelectualmente, fenómenos que emocionalmente me deixam indiferente. A questão é também saber se o papel da arte é esse: provocar-nos emoções. Ou se tem direito a ser outra coisa.

carla

adorei
gostava que vissem o meu blog
arte-e-ponto.blogspot.com
Parabens!

FRANKLIN JORGE

A arte (a pintura em especial) acabou. Apenas fingimos que ela continua viva.
Em todo caso, deliciei-me com esse artigo. Parabéns!

Catarina Rodrigues

Concordo perfeitamente contigo no que toca a arte contemporânea. Creio que lhe falta algo, é essa tal emoção de que falas.

Sou aluna de História da Arte e a última imagem, creio ser de algum retábulo (?), tem muitas semelhanças com a pintura de um dos nossos famosos primitivos do início do século XV. É de seu nome Álvaro Pires d'Évora. Aconselho vivamente, a quem esteja interessado nas primeiras expressões artísticas de um tardo-gótico e início do Renascimento, as exposições "Os Primitivos Portugues" do MNAA e do Museu de Évora.

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