Parr de parede - a cores, às flores


 Cores Flash Fotografia Martin Moda Parr

Quando um amigo meu se mudou, há tempos, para um apartamento dos anos 70 com as paredes da cozinha devidamente decoradas com azulejos horríveis, tranquilizei-o com a promessa de que daí a dois anos, no máximo, aquele padrão seria outra vez giro. Pouco depois uma amiga minha foi viver para um apartamento da mesma época com casa-de-banho em tons de café com leite: creme, castanho-escuro e branco (também há um corneto assim). Flores, sempre flores, ou aquelas bolas amolgadas dos 70s.

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Na altura eu já era assumidamente fã do Martin Parr, sempre que possível tentava converter os amigos e os apartamentos que iam desencantando pareciam-me aliados perfeitos: "Se gostasses do Martin Parr, não te custava tanto". Por meu turno, tenho uma marquise dos anos 80, com caixilhos de alumínio cinzento e dois padrões diferentes de vidros semi-opacos, o que me teria causado calafrios não fosse ter Parr como santo padroeiro.

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É verdade que muito antes do Parr a cores (há toda uma obra martin-parriana excelente a preto-e-branco na década de 70 e princípios de 80) já as coisas a condizer - o padrão da Burberry no interior dos casacos, nos guarda-chuvas, cachecóis, esferográficas, papel higiénico e embalagens de perfume, por exemplo - me causavam um certo fastio, o que me fez abraçar muito depressa o caos martin-parriano. Mesmo assim sentia náuseas, por vezes, quando passava muito tempo a ver fotografias de flores flashadas em tons de rosa pastilha-elástica. E quando as náuseas passavam eu voltava, claramente a sofrer com a abstinência, para ver mais. E mais. E mais.

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Agora que o mundo estabilizou, por fim, naquilo que parece ser um piloto automático sobre as reabilitadas e perdoadas maravilhas do kitsch e Parr, entretanto entranhado, já não se estranha, por encaixar tão bem nesse movimento fashion maior, é o meu entusiasmo que emudece. Gosto dele, claro. Nunca menos por estar menos só. Mas eu acreditava - acredito ainda - que as fotografias dele faziam parte de um foto-documentalismo crítico da estética comum dos dias presentes deste mundo, a estética que tinha sido renegada dos trabalhos fotográficos ditos sérios e que não possuía a dignidade de figurar nos álbuns a preto-e-branco dos fotógrafos ditos artísticos. Martin Parr era o grito do Ipiranga das coisas comuns, bonitas ou feias interessava pouco, mas presentes, óbvias, por todo o lado e agora também num levantamento fotográfico sistemático, completo, universal e interessantíssimo, a cores e com flash - tudo o que uma certa afectação encostada tinha posto de lado.

 Cores Flash Fotografia Martin Moda Parr

Era este e é este o meu Martin Parr, o fotógrafo das coisas gritantes e invisíveis do quotidiano, das contradições ruidosas do silêncio e da invasão despudorada da intimidade empacotada. Mesmo se na página oficial, reformulada em momento incerto dos últimos doze meses (distraí-me), Parr parece aderir à mera perspectiva kitsch que, no seu caso, é também perigosamente redutora. Resta-me uma esperança sólida: a de que quando o ruído passar, as fotografias do Parr ficarão e voltarão a ser, essencialmente, um retrato limpo e honesto dos lugares quotidianos, do mundo e dos homens que os fazem e habitam. Um retrato sem medo de melindres. Um retrato que ri de nós.

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