Intimidade: a ascensão e vigilância dos desejos

O que conhecemos hoje como intimidade era, em inícios do século XIX, uma novidade magnífica. Descobria-se o indivíduo e, de repente, nos víamos num mundo cheio de sensibilidades, ao mesmo tempo, assustadoras e provocativas. Inspiravam pudor e, o pudor, a perversão.


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A privacy é, antes de tudo, a separação do que está dentro e do que está fora, em todos os sentidos. A sociedade européia e depois de todo o mundo ocidental, começou a experimentar, naqueles anos dos oitocentos, um movimento que, primeiro, inventava o indivíduo privado e, depois, inventava a invenção desse mesmo indivíduo diante do público. Noutro ponto, descobríamos o corpo próprio para daí descobrirmos que suas vontades não se encaixariam tão facilmente nas festejadas existências civilizadas, como um monstro que escapava pelos vãos das capas e chapéus.

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Um comportamento que podemos observar foi a mudança de postura diante das roupas de dormir. Uma mulher então não apareceria em público com sua camisola, nem mesmo para os parentes. Isso tem relação com mudanças na arquitetura das casas; os cômodos separaram-se, primeiro por cortinas, depois por paredes. A camisola virou símbolo de uma intimidade erótica. Havia agora a camisola da jovem e a camisola da mulher casada e ela, decorosa, protetora da sua individualidade, também não anda mais por aí com os cabelos soltos. Na verdade, o corpo feminino nunca foi tão escondido como naqueles anos: combinação, calção, anáguas e espartilhos com tantas fitas, botões e colchetes quanto fossem possíveis. No final do século, as lingeries alcançam o nível do absurdo em relação a rendas.

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Ao mesmo tempo, estavam lá as amarrações à preguiçosa, que permitiam às mulheres despirem-se sozinhas. Escondia-se mais cultivava-se a possibilidade de mostrar, a aparição feminina se tornava solene por conta dos cuidados no proteger-se. As curvas, os pés, o couro das botinas, o fetichismo dos aventais que, por seu tom doméstico, fazem tudo parecer permitido.

Entre os homens, a variedade é curtíssima: terno e sobrecasaca, o preto e o cinza fariam Baudelaire afirmar “este é um sexo de luto”. As roupas íntimas masculinas, tampouco, tinham algum acréscimo quanto à forma ou adornos. O homem do século XIX tem suas energias voltadas para o trabalho e, por serem as atividades financeiras as mais valorizadas, eram essas roupas de homens de negócios que começaram a ser copiadas pelos operários e outros homens de labor menos exaltado; com elas, podiam misturar-se na multidão e manipular os símbolos sobre o corpo que se estabeleciam.

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Mas a contenção do corpo ia além das roupas que cobrem e impedem que o externo entre no indivíduo. Para além das invasões, o excesso de pudores acabou provocando o efeito contrário, um alastramento dos desejos. Os desejos provocavam vergonhas e pecados, deviam ser refreados. Uma questão grave para a época era a busca do prazer solitário. Recomendava-se aos jovens que não permanecessem muito tempo sozinhos. Haviam prescrições sobre o tempo que deviam durar os banhos e sobre o perigo dos lençóis macios, uso de longas camisas, de bandagens e de correntes, numa campanha moralista que, naturalmente, provocava o completo contrário nas ações: confessionários e consultórios médicos eram bastante procurados. Por conta disso, alguns jovens eram submetidos a sessões terapêuticas de banhos com gelo e, até mesmo, a cauterização da uretra ou do clitóris. Tanto aterrorizante! Nas palavras do historiador Alain Corbin, comparada com isso, nossa célebre submissão aos impulsos e desejos do corpo parece bastante descuidada e até desajeitada.


Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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