Feist e o lirismo dos sentidos que vão pulando a janela

Rock disfarçado de despretensioso, as músicas da canadense Feist vão, sem pedir licença, criando atmosferas intensas: de repente se quer gritar qualquer coisa pela janela ou sair voando por ela, pelos desejos, nas desilusões, na ironia dos dias, no amor, no tempo. Ou mesmo tudo junto, em passionalidades contemporâneas.


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Leslie Feist, nome com que a moça, de voz peculiarmente aveludada e imprevisível nos tons, nasceu no Canadá, há 32 anos, não tem das carreiras mais fáceis de serem descritas; nada de tocar numa banda e, de repente ser descoberta e, daí, direto para a Billboard. Em algum lugar entre desejar de forma convicta ser uma escritora e andar de meias pelos camarins de um grupo de música eletrônica; Feist começou sua carreira solo.

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Sua memória musical prende-se aos corais que freqüentou por boa parte da infância e adolescência, neles cantava e dançava, mas, aos dezessete anos, era então vocalista de uma banda punk. Com esta, meteu-se numa batalha de bandas, saindo vitoriosa. Na competição, ela acabou fazendo amizade com dois rapazes que a fizeram dar adeus aos Ramones para integrar a banda experimental Broken Social Scene. Infelizmente, bem nestes anos, Feist foi diagnosticada com uma lesão nas cordas vocais o que a impedia, terminantemente, de cantar por um longo período.

Foi por forte presença de espírito que a cantora resolveu aguardar a recuperação sem se afastar da música, começando assim a tocar baixo e guitarra num (outro) grupo de um amigo. Detalhe é que nunca havia tocado baixo na vida, mas isso não parece ter sido grande problema pois ela integrou a By Divine Rights de 1998 até 2000, quando mudou de banda novamente. A vez agora era do músico eletrônico Peaches, amigo de um amigo seu, com quem Feist começou a trabalhar dando assistência no backstage e, ocasionalmente, cantando. Foi nesse trânsito que conheceu o excêntrico Chilly Gonzales e, vê-se que a moça é boa em fazer amigos; desse encontro nasceria o que hoje é sua música.

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Estreando com um álbum obscuro, Feist pôde tatear as formas que criaria a seguir. Monarch (Lay you jewlled head down), até o momento, só consegue ser citado quase como um álbum demo, fruto do período silencioso em que ela recuperava a saúde em discrição. Fatalmente, Let it Die, de 2004, é que ficará sendo lembrado como seu primeiro trabalho, um onde a marca da cantora está impressa de alto à baixo. Dele que brotam canções absurdamente envolventes (e contundentes) como Musharrom, One Evening e When I was a Yong Girl. Com Let it Die, Feist pôde levar para a estante, os prêmios de Melhor Artista Revelação e Melhor Álbum de Rock Alternativo do Ano no Juno Awards, prêmio da música Canadense. A este se seguiria já um álbum de coletâneas, com melhoramentos para as melodias do Monarch e remixes avantajados para as músicas do último.

The Reminder, em 2007, seria o disco certo no momento certo. Conta a letrista Sally Seltman que demorou toda a tournée da Broken Social Scene (sim, ela continuava nessa banda) para mostrar à Leslie Feist uma pequena canção que havia escrito porque tinha muita vergonha. One, two, three, four só tinha um arranjo simples para voz e violão quando Sally tomou coragem de mostrá-la. Feist gostou muito e passou a tocá-la nos shows. Diz a compositora que ficou chocada ao descobrir a canção no comercial do, então novo, iPod nano. O sucesso foi massacrante: incomumente, uma música alternativa havia chegado aos dez primeiros lugares no chart da Billboard amontoando downloads aos milhares. Indicação ao Grammy. Mais uma vez, Feist levava o Juno Awards, agora como Música do Ano. 1234 virou também paródia contra a Apple na MAD TV (eu achava bem legal o link, porque o video é o máximo.

E ainda há coisas para além das premiações ou tanto confusa história de carreira. As canções de Feist articulam uma identidade que atravessa os limites do som e nos presenteia com vídeos deliciosos de onde saem centenas de imagens, fotografias transbordando lirismo. As cores, as coreografias feito dancinhas, as formas, o figurino, os gestos, as lembranças de mulher e até as torradas que voam com asas parecem uma irresistível visita à fantasias lúdicas, tornadas possíveis agora no presente, junto com os nossos cotidianos conturbados ou tediosos. Talvez suas melodias sejam um transporte todo novo das nossas paixões, mesmo as frustradas, que já têm perdido o caminho por onde se derramarem. E tudo embrulhado com fitas sofisticadas, arranjos e literatura, que honram a tradição do folk canadense de Joni Mitchell e Leonard Cohen. E para ouvir, ver e sentir sem parar.


Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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