
Quando eu era pequena havia em casa da minha avó um chão em redor da lareira forrado com mosaicos baços, de padrões geométricos ou florais - tons macios, verdes e rosas e castanhos sobre um branco orgânico, cor de osso velho, cada vez menos branco. Os mosaicos desapareceram numa qualquer renovação modernizadora.
Reencontrei os mesmos mosaicos, os mesmos padrões de losangos, quadrados, fitas floridas, as mesmas cores terrosas, em Marrocos (tal como os chãos de cimento vermelho, outra memória dos verões de infância). Reencontrei-os outra vez - mais delicados, mais elaborados e déco, mantendo cores e textura - nas casas de princípio do século XX, em Barcelona. E, recentemente, mão amiga fez-me descobrir que se chama a isto mosaico hidráulico; que há fãs no Flickr e, pasme-se, ainda há felizmente quem os faça - como a Artevida, de Fronteira.

Sou capaz de passar tempos infinitos a observar aplicadamente o detalhe, para depois soltar o olhar, como quem termina um alongamento do músculo ocular, sobre a repetição do padrão, a multiplicação, a persistência (a rose is a rose is a rose), a tranquilidade até ao fim, não do tempo, mas do espaço. Mesmo nas falhas, nos acabamentos imperfeitos - ou por isso mesmo. O meu quarto em Barcelona tinha um destes chãos, com um remendo de um padrão diferente à esquerda da porta - um metro quadrado de flores verdes que surgiam entre losangos castanhos e rosa como uma escrita antiga escondida num pergaminho.
Tinha tido a mesma sensação de encantamento ao ver em 2007 uma exposição do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, sobre os tapetes orientais em Portugal nos séculos XVI a XVIII. Vários dos tapetes expostos eram acompanhados por pinturas em que surgiam tecidos ou tapetes com o mesmo padrão. Foi aí, também, que fiquei a saber que, precisamente pelo seu sucesso na pintura ocidental, alguns destes padrões ficaram com o nome dos pintores que os elegeram nas suas obras. Losangos, flores, cavalos, fitas, repetidos, com diferenças tão subtis que o olho as vê no detalhe, mas não no conjunto.

Nos meses que passei em Marrocos, pude dedicar muitos e largos minutos a olhar os tapetes onde me sentava, e a ver - se fossem realmente artesanais, feitos pelas donas das casas ou pelas mães ou avós delas - como eram tortos, que caminho tomava a trama, um losango com um lado maior que outro, ou que ficara por terminar, um quadriculado de que alguém tinha desistido, trocando-o por outra coisa semelhante; e as transições da lã vermelha, que teria acabado, para a cor-de-laranja, em mudanças descomplexadas e, para mim, a princípio, desconcertantes. O que antes me parecia uma falha tornou-se um vício, a delícia de encontrar o gesto e a pequenina história da mão que fizera aquele tapete. Rapidamente, passei a olhar com tédio os tapetes certinhos, perfeitos, feitos para agradar às ideias feitas dos ocidentais sobre a perfeição e a beleza das formas.

Olho para estas coisas, para a malha miudinha e paciente que se distrai por vezes, mosaicos e tapetes e outros objectos falsamente silenciosos, e é um pouco como se estivesse a construir cidades com caixas e paus de fósforos. São objectos de uma minúcia quase impensável, que me parecem uma descrição bastante plausível do mundo.
Comentários
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Fernando
Tava legal, até a parte do "agradar o padrão ocidental". Puxa vida, querer terminar uma forma com a linha da mesma cor que se começou não tem nada a ver com ser ocidental, oriental, brasileiro, marroquino ou qualquer outra designação arbitrária. Se saiu perfeito foi uma questão de técnica, se saiu imperfeito fugiu da intenção original.
Mas concordo, eu também adoro me perder em padrões, apreciar os defeitos. Quanto tempo já não gastei achando rostinhos e bixinhos nas manchas dos azulejos, vendo composições diferentes no mesmo padrão... principalmente no banheiro, fazendo você sabe o que. Uma boa hora para contemplação de miudezas.
são
É provável que quem passou muito tempo a construir uma dessas descrições do mundo se lembre, ao olhar para cada detalhe, que pensava quando o fez, em que pensava.
A mim essa possibilidade tambén me fascina: as coisas pormenorizadas como diários silenciosos da memória.
são
As obras de modernização das casas são tremendas. Na minha lá de cima ficaram os móveis, alguns de origem, mas uns pormenores assim do chão, também, que de que eu gostava consta que foram destruídos sem querer pelo pessoal das obras porque estavam muito frágeis/gastos e assim que se lhes tocou... eu sei que é a mentira piedosa para mim.
tajana
Fenando, obrigada.
Mas insisto: como sabemos qual era a intenção original? Talvez a intenção original de quem faz estes tapetes não tenha qualquer preocupação nem de manter, nem de mudar a cor do fio; porque é que achamos que a perfeição técnica desse tipo é um valor universal?
A verdade é que os tapetes berberes tradicionais, caseiros, pelo que vi e pelo que li, não são obcecados com a questão do rigor da forma, nem da simetria dos motivos. São-no os que se vendem nas cooperativas ou os de fabrico industrial - que são para venda, não fazem parte da família. E é improvável que após séculos a fazer tapetes, eles ainda não consigam fazê-los direitos :) Um ocidental ia torcer o nariz a um tapete torto e com as cores trocadas, essa é a verdade.
Creio que a qualidade da lã, por exemplo, eque é uma coisa para nós mais difícil de julgar, é para eles mais importante. Um tapete é um objecto para se viver.
Ah, isso da casa-de-banho é uma coisa muito de homens... não conheço mulheres que passem assim tempo fazendo nós sabemos o quê - se existirem, por favor manifestem-se, sempre achei curioso, he he.
Fernando
:)Bom, só para esclarecer, o "você-sabe-o-que" a qual me refiro é o nº2, descargas corporais sólidas. As vezes a preguiça intestinal me disponibiliza momentos para prestar atenção em coisas que escapam durante uma visita mais breve ao banheiro.
Bom mas agora voltando para um assunto mais agradável... neste contexto que você explicou a história é outra, e então você tem razão. No primeiro post eu havia entendido que era mais uma falha na hora de fazer o tapete do que uma questão de perspectiva sobre como as coisas devem ser.
tajana
He he, eu tinha percebido que era essa a actividade... mas insisto, não conheço mulheres que passem tempo na casa-de-banho a ler ou a analisar azulejos durante muito tempo. Afinal, o que é que vocês estão lá a fazer - a cozinhar alguma coisa?
Sao, nas obras em casa da minha avó perdeu-se esse chão e quase tudo o resto. O sobrado de um dos quartos, a trave grande da lareira. Pior do que tudo, e a única coisa que nunca perdoarei: a nogueira que o meu bisavô tinha plantado (com uma noz que trouxe durante semanas a 'chocar' no calor do bolso, segundo contam), e que foi arrancada para uma máquina qualquer poder passar. Até me dói pensar nisso.
Liz
Amei este texto dos "objetos falsamente silenciosos" pois, como tapeceira, sei exatamente o trabalho, dedicação e o quanto de amor é preciso para executá-los.
Lindo mesmo!
Parabéns!!!!
Cesar
Não é verdade que os ocidentais são obcecados por padrões perfeitos. Há artesanato feito com sobras de fio onde o "charme" é justamente as mudanças de cor e tom, formando padrões interessantes.
Acho que a história dos tapetes feitos artesanalmente pode ser bem outra. Pensa bem, quem fez ele é nômade. E quem sabe se os tapetes são terminados por quem os começou? As histórias estão nos fios, mas quem é que a consegue ler?
são
Desde que sei dos produtores actuais e activos de mosaico hidráulico que já sonhei remodelar a minha casa toda umas 3 vezes. A cozinha e a cdb iam ficar tão bonitas, pah. Sonhos, claro, eu sei: em minha casa tudo é novo e os únicos mosaicos de origem já são hidráulicos :D E sim, o branco é da cor de osso velho (gostei tanto da imagem, amiga! :))
são
p.s. No resto ainda tenho soalho de madeira de origem, que deve andar a rondar os 70 anos. E gosto muito. É fresco no Verão, quente no Inverno, sempre agradável de pisar quando se está descalço. E o chão de mosaico antigo também. Os únicos sítios onde eu quase morro no Inverno quando me esqueço e vou para lá descalça são a cozinha e a casa-de-banho, com mosaicos modernos frios frios.
Anna Voig
Oi... Pois é...Estou tentando arrumar coragem de postar pela primeira vez no Obvious... Tenho este costume, de não mexer no que eu gosto, para não estragar... Ando com a auto-estima muito baixa...
Mas vamos ao assunto, quanto aos padrões, acreditem, vocês tem o privilégio cultural de usufruir da acumulação da Arte aplicada, antiga, mantida conservada ou não. A mim, há anos resta-me procurar padrões, rostinhos ( se é que pode-se dar este nome às figuras estrambóticas que vejo ) nos restos mortais da natureza: móveis feitos de madeira "verde" como se diz aqui ( aumentam ou diminuem, frestas e vãos ), forros de casas, portais repintados por administrações municipais e imobiliárias, tocos de cercas, porteiras ( usam-se estes nomes aí?)...
Quanto às observações imobiliárias feitas na "casa- de-banho", banheiro para mim, saiba Tajana, sou mulher, não tenho o intestino preguiçoso, e desde de tenra idade gosto de ficar no banheiro, sentada no vaso ( seja a motivação número 1 ou 2, tempo é relativo) encontrando figuras e/ou padrões. Tomando banho também pode ser. Por que fico tempo lá? Quer saber o que leva uma mulher a ficar trancada num lugar deste? A possibilidade de ficar sozinha, sabendo que não está sendo observada, completamente à vontade...
Só que nos banheiros desta cidade relativamente nova, mesmo nos parâmetros brasileiros, não há azulejos de verdade, quase nada de desenhos intencionais, há cerâmica de parede, piso frio. Resta-me a tarefa de criar e recriar os desenhos... Tarefa triste? Sei lá...
tajana
Olá, César, obrigada por comentar. Percebo aquilo que diz - mas no ocidente o não-perfeito é deliberado (e, em termos de história da arte, creio que é coisa do século XX, não?). Neste caso, não é que eles achem que está bom quando é perfeito, ou achem que ébom quando não é. Simplesmente, não acham. É uma preocupação que não existe, é como uma cor fora do espectro visível ao olho humano.
Nem todos são nómadas. Na maioria, não são desde há décadas, e continuam a fazer-se tapetes destes (tenho a sorte de ter um, feito em casa desde a tosquia da lã até aos remates finais, por uma rapariga de quinze anos- o da última imagem). A variedade de tipos de tapetes marroquinos é tremenda - cada tribo com os seus motivos, cores, materiais. Há uns que parecem obras de artesanato contemporâneo justamente pelos padrões irregulares, pela mistura de cores. Outros, em que essa irregularidade espanta por parecer uma incapacidade.
De qualquer forma, não posso explorar devidamente esse tema. Não é minha especialidade - falo do que vi por lá, do que me pareceu, e do que li numa monografia sobre tapetes marroquinos que referia precisamente esse facto, e que me fez vê-los com outros olhos.
Lembrei-me agora doutra coisa: reparei muitas vezes que raramente uma escada de uma casa tem todos os degraus da mesma altura, nas zonas rurais marroquinas em que andei (e mesmo nas cidades). Ora, eles dispõem de meios para medir e para construir escadas regulares. Não sei se não será a mesma coisa: não é deliberado, nem é uma falha - é uma questão que nem sequer colocam. Há imensas preocupações que eles têm e que nós não temos, e que a eles parecem seguramente incapacidades da nossa parte.
Mas seguramente irei perguntar-lhes, se/quando tiver essa oportunidade, para não estar a falar em nome dos outros:)
tajana
Anna, muito honrada com o seu primeiro comentário! E finalmente conheço uma mulher que diz que fica sentada na retrete. Eu às vezes faço isso de ficar na casa-de-banho, mas é quando estou em festas muito barulhentas durante muito tempo e faz frio na rua, he he. E prefiro a borda da banheira.
Por cá também há mais cerâmica de parede (imagino que queira dizer com isso mosaicos lisos de vidrado industrial), sobretudo nas casas modernas. Mas continuamos a encontrar por vezes umas relíquias.
Também sou uma fã de encontrar figuras na madeira (sobretudo aquela que tem muitos nós ou os veios muito marcados). E nas paredes que têm a pintura ou o estuque descascado (espero também que aí desse lado perceba ao que me refiro).
são
Tenho andado a escrever imenso no trabalho e lembrei-me como aquilo que (aqui) fazemos lembra os tapetes irregulares :D E eis que o paralelismo me reconcilia um bocadito com o que faço hehe Pois, assim uns lados tortos. E onde é que se acabou a lã de certa cor e tal...
Cesar
Interessante esta idéia a de que diferentes culturas são míopes para aspectos de outras culturas. E se pensar, talvez nós ocidentais tenhamos herdado isto dos gregos, é só ver os frisos dos templos com aquele desenho reto, cheio de espirais quadradas, o mosaico grego.
Talvez você esteja certa, talvez eles não vejam padrões como nós vemos. É como a diferença entre a maneira que um oriental reconhece uma face, e um ocidental. Ocidentais olham nos olhos, orientais acham que é rude olhar uma pessoa nos olhos, e quando se trata de um superior hierárquico, uma falta de respeito. O resultado é que os ocidentais prendem-se muito a certos aspectos da face para reconhecer as pessoas, enquanto os orientais criam uma imagem mais "holística" ou coisa assim.
Será que somos todos do mesmo planeta?
tajana
César,
eu acho que cada um de nós tem o seu próprio planeta para algumas coisas, he he. Isto lembra-me sempre um episódio que se passou comigo. Estava numa praia com um grande areal, sentada, sem fazer nada, só a olhar o mar e para a areia que não acabava, naquele embevecimento das coisas imensas e antigas. Ainda não era época de praia, eu era a única pessoa que estava ali. Então aproximou-se uma família, que parecia ser do campo - mãe, pai, filho de uns 20 anos. Ficaram a poucos metros de mim, a olhar a extensão do areal, de um lado para o outro. E de repente diz o rapaz: 'A seara de girassol que isto não dava!' Acho que nunca como nesse momento me apercebi de como quando olhamos para a mesma coisa vemos coisas totalmente diferentes...
Cesar
Me escapa o significado de 'A seara de girassol que isto não dava!'
tajana
Já são as divergências da língua a fazer efeito, Cesar! A frase expressa espanto por parte do rapaz, que ao ver tanto terreno sem nada pensa em como numa extensão daquelas se podia fazer uma grande plantação de girassóis.
Paulo Mello
Gostei muito do seu estilo de escrever, achei muito interessante por exemplo "tons macios" e "soltar o olhar". Já percebi que tens o texto com estilo bastante pessoal.
Fiquei fã.
Abraços,
Paulo Mello
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