Ella #1


 Cancao Cantar Ella Fitzgerald Gershwin Jazz Musica

Descobrir é bom. Tento que aconteça com frequência e um pouco com tudo o que o mundo traz, embora, na verdade, não saiba quando, com o quê, como vai acontecer. A descoberta apaixonante, quero dizer. A que faz ir ler, ouvir, procurar, dormir em sobressalto, com os sonhos todos a girar em torno daquilo. E que se parece muito com o amor e os amigos, que nunca sabemos quando vão aparecer e provocar uma revolução no que somos. A música é terra fértil em descobertas, mesmo e sobretudo quando acontece com o que já se conhecia: há músicos que são planetas inteiros, que podem levar uma vida, e ainda bem, a percorrer, a aprofundar.

"I'm not a musician", dizia Ella. Não quero imaginar se fosse, se já assim não sei para onde me virar. Ella Fiztgerald é a voz mais inacreditável que alguma vez ouvi. Lembro-me de ter ficado extasiada com a interpretação de "Cry me a river", de Arthur Hamilton. E do modo como me deixava vulnerável ouvi-la cantar "Easy to love", de Cole Porter. Sendo uma voz extremamente bonita, não é uma voz que permaneça estática no seu estatuto. Sempre que lhe dou tempo, surpreende-me. É o que ando a fazer há uns quinze dias: a ouvir o que já conhecia, com mais atenção, a aventurar-me em álbuns que não conhecia, a ler, a procurar. E assim aquilo que começou comigo a pôr um dos seus álbuns a tocar, ao fim de um dia normal de trabalho, só para que soasse pela casa enquanto fazia o jantar, degenerou nessa adorável condição febril a que chamo descoberta. Ou redescoberta. Ou a descoberta dentro da descoberta dentro da descoberta.

Comecei a ouvir Ella perto do very beginning, com uma compilação de temas que Ella gravou entre os 20 e os 21 anos com Chick Webb, The Mills Brothers e os Savoy Eight e que dá pelo título pragmático de "Ella Fitzgerald 1937-1938". Encontrei o disco à venda absolutamente por acaso e tornou-se logo um objecto de adoração, inseparável de mim, a primeira coisa que eu punha na bagagem quando ia de férias ou partia para fins-de-semana mais demorados. Chick Webb foi o homem que descobriu e orientou Ella e foi na orquestra dele que começou. O álbum tem 22 temas curtos, de "Big Boy Blue", com os Mills Brothers, a "A-Tisket, A-Tasket", com Chick Webb and His Orchestra, e é uma boa onda total. Algum tempo depois ofereceram-me "The Best of the Song Books: The Ballads". As baladas são outra história, mais alcatifada, mais aparentemente tranquila e este disco arranca com, nada mais nada menos, que "Oh, Lady be good", de George e Ira Gershwin, um tema com ritmo lento e poema quebra-corações assombroso, onde a voz de Ella tem espaço e tempo para se mostrar. Só aqui comecei de facto a parar para a ouvir.

Oh, lady be good (George & Ira Gershwin)

A seguir à antologia das baladas ouvi intensamente "Ella sings Broadway" (1963), "Sings Sweet Songs for Swingers" (1959), "Whisper not" (1966), "At Newport" (1958), "Ella & Louis" (1956), "Ella & Louis Again" (1957) e "Porgy & Bess" (1958), não necessariamente por esta ordem. Os álbuns com Louis Armstrong são maravilhosos, criam ambientes de alegria sólida e neles não é possível isolar a voz de Ella. O que lá está resulta das vozes de Ella e de Louis juntas e tentar uma percepção isolada da voz de um dos dois seria tão disparatado como as clássicas tentativas de tradução das letras dos Beatles para português (para justificar a existência de verdadeiros horrores da canção em língua portuguesa). Há coisas que pura e simplesmente são inseparáveis e inconcebíveis excepto na forma original.

They can't take that away from me (George & Ira Gershwin)


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