obvious

Barcelona: o senhor do Museu

publicado em recortes por | 10 comentários

 Barcelona Homem Humor Museu Pessoas

Museus ou casas-museu guardados por velhinhos deixam-me sentimental, pronto. Quando espreitei para perceber o que era aquela casa de porta aberta para a praça San Felipe Neri, em pleno bairro gótico barcelonês, notei que havia um velhinho atrás da porta - quase só lhe via as mãos sobre os joelhos e as pontas dos sapatos. Espreitando a fachada, li: Museu do Calçado.

O homem, de cabelo branco e calculo que mais de 70 anos, levantou-se da cadeira e sorriu-me aprovadoramente, quando decidi entrar. O cartaz dizia "Colaboração: 2,5 euros". Havia uma única sala, de uns 30 metros quadrados, ao longo de cujas paredes tinham sido colocadas mesas com vitrines, cheias de sapatos, cada qual com um cartão que identificava época, materiais, tipo de sapato. E no meio, ao comprimento da sala, mais uma mesa. O velhinho deixou-me a sós com a colecção; ouvi-lhe os passos afastarem-se discretamente no chão de madeira - tshc, tshc, tshc.

E quando eu me virava para a primeira vitrine, ouvi-o aproximar-se de novo, vindo da sala de entrada - tshc, tshc, tshc. Pôs-se ao meu lado, com uma folha solta de bloco de notas na mão onde estavam escritas três datas a esferográfica azul:

1700
1800
1900

Apontou para a primeira data e depois para a primeira vitrine, à esquerda:
- Aqui, são os sapatos do século XVIII.
Rodou ligeiramente, apontou para a segunda data, para a segunda vitrine:
- Ali, os de 1800.
E depois, mostrando as vitrines do fundo e do meio, e apontando para o papel mais uma vez:
- Estas, as de 1900. É assim - e com a mão simulou o percurso que eu deveria fazer para ver correctamente o museu.
Instruída, sorri e agradeci, e ele foi embora - tshc, tshc, tshc.

Estava eu a ver os primeiros sapatos da primeira montra (1700) quando o ouço regressar - tshc, tshc, tshc.
- Estes - disse, apontando para alguns pares de sapatos enormes, com ar de sandálias romanas, que cobriam formas de madeira - não eram mesmo sapatos, vê como são grandes? Como as pessoas não sabiam ler, os sapateiros punham-nos por cima da porta da oficina.
- Ahh!... - fiz eu, e agradeci a explicação.

Tshc, tshc, tshc.

Fiquei a olhar umas botas de mosqueteiro, cujo cano abria como a corola de uma flor amolecida, e a pensar nos desenhos animados do Dartacão.

Tshc, tshc, tshc.

Sorria sempre ao chegar perto de mim.
- Estas são botas de mosqueteiro.
O papel que estava ao lado das botas, e que dizia 'Mosqueteiro', portanto, não mentia. E já se preparava para ir embora quando eu perguntei para que era aquele cano aberto.
- Porque como tinham as capas compridas, ficavam apoiadas no cano das botas!
- Ahhh... que curioso!

Tshc, tshc, tshc.

De novo a sós, desta vez com uns sapatos de cetim muito pequenos, pintados com duas crianças a brincar na relva.

Tshc, tshc, tshc.

- Nesta época era vulgar os sapatos serem pintados com vários motivos, desenhos delicados.
- Sim, sim...

Tshc, tshc, tshc.

Passei ao século XIX. Esperei alguns segundos, em expectativa. Os pés que calçavam aqueles sapatos tinham de ser, não só curtos, mas sobretudo muito estreitos.
E por fim o momento esperado: tshc, tshc, tshc.
- Sapatos de passeio - explicou, rodando o indicador num gesto abrangente que apanhava meia montra.

Tshc, tshc, tshc.

Logo a seguir havia umas babuches magrebinas de seda bordada, e um ou dois pares de calçado turco e paquistanês.

Tshc, tshc, tshc.

- Estes são sapatos do norte de África - disse, apontando as babuches - São abertos, para arejar, porque se trata de países muito quentes.
- Pois... - acenei em concordância.

Tshc, tshc, tshc.

À minha frente estava agora um livro de aspecto antigo.

Tshc, tshc, tshc. Desta vez, tinha na mão outra folha de bloco notas, com outras três datas escritas à mão:

1208
1825
2008

- Na Idade Média, havia confrarias - olhou-me respeitosamente - ...isso a menina sabe melhor que eu. As confrarias eram muito ligadas à religião.
Fiz que sim, embora me parecesse que não. Olhou-me de novo com o sorriso respeitoso.
- Claro, isso a menina sabe melhor que eu, estudou isso. A confraria de sapateiros de Barcelona tem 800 anos.
Apontou para o livro.
- Neste livro, cada ano a confraria assina uma página, desde (apontou para o papel) - 1208. Já vamos no quarto livro - esse que aí tem, desde (fixou o dedo na data do meio) 1825, até (deslizou-o firmemente até à data final) - 2008.
Desta vez fiz um 'ahhh!' especialmente impressionado. E estava impressionada.

Tshc, tshc, tshc.

Enquanto via o resto da sala, pus-me a pensar como era complexo aquele seu exercício, em sentido físico e conceptual. Tinha de estar fora da sala, para eu me sentir à vontade. Mas, ao mesmo tempo, tinha de estar a observar-me permanentemente, para saber quando aproximar-se e dar-me todas aquelas informações, dizer-me todas aquelas coisas que ele sabia e que as datas manuscritas nas folhas de papel confirmavam. Quase me dava vontade de virar-me de repente para apanhá-lo em flagrante. Como faria quando havia mais de um visitante no museu? Se é que alguma vez havia.

As entradas e saídas de cena, com as respectivas deixas informativas, repetiram-se mais algumas vezes. Fui apresentada a sapatos de charleston, a um sapato sem costuras, a alpergatas de pastor, a miniaturas de sapato escavadas em caroços de azeitona, e - com um ar de cumplicidade e orgulho - a umas chuteiras do Ronaldinho, guardadas na montra de saída juntamente com as de outros atletas que eu não conhecia. E à saída, quando quase me despedia, fez-me sinal para que lhe desse um momento mais e apontou para um gigantesco molde de madeira.

- Este molde - disse - foi usado para fazer o pé da estátua de Colombo que está lá em baixo no porto!
- Ah, impressionante...!
Ao lado estava um sapato, uma 'mercedita' feita a partir do molde - uma bela sapata de um metro de comprimento.
- É muito curioso, sim senhor.

Ele estava satisfeito. Eu também. E começo a suspeitar de que estou destinada a conhecer velhinhos que merecem uma história.

 

tajana é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz. Saiba como fazer parte da obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião da obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus

Adorei o texto. Inclusive o Tshc, tshc, tshc... Olha, estou saindo. Até mais.

M4Jor

Eh eh demais!
Isso é q é um Museu e claro, o serviço público.
Mt bom.

são

quando estas pessoas morrerem ficam as que estabelecem com os museus relações jurídicas de emprego após recrutamento asséptico baseado no conteúdo de um ou dois certificados de habilitações e que vão estar ali com a competência e a dedicação que lhes exigirem, nem uma grama a menos, nem uma grama a mais... e sem aproximações excessivas aos utentes, sem entusiasmo além daquele que contar para a avaliação do desempenho.

o emprego baseado apenas na educação oficial está a encher o mundo de técnicos tão frios que bem podiam ser robots a fazer as mesmas coisas.

há umas semanas fui ao museu do chiado, pah, o tipo que nos vendeu os bilhetes era mais ou menos da nossa idade, fez questão de manter a distância, de não nos dizer nada além dos euros que esperava que lhe entregássemos, de nos apontar o princípio da exposição e de fazer um ar ligeiramente afectado, como se estivesse ali mas por engano ou azar (um secretário de estado da cultura ou uma vedeta da literatura de cordel que - ainda - não conseguiu cumprir-se?).

durante a visita à exposição reconhecemos a maqueta da escultura de Jorge Vieira que está em Beja, só que naquele momento não conseguíamos lembrar-nos que era em Beja que estava. lá fui eu perguntar. resposta: "aaah, é uma obra original, só está aqui"... e eu, simpática, querida, "sim, é uma maqueta original, mas a escultura existe em grande, mas não conseguimos lembrar-nos em que cidade." e ele "ah, pois, isso já não sei..."

M4Jor

são, nem mais nem menos.
Eu até vou mais longe, qq dia pagamos e entramos com tudo automatico sem sequer uma pessoa, mesmo a do relato acima..
Enfim...

tajana

Sim, nos sítios assépticos são treinados para não ofender nem incomodar ninguém. É quanto basta. Eu fiquei mais contente com este museu dos sapatos do que com alguns ao estilo super-produção que tanto há por aí, em que o meu bilhete vale o direito a ver quadros e estátuas - nem mais, nem menos.

Paixao

Vim Morar em Barelona Faz extamente 10 anos e 4 meses, desde que cheguei ouvi muitas historias sobre esta praça, San Felip Neri, e até hoje continuo ouvindo. Realmente a dedicaçao de este senhor em reforçar o relato da historia representado por "sapatos" demonstra como as pessoas mas velhas consideram a relaçao humana espontanea como valioso, comparando com a historia de "Sao" a conclusao que eu tiro é que PERDEMOS O MELHOR DA VIDA. Hoje em dia tudo se faz na base de interesses, o social e feito apenas pra cumprir necessidades, quando este senhor passou provavelmente a vida com menos recursos socias que agente porém proveitosos. É por isso que eu sou do "Bem". Beijoooo

Mercedes S. Almeida

Tantas vezes palmilhei estas ruas e quantas as que estive tentada a entrar nesse museu.... Entro??!!! Não entro!???? Fica para amanhã!Lamento que ,por vezes, não façamos o devemos !
Após ter lido esta descrição esplêndida, sei que da minha próxima ida a Barcelona, este vai ser um lugar onde obrigatoriamente vou ter de entrar!
Parabéns pelo texto!!!

Certamente após este maravilhoso relato, a menina sabe melhor do que eu!
Sou o Rabi Marcelo Barzilai,sapateiro e descendente de um Rabino Espanhol do Séc.XI chamado Yehudá ben Barzilai, justamente de Barcelona. A Sinagoga daquela época fica bem perto do Museu do Calçado. Confesso que fiquei emocionado ao ler seu texto, pena não ter lembrado de perguntar aquele velhinho qual era seu nome, pois, ao contrário do que pensa alguém que postou acima, estou certo de que o homem que acredito tem como profissão sapateiro tenha muito mais a ensinar do que se imagina.Quem cinhece a arte da Sapataria!Conhece a arte do Caminhar!
BOAS ANDANÇAS!

Aida Cristina Becker

Acabamos de voltar de Barceloa e uma e nossas ultimas visitas foi no Museu do Calcado.Fomos recebidos pelo mesmo velhinho com mesma folha solta do bloco de notas com as datas e especialmente o mesmo tsch,tsch,tsch.... Porem fomos agraciado com o relato do porque de Sao Marcos ser o Padroeiro dos Sapateiros e por iso ter sua efigie na fachadaem pedra do museu e Sao Crispim o Padroeiro dos aprendizes de sapateiro...
Enfim uma grande aula de TUDO!
Saimos de la emocionados e com a certeza que o tempo que vivemos repleto de tecnologias que se tornam obsoletas em meses, esta se deixndo escapar de modo irreversivel valores centenarios insubstituiveis. Quem ficarã lã para fazer tsch, tcsh,tsch...daqui alguns anos::::

Aida, obrigada por contar a sua viagem! Fico muito contente por saber que o mesmo senhor continua lá e que continua a receber os visitantes da mesma forma. Curiosamente, ainda há um dia ou dois eu tinha falado sobre ela a uma pessoa.

Site Meter site statistics