John Buscema – O último mestre da Marvel


De pequeno a minha paixão no desenho era sempre propensa a traço de cadência impaciente e acelerada. Os artistas nunca me chamaram particular atenção, mas antes situações de desenho. Meu primeiro louvor à arte foi sobre o logotipo de uma cimenteira, onde se destacava a traço simples e preciso uma figura musculada em pose hercúlea.

marvel John Buscema conan barbaro

Terá sido a partir dessa altura que a minha atenção se focou naturalmente em figuras inspiradoras como o Homem-aranha, Hulk e outros super-heróis germinados na pena dos artistas norte americanos.Na porta grande da adolescência o meu foco só encontrava nitidez no futebol e nas magníficas histórias em banda-desenhada da Marvel.

Lembro, nessa época, uma tarde escolar de absoluto tédio, como habitualmente, em que um colega e grande amigo se lembra de trazer de casa, entre os livros de estudo, uma revista de banda-desenhada com capa de aprumo artístico que me pareceu só tecnicamente comparável às famosas capas dos álbuns da Anita, do ímpar Marcel Marlier, (salvaguardando as diferenças no estilo e no conteúdo). Fiquei absolutamente fascínado com aquela pintura a acrílico da capa – da autoria de Earl Norem -, a pincelar uma situação de guerra onde sobressaía uma figura bronzeada que dava nome ao álbum: Conan, o Cimério.

O melhor, no entanto, estava para acontecer. Ao me dispor a jeito para a abertura da história uma onda fervilhante de pura mestria a tinta da china cortou-me a glote e bloqueou-me a engrenagem pulmonar. Tentei recompor-me do baque inicial e cumprir o ritual de leitor de BD, coordenando na mente - ainda púbere nestas andanças - o desenho com a história, mas a tarefa afigurava-se complicada; o traço desbravava caminhos que até então não imaginara desbravados. Li no rodapé os artistas: o desenhista era o John Buscema e o Alfredo Alcala trabalhava os acabamentos.

Atentei melhor a obra. O traço era imperial: descomplexado, desprendido, certeiro e rebelde; a desafiar todos os métodos, a fintar todos os conceitos, a elevar-se naturalmente. As sequências eram tão harmoniosas como as aparições da Marilyn Monroe – vista frame a frame, a actriz surge sublime em todos os frames. Quadrinho a quadrinho o traço surge sublime em todos os traços.

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A meio da história ainda não fazia a menor ideia do enredo. As minhas retinas pulavam de luz em contraste, de sombra em movimento, devoravam pormenores, cegavam de tanta informação. Para mais Alcala emprestava ao desenho acabamentos de muita dedicação e estudo; complementava a obra com uma fidelidade comovente ao traço original.

Desde então e durante anos todas as minhas economias e recursos de improvíso eram vasados nas obras do John Buscema. Eu que fora até então indiferente a nomes, que captava a arte avulso, numa miscelânia de vários artistas, foquei toda a minha sede de aprendizagem na arte desse homem de figura volumosa e formal, com barba impecavelmente aparada e olhar compenetrado.

Nascido no Brooklin em meados dos anos 20 do século passado, Buscema revelou interesse precoce nas grandes figuras clássicas como Michelangelo, Rubens e Davinci (onde, por certo, aprumou a respiração na sua arte e a compactou para formato BD). Fez-se homem do traço não só como banda-desenhista mas também na indústria menos apetecível da publicidade (onde, presumo, terá entendido a urgência na perfeição). Foi na Marvel, porém, que explanou todo o seu talento e provou ao mundo que a arte desenhada também encontra amplo espaço na ilustração e BD, espaço que também ele desbravou, ampliou e redimensionou.

A Marvel pós-Buscema hoje em dia é como é. Actualmente as tiras BD da editora brotam de entre um turbilhão de cores embutidas em figuras de musculação disforme e desproporcional e rostos distorcidos que surgem de cenários sombrios e claustrofóbicos, tudo regado com os mais sinistros e 'sobredoseados' recursos em photoshop. O desenho perdeu a respiração, as histórias a inspiração e o recheio causa colesterol: embutiram no papel uma espécie de fast-draw e empacotaram para venda. Os desenhistas fazem o que podem e muito mais do que deviam. Mas há que convir que não surgem duplas Buscema – Alcala ao virar da esquina. A herança é pesada.

No que me concerne, fica a arte e obra de John Buscema, figura genial que desafiou jovens e ingénuos desenhistas como eu a planar em ventos adversos. Que nos fez ver que a partir de um simples traço, um esboço primário podemos seguir caminho para um mundo de sensações muito para lá daquele a que nos propusemos no dia em que decidimos ser executantes de rabiscos para o resto das nossas vidas.

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Henrique monteiro

adora ir às nêsperas, faceta que nunca conseguiu explicar muito bem até hoje. Tem aversão epidérmica ao tipo de sandálias que se usa para o efeito.
Saiba como escrever na obvious.
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