chega de blá blá blá e arte contemporânea, eu quero é desenhar!



 desenho duchamp Beatriz Basquiat contemporaneo cris alcantara Duchamp

A arte, principalmente durante os anos da década de 60 do século passado (ainda não me acostumei com o fato de me referir assim ao século em que nasci) teve como principal característica o conceitualismo. Era a arte do pensar. Duchamp em 1917 começou a brincadeira, e assim, depois dele tantos outros. A obra Merzbau de 1937 de Kurt Schwitters é um bom exemplo da importância dada ao objeto pronto traduzido em conceito e inserido no universo da arte.

Vinte anos depois da década de 60, pensava-se que o conceitualismo havia atingido o seu ápice, os artistas estavam cansados de tanto pensar: surgem então os anos 80. Ufa! É o retorno da pintura, a volta do artista que coloca a mão na massa e não só na encefálica. Tinta sobre madeira, tinta sobre telas gigantescas, tinta sobre tinta, quadros objeto, o expressionismo abstrato levado às últimas consequências. Naquela década também surgem as galerias que iriam fazer da pintura oitentista uma mina de ouro. É o mercado milionário da arte. Os artistas se rendem a ele, e muitos se entregam a fórmulas que deram certo passando a repetí-las. Jovens, em sua maioria, são descobertos e sua arte ganha o mundo. Basquiat, Haring. No Brasil, o grupo Casa 7. Lindo!

Hoje, ao olharmos para a arte feita há 20 anos atrás percebemos uma enxurrada de criatividade, ouso dizer, nunca vista antes na história da arte. Uma arte sem preconceitos, pois, diferente da arte moderna, a arte pós moderna se baseava na liberdade. Liberdade de buscar referências nos mais remotos e inimagináveis temas, ou, de misturá-los ao contexto do mundo vivido por aqueles artistas. Diversão artística.

 desenho duchamp Beatriz Basquiat contemporaneo cris alcantara Pollock

Gosto de ver algumas cenas do filme Pollock em que a mulher dele, uma crítica de arte, pede que ele defina sua pintura numa série de questões complexas impostas por ela. Pollock nunca as respondia, se voltava para os quadros e continuava a pintar. Infelizmente, temo perceber que atualmente a crítica de arte venceu o artista, todos deveriam ter feito como Pollock, mas não, hoje quem faz a arte é o crítico, aliás, o artista age e “cria” como o crítico. Mentes pensantes demais, bulas compridas para a explicação da “obra de arte”. Nossa, quantas aspas, a arte se transformou mesmo em pastiche de si mesma. Será que a arte contemporânea daqui há vinte anos se tranformará em nome de movimento, será que nos apoderamos do termo assim como os modernistas do moderno? Não sei, isso já é divagação demais, melhor parar por aqui e voltar a desenhar…

 desenho duchamp Beatriz Basquiat contemporaneo cris alcantara Basquiat

A seguir, para encerrar, iremos ler dois diálogos: um entre o “artista contemporâneo” e um crítico de arte, e o outro, entre o “simplesmente artista” e um crítico de arte.

Diálogo 1

Crítico: - Acho que com esta sua obra você conseguiu abreviar de uma forma inusitada o que sentimos nos momentos de espera em uma sala de aeroporto!

Artista Contemporâneo: -Pois é, eu procurei nessa vídeo-instalação-performática-radioativa fazer com que o espaço da sala de espera de aeroporto levasse o receptor da arte a uma total reflexão, tá compreendido? Como se as sensações onipresentes dessa atmosfera atingissem de maneira até metafísica o espectador da minha obra...

Crítico: -Justamente, foi isso que eu percebi! Vou escrever um artigo falando sobre essa sua forma interdisciplinar de fazer com que tantos elementos, até mesmo elementares, figurassem de maneira tão...Tão...Tão...abstratizante!

 desenho duchamp Beatriz Basquiat contemporaneo cris alcantara Beatriz Milhazes

Diálogo 2

Crítico conversando com o “simplesmente artista” após ver um de seus desenhos (“Desenhos. Nossa! Que forma primitiva de se fazer arte!” diria o crítico).

Crítico: - Por favor, conceitue exatamente o que você quis dizer com a utilização de algumas referências tão antagônicas nesta sua arte feita com traços e riscos sobre o suporte papel.

Simplesmente artista: O que? Onde tem antagonismo nesse desenho? O senhor pode se explicar melhor?

Crítico: - Eu vejo um antagonismo entre a parte inferior do desenho e a superior. É como se os três homens de baixo estivessem de alguma forma pressionando para que os de cima desaparecessem, e isso tem até a ver com o mundo competitivo em que vivemos, não é?

Simplesmente artista: - Olha senhor, na verdade não é nada disso não. São apenas 3 dançarinos... Os de cima são os mesmos dos de baixo... Sinceramente, a referência veio dos musicais das décadas de 60, Gene kelley, Fred Astaire...

Crítico: - Claro, é disso que eu estava falando, dessa sincronia entre o contemporâneo e o arcaico...O clássico...Vejo isso de forma predominante nas cores, aliás, porque você utilizou o amarelo?

Simplesmente artista: - Mas moço, eu não utilizei o amarelo!

 desenho duchamp Beatriz Basquiat contemporaneo cris alcantara Cris Alcântara

cris alcântara

é colaboradora do obvious. Ela gostaria de viver num mundo art decó entre paredes em tons verde água e casas a la "Jetsons".
Saiba como escrever na obvious.

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