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persépolis, uma animação demasiado bela para ser verdade...

publicado em cinema por Patricia Gouveia | 13 comentários

Irao perseguicao animacao filme persepolis

Marjane Satrapi é a personagem da história, a autora de uma banda desenhada sobre essa personagem e ainda uma das autoras do filme, em conjunto com Vincent Paronnaud. “Persépolis” é um filme de animação realizado em França usando métodos de desenho e traço tradicionais e que foi nomeado para os Óscares de 2008 como melhor filme de animação. O filme obteve ainda o prémio do júri de Cannes em 2007. Poesia visual, narrativa e sonora.

Irao perseguicao animacao filme persepolis

Persépolis” é uma bela história sobre as diabruras de uma miúda durante as perseguições constantes no Irão efectuadas pelo regime ditatorial e posteriormente pelo Iraque. Marjane é uma criança num mundo em guerra, depois uma adolescente no exílio na Áustria e, finalmente, uma emigrante em França. A autobiografia não só é tocante porque está muito bem contada e é emocionalmente muito forte como consegue transpor a história de uma iraniana no Ocidente, com todas as incompreensões e estranhezas vividas, universalizando o assunto ao ponto de se gerar uma identificação com todos os regimes de ditadura. Para este efeito contribui, sem dúvida, aquilo que a autora considera, no making of do filme, uma forma de representação gráfica estilizada e abstracta, tirando partido de um traço simples e expressivo. Penso que este efeito, gerado pela essência estilística do traço, é tão notório que várias vezes, e isto ainda sem ter visto o making of do filme, dei comigo a pensar na expressividade daqueles olhos, daquelas bocas e daqueles gestos animados. Traços tão convincentes de provocar lágrimas. Traços essenciais onde nada está a mais, onde nada é decorativo. Uma simplicidade que toca o coração.

Os ambientes do filme são lindos, tiram partido de algumas texturas misturando-as com sombras e manchas muito estilizadas e planas. A composição dos ambientes é muito rica em matéria de linhas fundamentais e tira partido do claro-escuro e do contraste, pontuando o cenário com apontamentos de cor. A animação tradicional, que segundo os extras do filme, tira partido de técnicas que não se usavam há pelo menos 20 anos em França, acentua, através de um processo de homogeneidade do traço, o valor estético do filme. A sonoplastia é mágica e a voz de Chiara Mastroianni realça o lado cómico e ao mesmo tempo dramático da personagem de Marjane, uma miúda de nove anos que, entre o final dos anos setenta e o início dos oitenta do século passado, vê os seus familiares e amigos serem mortos por fundamentalistas que tomam o poder e obrigam as mulheres a usar véu e a obedecer a regras sem sentido nenhum. Marjane, uma miúda que gostava de dançar ao som dos Iron Maiden, do movimento punk, usar ténis de marca e blusões com frases activistas. Uma miúda como outra qualquer que gostava aos nove anos de ser profeta.

O filme foi realizado depois do sucesso de dois livros autobiográficos de banda desenhada publicados por Marjane Satrapi sob o mesmo nome, “Persépolis” I e II, e não quer abdicar da memória daqueles que perderam a sua liberdade para combater um regime repressivo e que impunha valores apenas legitimados por alguns. Uma animação demasiado bela para ser verdade…

patricia
Sobre a autora: Patricia Gouveia é uma personagem do jogo Mouseland. Dedica-se a viajar no ciberespaço e em realidades alternativas reais que misturem realidade e ficção numa constante exploração e experimentação lúdica. Saiba como fazer parte da obvious.

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13 comentários

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Excelente sugestão. Fiquei com vontade de ver.

É realmente bastante aclamativo. Tanto pela descrição como pelo artigo em si.

Olá a todos e obrigado pelos comentários. Para quem gosta de banda desenhada este filme é mesmo imprescindível. E a história também. Requintado. xxx mouse

M4Jor

todo o sucesso deste filme será pouco para os grandes artistas!
excelente! n vi ( ainda) mas excelente!

Já ví o filme e também adorei. Pena que não ganhou o Oscar. Se não me engano, o "As Bicicletas de Belleville" também não ganhou como animação, só como trilha sonora (ótima, por sinal). Será perseguição aos franceses? Quando aquele pessoal da academia vai entender que cinema de animação não é só tecnologia.

Também gostei muito do filme "As Bicicletas de Belleville" mas não esquecer que uma francesa este ano, nos óscares, arrecadou o prémio de melhor actriz principal ;-))). Não deve ser pela nacionalidade do filme mas acho que o problema foi daquele rato simpático, cozinheiro e também francês, hehehe. xxx mouse

Raúl Guerra

Me pergunto se o título tá querendo ser irónico... O que é demasiado belo? O filme? O regime iraniano? A animação? A autora? A personagem? A história?
Para mim a animação foi bela porque é verdadeira. Não vi academismo e a autora nem usa cor por que não queria embelezar a imagem, né? O desenho também se distancia do canone da animação professional.
O que leva você a pensar que Marjane tá falseando sua história?

A questão do belo nada tem a ver com cânones clássicos (da estética clássica e das categorias dos objectos estéticos na senda de Kant, de belo e bom, por exemplo) sobre o belo ou sobre o feio mas apenas é um jogo de linguagem: "o filme é demasiado belo para ser real, para existir". A expressão é bastante usada em Portugal e quer dizer "qualquer coisa demasiado boa para ser verdade". Não pretende de todo dizer que a realizadora do filme está a falsificar as suas memórias mas antes insistir na ideia de ficção como parte da realidade. xxx mouse

Raúl Guerra

Essa expressão existe também no Brasil mas o significado não é esse e em Portugal também não, lá perguntei a uma amiga professora de língua.
"Demasiado belo para ser real", "bom demais para ser verdade" e toda essa expressão significa que "coloca-se uma dúvida sobre a sinceridade ou a honestidade" da coisa, tão bom que dá para a gente desconfiar. Algo que parece "bom demais" é como a pontinha de queijo que você põe para chamar ratinho e exterminar ele, a gente duvida, né? Se tá "bom demais para existir" é porque na realidade é pior que o que a gente vê.

Em relação a ratos sou especialista e se a ideia é exterminar ratos estou fora. Mas penso que a relação entre ficção e realidade está implícita no que disse em cima, isto é, assumir que a ficção faz parte da realidade e vice-versa. É mais subtil do que entrarmos em jogos de palavras "demasiado belo", "bom demais", que são à partida interpretações. Como o brasileiro Luís Fernando Veríssimo assinalou no jornal “Expresso” de 19 de Julho de 2008: “A etimologia das palavras não é uma ciência exacta. Definir a origem de palavras muitas vezes envolve mais palpite e fantasia do que rigor escolástico”. xxx mouse

Raúl Guerra

Permita dizer que uma coisa é etimologia e outra coisa é o significado e uso de palavra.
A expressão inglesa "too good to be true" quer dizer a mesma coisa que a expressão utilizada. Podemos dizer que é uma expressão quase universal, a etimologia (saber se foram os ingleses ou os gregos que a inventaram e a partir do quê) não tem aqui nenhum interesse.
Se não incomoda você a gente pensar que tá acusando Marjane de embelezar sua história, também não me importa, mas que seu título e sua conclusão estão ambíguos, isso estão. Uma coisa é o que a gente quer dizer outra coisa é o que diz, a raiz da ambiguidade, né?

Ambiguidade é, sem dúvida, comigo e depois sempre acreditei que uma coisa é aquilo que as pessoas dizem e oura aquilo que querem dizer. mouse + land + jogo = ambiguidade. Há tanta ambiguidade na história e no filme porque não sugerir isso no título e no epílogo do texto? Ambiguidade é a palavra. Concordo! Sempre concordei. xxx mouse

Ana

Pérsepolis já está sendo dublado e em breve estará disponível nas prateleras brasileiras..

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