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John Buscema – O último mestre da Marvel

publicado em artes e ideias por henrique monteiro | 13 comentários

marvel John Buscema conan barbaro

De pequeno a minha paixão no desenho era sempre propensa a traço de cadência impaciente e acelerada. Os artistas nunca me chamaram particular atenção, mas antes situações de desenho. Meu primeiro louvor à arte foi sobre o logotipo de uma cimenteira, onde se destacava a traço simples e preciso uma figura musculada em pose hercúlea.

marvel John Buscema conan barbaro

Terá sido a partir dessa altura que a minha atenção se focou naturalmente em figuras inspiradoras como o Homem-aranha, Hulk e outros super-heróis germinados na pena dos artistas norte americanos.Na porta grande da adolescência o meu foco só encontrava nitidez no futebol e nas magníficas histórias em banda-desenhada da Marvel.

Lembro, nessa época, uma tarde escolar de absoluto tédio, como habitualmente, em que um colega e grande amigo se lembra de trazer de casa, entre os livros de estudo, uma revista de banda-desenhada com capa de aprumo artístico que me pareceu só tecnicamente comparável às famosas capas dos álbuns da Anita, do ímpar Marcel Marlier, (salvaguardando as diferenças no estilo e no conteúdo). Fiquei absolutamente fascínado com aquela pintura a acrílico da capa – da autoria de Earl Norem -, a pincelar uma situação de guerra onde sobressaía uma figura bronzeada que dava nome ao álbum: Conan, o Cimério.

O melhor, no entanto, estava para acontecer. Ao me dispor a jeito para a abertura da história uma onda fervilhante de pura mestria a tinta da china cortou-me a glote e bloqueou-me a engrenagem pulmonar. Tentei recompor-me do baque inicial e cumprir o ritual de leitor de BD, coordenando na mente - ainda púbere nestas andanças - o desenho com a história, mas a tarefa afigurava-se complicada; o traço desbravava caminhos que até então não imaginara desbravados. Li no rodapé os artistas: o desenhista era o John Buscema e o Alfredo Alcala trabalhava os acabamentos.

Atentei melhor a obra. O traço era imperial: descomplexado, desprendido, certeiro e rebelde; a desafiar todos os métodos, a fintar todos os conceitos, a elevar-se naturalmente. As sequências eram tão harmoniosas como as aparições da Marilyn Monroe – vista frame a frame, a actriz surge sublime em todos os frames. Quadrinho a quadrinho o traço surge sublime em todos os traços.

marvel John Buscema conan barbaro

A meio da história ainda não fazia a menor ideia do enredo. As minhas retinas pulavam de luz em contraste, de sombra em movimento, devoravam pormenores, cegavam de tanta informação. Para mais Alcala emprestava ao desenho acabamentos de muita dedicação e estudo; complementava a obra com uma fidelidade comovente ao traço original.

Desde então e durante anos todas as minhas economias e recursos de improvíso eram vasados nas obras do John Buscema. Eu que fora até então indiferente a nomes, que captava a arte avulso, numa miscelânia de vários artistas, foquei toda a minha sede de aprendizagem na arte desse homem de figura volumosa e formal, com barba impecavelmente aparada e olhar compenetrado.

Nascido no Brooklin em meados dos anos 20 do século passado, Buscema revelou interesse precoce nas grandes figuras clássicas como Michelangelo, Rubens e Davinci (onde, por certo, aprumou a respiração na sua arte e a compactou para formato BD). Fez-se homem do traço não só como banda-desenhista mas também na indústria menos apetecível da publicidade (onde, presumo, terá entendido a urgência na perfeição). Foi na Marvel, porém, que explanou todo o seu talento e provou ao mundo que a arte desenhada também encontra amplo espaço na ilustração e BD, espaço que também ele desbravou, ampliou e redimensionou.

A Marvel pós-Buscema hoje em dia é como é. Actualmente as tiras BD da editora brotam de entre um turbilhão de cores embutidas em figuras de musculação disforme e desproporcional e rostos distorcidos que surgem de cenários sombrios e claustrofóbicos, tudo regado com os mais sinistros e 'sobredoseados' recursos em photoshop. O desenho perdeu a respiração, as histórias a inspiração e o recheio causa colesterol: embutiram no papel uma espécie de fast-draw e empacotaram para venda. Os desenhistas fazem o que podem e muito mais do que deviam. Mas há que convir que não surgem duplas Buscema – Alcala ao virar da esquina. A herança é pesada.

No que me concerne, fica a arte e obra de John Buscema, figura genial que desafiou jovens e ingénuos desenhistas como eu a planar em ventos adversos. Que nos fez ver que a partir de um simples traço, um esboço primário podemos seguir caminho para um mundo de sensações muito para lá daquele a que nos propusemos no dia em que decidimos ser executantes de rabiscos para o resto das nossas vidas.

marvel John Buscema conan barbaro

henrique
Sobre o autor: henrique monteiro adora ir às nêsperas, faceta que nunca conseguiu explicar muito bem até hoje. Tem aversão epidérmica ao tipo de sandálias que se usa para o efeito. Saiba como fazer parte da obvious.

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13 comentários

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Sempre adorei banda desenhada, sempre li todo o tipo de livros, da Marvel inclusive, a minha opinião quanto ao Conan é que, não será exactamente um livro para jovens adolescentes, a complexidade do desenho não permite a leitura rápida e fluída que os jovens adolescentes preferem. Considero esse tipo de desenho mais arte que BD, podemos considerar o autor de Conan um pintor aprisionado nas fantasias da juventude.

Parabéns pelo excelente blog

Eduardo

Fantástico! Voltei à infância e adolescência, onde as histórias do guerreiro cimério ajudaram a forjar uma referência do ideal masculino que eu queria ser no futuro: forte, irreverente, senso de justiça e honra. Ah, e é claro, sorte com as mulheres ;)
Grande John Buscema...e não esqueço do Roy Thomas, que era o argumentista e criava histórias fabulosas...Ai, ai...boa época!

MG

A arte ficcio-fotográfica de Giovanni Buscema parece ter sido fonte de inspiração para jovens artistas que por todo o mundo desabrocharam em época de Guerra Fria e onde os USA criavam heróis do nada, mas causando alguma confusão nas hostes pré-Pikachus e pós-Flintstones: Porque é que o Surfista era prateado e não dourado, teria ficado em 2º nalguns Jogos Olimpicos de super-heróis? Porque é que o Capitão América precisa de um escudo?? Afinal ele era o protector do dolar! Porque é que o Super-Homem não conseguiu a nacionalidade americana? Enfim, um mundo de riscos harmoniosos, estórias movimentadas mas de caracter, enfim, pouco imparcial, no minimo, mas ainda assim consigo entender a admiração de um teen-ager por uma obra do tipo.

Por outro lado a fluidez harmónica dos traços europeus, claramente menos nacionalistas mas ainda assim igualmente parciais, consequencia das épocas vividas, conseguiam fazer sorrir milhões de crianças com a escola belga e os seus Tintins, Marsupilamis, Olivier Rameaus e muitos outros mais sérios, como Michel Vaillant, Cap. Blueberry e Tanguy e Laverdure.

Mais tarde outras estrelas foram postas a brilhar no firmamento do traço, quer pelo seu caracter poético quer pelo traço em si. Ainda hoje sonho com Corto Maltese e acredito que muitos amigos do sexo masculino continuam a comprar os clic´s de Milo Manara.

Enfim... longo comentário a uma inspiração de Henrique que inspirou as minhas lembranças que não me inspiraram a ser uma artista como ele é...

wagner

Realmente ele foi um dos melhores desenhistas que eu ja vi,os desenhistas de hoje deveriam se inspirar nele.

Mário

Por acaso ninca vi traso tão bem feita, gostaria muito de poder aprender esse traso no desenho!

Frank Andre

Ele foi o melhor desenhista que vi nos quadrinhos. Valeu John. Continuo a admira-lo.

? Roberto

Época em que os quadrinhos eram originais, em que textos e artistas decidiam sobre vender ou não. Quadrinhos perderam identidade a partir dos traços de McFarlane e coloridos do photoshop.

Charles

Buscema, o melhor esboço. Alcala, o melhor arte-finalizador, espetacular. Foi assim que pensei quando vi a décima edição do Cimério nos idos dos anos 80. Pra chegar perto, somente o Rudy Nebres e seu traço surrealista (viking!?!) e inimitável.

Flavio B. Silva

As melhores revistas do Cimériano sem duvidas foi as que o Jon Buscema desenhou, depois disso nunca mais comprei a revista Conan.

Charles

O problema do caráter nos personagens americanos é dispensável àquela cultura atolada no capital e a qual seguimos os passos. Conquanto Conan, esse sim exprime um caráter nesse meio brutal, aquele que reserva-lhe tão somente um traço do panteão das "boas condutas humanas": a LIBERDADE... mesmo entre os magos e manipuladores.

Enilson

A personificação do desenho em quadrinhos, John Buscema.

ES SIN DUDA UNA FIGURA QUE ME LLEBO A INTEGRARME EN EL CONTENIDO DE SUS OBRAS, SIN DUDA UN GENIO DE LOS DETALLES , Y UN MAGICO EN COLOCAR ROSTROS Y FIGURAS EN UN MOVIMIENTO ALEGRE Y COTIDIANO.
SOY UN PROFUNDO ADMIRADOR DE LAS HISTORIAS DE CONAN , Y ATRAVEZ DEL TRABAJO QUE EL REALIZO YO ME SENTI DENTRO DE CADA HISTORIA , Y ANSIOSO DE VER QUE HABIA PREPARADO PARA EL CAPITULO SIGUIENTE....SIN DUDA UN GRANDIOSO MAESTRO

Sandra

Eu sempre fui super fã de HQ tenho ainda algumas relíquias.
Infelizmente nada mais nas bancas motiva gastar meu dindin, realmente tá tudo uma porcaria, não respeitam mais a figura humana e a lógica, até os monstros estão feios e disformes.
Por isso guardo a 7 chaves minha pequena coleção. Ah se eu soubesse, teria comprado muito mais gibis no passado porque sei que hoje não encontrarei mais nada de bom.
T+

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