Ella #2


 Cancao Cantar Ella Fitzgerald Jazz Musica

A minha atenção virou-se outra vez para o fenómeno que é a voz de Ella sem mais nada com o "Sings Sweet Songs for Swingers". Apesar do que o título possa fazer crer, não se trata de uma antologia pós-moderna da família dos "Jazz for lovers" que se oferecem, despudorados, nas esquinas dos supermercados, mas de um álbum original, um álbum belíssimo. Comprei-o porque um dia, ao ler a discografia de Ella, o título se destacou e me entusiasmou. Diga-se em voz alta sings sweet songs for swingers" e experimentar-se-á um pequeno e delicioso alvoroço fonético: quando chegamos a swingers já a voz balança toda. Achei que um título com música era uma boa promessa. Com arranjos e orquestra de Frank DeVol, o álbum verdadeiramente swinga pelas 12 faixas, mesmo em temas como "Moonlight serenade" (Miller, Parish), que esperaríamos mais quietos; canções como "Makin' Whoopee" (Donaldson, Kahn), "I remember you" (Mercer, Schertzinger) e "Lullaby of Broadway" (Dubin, Warren) tornam-se depressa vícios apaixonados e amores para a vida.

Apesar de adorar o "best of" das baladas, por princípio desconfio de antologias - fico sempre a pensar no que me foi tirado - e o facto de haver "best of"s dos Song Books fez com que, durante algum tempo, eu não percebesse o que eram os Song Books. Precisei ler uma curta biografia para me dar conta de que se tratava de um projecto ambicioso de Norman Granz - agente de Ella a partir de 1946 - de pôr Ella a cantar e gravar os song books dos principais compositores norte-americanos e que, portanto, eram álbuns originais e parte substancial da discografia básica de Ella e não um levantamento de temas gravados em ocasiões várias. Ainda hoje, que continuo a reuni-los, me é sugerido nas lojas - quando não têm nenhum - que leve outra compilação: e apresentam-me selecções recentes, somas mais ou menos caóticas de momentos vários e distantes da Ella, como se os Song Books fossem a mesma coisa.

Os Song Books são álbuns de covers originais. Granz, dando-se conta do potencial da voz de Ella, resolveu pô-la a gravar exaustivamente as canções de Cole Porter (35 temas), Rodgers and Hart (35 temas), Duke Ellington (38 temas), Irving Berlin (32 temas), George e Ira Gershwin (73 temas), Harold Arlen (28 temas), Jerome Kern (12), Johnny Mercer (13 temas). Se dermos estes discos por garantidos, como é natural que aconteça, se calhar escapa-nos o valor real da ideia de Norman Granz. Mas quando começamos a adorar cada fracção de segundo em que a voz de Ella soa e nos damos conta do que Granz fez, compreendemos que o homem só podia ser um génio e andamos dias a dizer, para dentro, "obrigada, obrigada, obrigada", sem que isso nos faça sentir menos devedores. Porque os Song Books são autênticas arcas de Noé da voz de Ella, da canção americana do séc. XX e de ambas e, por isso, o seu lugar e significado vai muito além da discografia de Ella: são itinerários musicais e líricos sem igual, coisas de um património cultural mundial.

Uma das críticas mais comuns a respeito destes discos é a de que Ella seguiu à risca as canções originais, não lhes adicionando "nada de si". Tratando-se da voz que é só podem estar a brincar. E a ideia foi mesmo essa, segundo creio ter percebido: fazê-la cantar as canções daquela malta toda para que as canções existissem no mundo na voz da Ella. Só. Muito. Acresce a isto que a esmagadora maioria das canções dos song books faz parte dos reportórios do jazz não vocal praticamente todo, algo brutal se pensarmos bem, e é portanto excelente poder contar com as gravações exaustivas de Ella para ouvir e compreender melhor, tirar mais gozo do jazz não vocal e, nesta perspectiva, ainda bem que as interpretações seguem de perto dos originais das canções.

Someone to watch over me (George & Ira Gershwin)

Discografia aqui e aqui; biografia aqui, aqui e também na série de 11 vídeos do youtube que começa aqui.


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