entrevista com Baren Wattel - experiência nº 2


Baren Wattel holanda europa contemporaneo Wattel. Foto no jornal holandês Gen idee.

Para começar, o que nos pode dizer sobre a arte na contemporaneidade?

A partir da década de 90 o mundo se viu pressionado a encarar todo tipo de manifestações artísticas de forma pacífica, diferente do que acontecia durante os movimentos modernistas quando os receptores de arte reagiam diante do que viam. A ruptura causada pelo modernismo determinou de alguma forma a morte de futuras rupturas. O novo ainda pode surgir e surge, mas uma ruptura como a causada pelo modernismo, trouxe a impossibilidade de uma nova ruptura com tamanha expressividade. Dentro do contexto atual nos vemos inseridos em um processo criativo com extrema liberdade de expressão, os artistas contemporâneos podem e devem criar o que pretendem, aliás essa é uma das consequências do modernismo, entretanto esta mesma liberdade de expressão gera uma "Ditadura do inquestionável".

Baren Wattel holanda europa contemporaneo Artist’s shit. Piero Manzoni

O que seria esta “Ditadura do Inquestionável”?

Por exemplo, um grupo de pessoas que vai a uma galeria de arte ver uma instalação geralmente não reage. Aquele que questiona ou critica negativamente a obra é julgado, logo os receptores de arte contemporânea são passivos.

Um bom exemplo disto é quando, sempre aos domingos, vou a qualquer galeria de arte em Amsterdã. Ali vejo um grande número de pessoas com as mãos apoiando o queixo e com as sombrancelhas franzidas frente a um punhado de idéias e conceitos.

O que cada uma delas sente é uma grande dúvida ou simplesmente, nada. Entretanto, estas pessoas não reagem. Não reagem frente a uma instalação em que o artista expôs diversos punhados de fezes para ilustrar, segundo ele, o problema da poluição atmosférica, ou ainda, um outro que simplesmente não expôs nada, uma sala de exposição vazia para mostrar o vazio que o próprio artista dizia sentir. Ainda assim, os receptores desta arte não reagem e saem das galerias passivos.

Baren Wattel holanda europa contemporaneo Cachorro instalado e morto em galeria. Habacuc.

E na sua opinião, por que isso acontece?

Imagino que aconteça um processo repressor. A sociedade ingere ingênua uma grande quantidade de lixo artístico sem reagir. É a triste "ditadura do inquestionável". Há hoje uma atitude de medo e passividade diante da arte. Existem boas obras de arte sendo produzidas, no entanto, há também coisas muito ruins. O importante é aguçarmos nossa sensibilidade, ou, ao contrário, estaremos diante da era da mediocrização, medíocre porque gera omissão, e a omissão é com certeza a grande acusação.


cris alcântara

é colaboradora do obvious. Ela gostaria de viver num mundo art decó entre paredes em tons verde água e casas a la "Jetsons".
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