geografia da música: fiona apple, livros para arrumar, sons de madeira

Descobrir música, para mim, é coisa da intimidade e da solidão. São meia dúzia as pessoas com quem consigo partilhar a concentração silenciosa que me é exigida para ouvir e conhecer verdadeiramente um tema, para me apaixonar primeiro por alguns sons, depois por um minuto seguido, por fim por um tema inteiro, e depois outro, até à conquista total de cada álbum.


 Apple Fiona Musica Sons

Se não gosto de um músico ou de um escritor que toda a gente me diz que era capaz de gostar, pio fininho e/ou mantenho-me na segurança da indiferença mais ou menos educada, embora, reconheço, possa ser provocada de forma a dizer disparates. Ou tomar eu a iniciativa. Interiormente, quando penso nisso, defendo-me com argumentos patetas. Mas nunca desisto, espero: um dia diferente dos outros, uma fome urgente de conhecer o que não conheço, o background que me permitirá perceber qualquer coisa que me escapa, a vida, paciência.

Descobrir música, para mim, é coisa da intimidade e da solidão. São meia dúzia as pessoas com quem consigo partilhar a concentração silenciosa que me é exigida para ouvir e conhecer verdadeiramente um tema, para me apaixonar primeiro por alguns sons, depois por um minuto seguido, por fim por um tema inteiro, e depois outro, até à conquista total de cada álbum. Mesmo quando a empatia com um álbum é instantânea, chegará o dia em que preciso adoecer, redescobri-lo fora do mundo, só em mim. Uma vez bem explorada e integrada na corrente sanguínea, coisa corrente e viva pelos vários canais que ligam emoções, memória e sonhos, posso ouvir a minha música na companhia de uma multidão sem perder o norte, tirando prazer de cada som. Nunca antes disso. Os discos que amo foram todos ouvidos de forma intensa, isolada, egoísta, autista, doentia, obsessiva.

Há outra circunstância em que consigo entrar num disco com a concentração ideal: estar a fazer outra coisa qualquer que não seja ouvir música. Arrumações em casa, desde logo. Caso em que podem estar dez pessoas à minha volta que eu nem me apercebo. Devo a expedição inesperada aos territórios da Fiona Apple a uma arrumação de biblioteca que me ocupou no princípio do ano. Durante muito tempo não integrei as aquisições na ordem alfabética das estantes e começava a deixar de saber onde tinha tudo. Precisei retirar todos os livros das estantes e voltar a pô-los lá juntamente com os novos. Chegava a casa todas as tardes, ligava o leitor, criava uma playlist, seleccionava repeat e subia o volume de forma a que chegasse, não muito alto, à sala onde tenho os livros e onde ficava, excepto pela interrupção do jantar, até à hora de dormir. Num desses dias fui buscar os álbuns da Fiona Apple. Teimosia.

Gosto de quinquilharia e sucata sonora. Gosto de música com instrumentos ao molho e fé em Deus. Sons de circo, eu que nunca gostei de circo. Sons de feira. Sons de bonecos e de coisas que se partem. Sons de trânsito, de passos, de rua. Orquestras a afinar no princípio dos concertos. Contrabaixos. Sons sem medo. À excepção dos naturalmente momentos condoídos da baixa e da alta adolescência e, sempre, dos álbuns de alguns escritores de canções, a música propriamente dita é o que me interessa nos discos: melodia, instrumentos - entre eles, as vozes, na abstracção do que dizem -, ritmo, ritmo e ritmo. Se a música não me fizer feliz - ainda que seja para me desfazer -, não chego a dar-me ao trabalho de prestar atenção às letras.

Foi um segmento instrumental de uma canção do "Extraordinary Machine" que me fez primeiro parar o que estava a fazer e aproximar-me do leitor de CDs para memorizar localização e título. Ouvi e pensei, heresia - heresia? -, que me lembrava qualquer coisa do Tom Waits, o deus. Os minutos 2:00 a 2:19 de "Used to love him" - aquilo era o quê, madeira a ranger? Era. O tipo de som de um barco a afundar. Funcionou como um rastilho e muito rapidamente dei por mim a gostar de muitos segmentos e de muitos temas. Estes meses todos depois, a discografia toda explorada, as duas versões do "Extraordinary Machine" ouvidas até à indecisão completa - ainda bem que não tenho de decidir e ainda bem que houve condições para uma indecisão -, ainda estou entusiasmada. Sei que descubro uma das discografias mais fundamentais da minha existência.

Às vezes farto-me, enjoo-me, canso-me, tento ouvir e já não consigo mais: descanso uma semana ou duas e volto a ouvir tudo do princípio ao fim, repetindo alarvemente os temas que quero, quando quero. Mais: prestei atenção às letras todas e, quando não percebi algum verso, fui ler. É verdade que as canções são todas sobre relações e ilusões e, muitas, sobre como nos sentimos no fim. Mas não são lamechas. Vá, alguma auto-comiseração - irónica. De resto, são inteligentes. Bem escritas. Deliciosamente furiosas e despeitadas. Redentoras. Sacanas q.b. para uma gaja se sentir vingada e com a possibilidade extra de poderem vir a ser usadas como farpas. Sobretudo, são letras de uma música bonita, generosa em sons, voz, instrumentos e ritmo, onde nada é de fora para dentro, mas tudo porque tinha de ser - razão pela qual nunca se saberá muito bem quando esperar um álbum novo de Fiona Apple ou sequer se haverá um álbum novo. A boa notícia é que os que existem são praticamente inesgotáveis. E demoram a destilar.

Fiona Apple - Used to love him/Extraordinary Machine


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