o último acto, “the prestige”


magia ilusionismo prestige Christopher Nolan

Depois do maravilhoso mundo do cavaleiro das trevas tive vontade de rever o filme “The Prestige” de Christopher Nolan (2006). A disputa entre dois amigos, que se tornam rivais devido à sua obsessão pela magia, leva-nos a conhecer um conjunto de ilusões fantasmagóricas e alguns truques ópticos misturados com um desempenho assinalável e um ambiente misterioso e dramático cheio de subtilezas. O filme passa-se no final do século XIX e mostra bem como a ciência, a magia e a tecnologia andaram de mãos dadas na produção de ilusões realistas e imersivas. “The Prestige” leva-nos a reflectir sobre a forma como a cultura popular sempre usou a sensação e a emoção para gerar efeitos de ilusão envolventes e sensuais.

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O Feiticeiro de Menlo Park, ou seja, Thomas Edison, é uma sombra que paira em todo o filme: nas lâmpadas de Tesla, na replicação dos chapéus, na alusão constante aos homens de Edison… mas acima de tudo que mostra como as sinergias entre espectáculo, entretenimento popular e crescimento generalizado de aparelhos ópticos e de dispositivos tecnológicos, dedicados à produção de uma variedade de representações visuais, sempre funcionaram de forma concertada. O espectáculo e o realismo são centrais para compreender o carácter evolutivo da cultura visual popular do século XIX aos nossos dias. Espectáculo com ênfase na performance que é desenhada para estimular o prazer visual intenso e instantâneo. É o espectáculo que leva a audiência ao teatro e este abre-se em múltiplas tipologias diferentes. Assistimos ao florescimento dos jogos de espelhos, de luzes e sons, à implementação da relação assistente/vítima, tudo em nome da fantasia, magia. Um conjunto de mecanismos de produção de efeitos espectaculares. Enquanto que a fantasmagoria oferecia imagens mágicas e fantásticas convincentes do sobrenatural, o Diorama, oferecia imagens mágicas e fantásticas do natural e ficou associado à tradição realista (Darley, 2002). Em certo momento do filme o engenheiro dos sistemas imersivos do mágico, Michael Caine (Cutter), faz a distinção entre feiticeiros e mágicos. Os feiticeiros têm poderes de execução enquanto que os mágicos apenas os simulam através de ilusões e truques.

O cinema e o parque de diversões apareceram na mesma altura (final do século XIX) e são formas tardias de uma certa tradição de entretenimento popular que se relaciona com o espectáculo e com a sensação. O apelo à participação e a possibilidade da audiência fazer parte da performance, desde o momento que entra no parque de diversões, são factores centrais na cultura popular. A fantasmagoria residia no tipo de ilusão produzida e em efeitos escondidos que pregavam partidas aos espectadores e jogavam com o sistema perceptivo destes. O segredo e a incapacidade de perceber como funciona o dispositivo cénico é fundamental para gerar a sensação de choque e surpresa, ao ponto do terror, provocados pelas primeiras representações cinematográficas e pelo aparato tecnológico que colocava o espectador numa posição de estranheza perante o mundo ficcional e o seu drama. Com um elenco composto por Christian Bale (Alfred Borden), Hugh Jackman (Robert Angier ou o grande Danton), Scarlett Johansson (Olivia Wenscombe), Michael Caine (Cutter), para citar apenas os principais, “The Prestige” é um filme maroto, cheio de truques, que nos remete para o papel do duplo na criação de ficções. A vida, o dia-a-dia do mágico, são forjados ao ponto deste prescindir de tudo o que o afaste da sua obra e até o seu diário é elaborado em função desta. A magia como uma encriptação constante reside primeiro na familiaridade, depois na estranheza e, finalmente, no golpe derradeiro, na estupefacção. O último acto ou, se quisermos, “The Prestige”.


patricia Gouveia

é uma personagem do jogo Mouseland. Dedica-se a viajar no ciberespaço e em realidades alternativas reais que misturem realidade e ficção numa constante exploração e experimentação lúdica.
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