como aprendi a gostar dos Jogos Olímpicos


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O que une as minhas modalidades olímpicas preferidas - os saltos para a água, a ginástica, o atletismo (sobretudo os saltos) - é o facto de todas elas implicarem um domínio absoluto do corpo e do espírito, uma conjuração de todos os músculos, de todos os sentidos e de cada recanto claro e obscuro do cérebro para um único movimento - e que esse seja perfeito, no espaço e no tempo. Todo o esforço, as horas de treino, as repetições e os desânimos, devem desaparecer atrás do instante e do gesto que nos é dado ver.

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Emociono-me a sério ao ver a concentração dos atletas que preparam um salto em altura, a maneira como posicionam as mãos, como inclinam o tronco. Tento encontrar no mundo real uma forma comparável à curva delicada das costas da ginasta no momento em que termina a prova, ergue os braços e agradece. Esforço-me por ver nos olhos do saltador a linha perfeita que ele desenha em direcção ao abismo. Concentração, concentração. Não se pode apagar e voltar a fazer. Tudo é irrepetível, tudo acontece de facto, ali, e é bonito, mesmo nos erros, nos falhanços, na queda.

Nadia Comaneci, os cristos nas argolas e Greg Louganis são a minha santíssima trindade olímpica.

A primeira, Nadia Comaneci, é a ginasta prodígio romena que se tornou uma lenda ao conseguir, pela primeira vez na história, a nota 10 (desempenho perfeito) nas barras assimétricas, nos JO de Montréal, em 1976. Estávamos na época em que havia uma coisa chamada 'a Europa de Leste', e era de lá, do país do soturno Ceausescu, que vinha Nadia. Os mostradores não estavam sequer preparados para essa nota, e apresentaram um "1.00". Nadia tinha então 14 anos, e no seu rosto miudinho e infantil quase só se viam os olhos escuros e firmes, chamando a si toda a a determinação, o domínio técnico e a leveza que a tornaram uma das atletas mais conhecidas da história.

Quanto ao Cristo nas argolas, imagino que haja poucos exercícios tão violentos como esse - pela força física exigida, mas também pelo esforço de não tremer (como se controlam os músculos e os nervos que nós, comuns mortais, nem sequer sabemos que existem?), de parecer simplesmente repousar, às vezes num balanço falsamente relaxado. O pino olímpico anda perto, mas não é tão dramático. O italiano Yuri Chechi (ruivo, imagine-se!) foi, na década de 90, um dos campeões desta modalidade; os seus cristos são prodigiosos, como este, nos JO de Atlanta (1996) em que se mantém na posição uns 7 ou 8 segundos e consegue, ainda, sorrir e saudar o público.

Deixo para o fim o saltador americano Greg Louganis. Filho de um casal samoês-sueco e adoptado por imigrantes gregos (onde, senão nos EUA?), Louganis é, além de um atleta de topo, quase demasiado bonito para que eu o ache bonito. Mas é. E a sua beleza não passou despercebida à revista Playgirl, para a qual pousou no auge da carreira - alguns anos antes de assumir publicamente a sua homossexualidade, e de posteriormente ter anunciado que tinha SIDA. A sua história pessoal é, também, a da luta pelo reconhecimento e aceitação da sua diferença (por si mesmo, pelos outros), e da capacidade de superar tudo e conseguir o salto perfeito. Um dos momentos mais célebres da sua carreira teve lugar nos JO de Seoul, em 1988: num dos saltos preliminares, Louganis bateu com a cabeça na prancha; apesar de ter ficado com uma comoção cerebral, participou na competição até ao fim e acabou por conseguir a medalha de ouro.

Há muitos saltadores que eu vejo e não sei dizer, como leiga, se são muito ou pouco bons. Gosto, e ponto. Mas Louganis era diferente, e sem que eu seja capaz de explicar qual o milésimo de segundo ou o ângulo específico do seu corpo que fazia essa diferença. Perante um salto de Louganis, sabemos que estamos a ver outra coisa. O único termo de comparação que encontro são os movimentos dos bailarinos: o domínio do corpo atinge um patamar que apenas se distingue da magia porque sabemos que esta não faz parte das regras do jogo. Nos anos 30, a realizadora Leni Riefenstahl viu bem essa aliança poderosa entre o domínio e o abandono total no mergulho para o vazio, o corpo que por segundos existe apenas no ar, livre, e captou-o na sequência final de Olympia (recomendo sobretudo a partir do minuto 3:00).

Mas voltando a Louganis. Um dia vi-o atirar-se do cimo de uma prancha: directamente, sem piruetas, abrindo os braços e deixando-se cair para a frente. Foi o mais perto que alguma vez estive de ver alguém voar, de ver alguém flutuar no espaço, apenas um corpo, sem máquinas nem efeitos de câmara lenta. E ainda hoje essa imagem, que guardo religiosamente na memória, me comove como um momento de beleza pura a que assisti em directo, e que não me vai ser dado segunda vez.


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