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The Dreamers: Bertolucci e as declarações de amor em mão-única

publicado em cinema por | 12 comentários

Só existe a declaração de amor entregue, ela não irá nunca ser recíproca. Certamente essa não é a única possibilidade de interpretação, mas é uma das possíveis que nos salta em meados do filme The Dreamers (Os Sonhadores) de Bernardo Bertolucci.

 Amar Amor Bertolucci Cinema Dreamers Filmes Sonhadores Amantes

Paris mergulhou nas fumaças de gás lacrimogênio num processo que foi quase de surpresa. O isolado caso de protesto dos estudantes da Universidade de Nanterre, contra a proibição das visitas masculinas aos dormitórios femininos culminou, num curto mês, em combates urbanos entre população e policiais. Em maio de 1968, as prisões coletivas e as reivindicações sociais já haviam se tornado rotina junto com as bombas de gás lacrimogênio e as barricadas. Enquanto isso, atrás das janelas e das cortinas de uma casa, três jovens estão adormecidos em uma banheira, sob efeito de uma droga nepalense.

Bertolucci nos coloca com ele como voyeurs, e é como entramos no banho dos personagens de The Dreamers. Os cinéfilos Theo (Louis Garrel), Isabelle e Matthew, embora partilhem de muitas idéias daqueles que estão nas ruas, estão envolvidos demais em suas tensões próprias: o dois primeiros, irmãos gêmeos, vivem uma relação de proximidade afetiva que beira, ou extrapola, o sadismo erótico e Matthew (Michael Pitt) é apenas um estudante americano convidado pelos dois a ser hóspede da casa enquanto seus pais viajam para o litoral. Mas o estudante apaixona-se por Isabelle, por uma Eva Green que se tornaria então mítica. O filme de 2003 tem suas possibilidades de interpretação multiplicadas pela profusão de idéias chaves deixadas ao longo do seu caminho e que, sabemos, dizem respeito a muitas portas.

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Em um desses momentos-chave, Matthew proclama amar Isabelle, ao que ela responde amá-lo também. Nada demais nesse interstício, mas o americano retruca com pesar: mas eu amo você de verdade. A moça nega veementemente a afirmação de Matthew. É a porta de entrada de uma curiosa reflexão:

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Para Matthew, não é cabível que, em resposta à declaração de amor, haja uma que pretenda equivaler-se, principalmente porque a equivalência que há no “amar também” simplesmente não existe. Na verdade, quantas coisas mais práticas e e polidas há que dizer “eu te amo também”? Não que tudo seja cinismos, mas a frase costuma ter lá sua dose dele num movimento natural diante da pressão atmosférica que se forma na entrega dum amor – o que achamos tão grave. É justamente essa relação de pressão e peso que Bertolucci parece querer enfatizar.

Não há réguas capazes de medir abstrações sentimentais como a tristeza, a frustração ou a alegria; são todas coisas pessoais, egoístas e relativas. No Francês, a resposta para a declaração “je taime” não passa pela urgência de igualar seu sentimento ao outro num certo frenesi de que se dissipem logo as preocupações. À um “je taime", segue-se um “moi non plus”, ou seja “eu não mais”/“eu não te amo mais do que você a mim”. É um nivelamento bem diferente. Um que admite os fatos de se ter poder sobre alguém entregue.

Os franceses parecem ter compreendido, ao menos melhor que a América, que toda declaração de amor é uma entrega de mão única; nada faz possível que seja recíproca. O ser declarante diz dos seus sentimentos, teoricamente verdadeiros, e nada pode pedir em troca. Por sua vez, o que ouve a declaração nada pode fazer a respeito para defender-se da fraqueza do outro num argumento bastante parecido com o de um Cristo aniquilado em prol da salvação de seus queridos. Deve ser por isso que tentamos aplacar a questão com o rápido adendo-refrigério do “também”: nada pior que o poder dos humilhados.

Como a dádiva aparece na antropologia - onde todo “presente” entregue exige uma reposição de igual valor – a declaração de amor torna-se um presente impossível de ser reposto. Recebê-la aprisiona aquele que, indefeso, recebe. É assim que Bertolucci, pela voz de Matthew expõe o seu ponto de que a resposta de Isabelle, como tantas nossas, é uma máscara leviana que nega a dádiva exposta pelo outro. O amor correspondido é sempre outro, novo e inédito a nós. Amar é condição ímpar.

prill
Sobre a autora: priscilla santos é adoradora de cervejas e colabora com o obvious. Saiba como fazer parte da obvious.

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Comentários

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tajana

Bonito. Não vi o filme (está na lista dos 795 filmes que eu queria ter visto e não vi). O filme é tão cheio de espelhos quanto as imagens sugerem?
É curioso, eu pensava que o 'Moi non plus' queria dizer 'Eu também não', e que o célebre 'Je táime /Moi non plus' era uma brincadeira. Já aprendi um pouco mais de francês.

e o site?? nossa!!!!!! quando eu descobri este filme/ link à uns 4/5 anos cheguei a adaptar toda uma apresentação de tendencias de consumo em cima do roteiro do filme... os conflitos externos, os conflitos internos, as fantasias, a realidade... é simplesmente maravilhoso
mas o tal link que começava em preto e branco com vozes em off n~~ao estou encontrando... se eu achar volto aqui ;))

http://www.foxsearchlight.com/thedreamers/
achei o antigo link navegando em ... the experience.... sabe fantasiei muito mais no link na época do que foi ver o filme de fato... achei que a linguagem ia ser mais confusa como no link preto e branco... fragmentos como em magnólia
aliás na época existia na web varios links com mensagens bem intimistas que contavam estória bem exoticas e sempre existencialistas alias é pirante o link/roterio de http://www.postvisual.com/theuninvited/en/

vc conhece...
http://supersoniks.com/jacquelinel/
http://www.bluesuburbia.com/
http://www.perte-de-temps.com/
http://www.book-of-numbers.com/
http://www.nobodyhere.com/
os poemas em italiano em http://www.music4you.it/amiamo/adsl/startadsl.htm

coleciono links sabe?? rsrsrs

Caiano

Vivam!

Dêem uma olhadela à configuração do set de caracteres.

Os feeds chegam cheios de erro.

Assisti o filme. Muito bom.

A sua percepção a respeito do diálogo e das questões que envolvem uma declaração de amor merece aplausos. Muito bem elaborada. Gostei mesmo.

É difícil perceber esse ponto no filme, uma vez que ficamos extremamente curiosos a respeito da relação dos irmãos e o desfecho de tudo isso. Ficamos a espera de uma grande cena reveladora.

Vou assistir o filme novamente e ficarei atenta a mais detalhes.

Não suporto o "também".

michelle

Num momento em que confitos se passam três pessoas voltam-se para si e vivem momentos que nunca, no caso mathew, pensaria passar.

A colocação final sobre o filme que diz que somente um ama, é extremanete real, "O maor é condição ímpar"!
Quando um ama demais, o outro está amando de menos.
Pobre Matheuw, único que sofreu de amor demasiado.

em menos de uma semana o óbvious falou de dois filmes que adoro...

TAIGUARA

Acho o filme fraquinho, conservador em termos políticos e no trato com o Maio de 68, etc. Mas o ponto exposto aqui gerou uma reflexão interessante. "amar é condição ímpar". Concordo.

PArabéns pelo post. E esse site é ótimo.

Lessandri

Infelizmente não vi o filme, mas me falaram bem dele. E adorei o seu comentário sobre o amor. E a facilidade com a qual proferimos essa frase seguida de um também...
Mas a fragilidade à qual nos expomos a amar é justamente essa, e creio q torna as coisas mais belas...
Enfim, parabens pelo blog. Está mto bom, sinto não tê-lo encontrado antes!

Boa sorte.

Carol

Interpretei a relação dos gêmeos como a mais profunda ingenuidade.O próprio Matthew grita a eles que cresçam, afinal tudo era uma brincadeira, inclusive a idéia que Isabelle teve em raspá-lo, naquela cena do banheiro.É interessante, porque sempre imaginamos uma geração 68 politizada e madura.Acho que Bertolucci quis brincar com isso.

Cherry Candy

Ainda não assisti o filme, mas fiquei com mto interesse.
Realmente o amor é ímpar. Qtas vezes qdo estamos amando, ñ aparece a insegurança de dizermos oq sentimos ou nossa reação de perplexidade qdo alguém diz q nos ama. Qtas vezes eu msm já me peguei divagando sobre meus relacionamentos, pensando em qm ama mais, se eu ou o outro. No fim das contas para ñ ficar maluca, prefiro me contentar em ñ saber e permanecer na minha realidade do "as vezes eu qm amo mais, outras ele ama mais q eu".

Cida

O amor não é uma luta, não só te amo se tu me amas tb, a entrega é de dois, não se pesa nem se mede como num mercado aquilo que está sendo colocado para o outro. A disputa não é bem amor, como diz o e-mail que circula na net, é outra coisa...

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