hopper: because of a few sailboats


 Agua Arte Barcos Edward Hopper Mar Oleo Pintura "Yawl Riding a Swell", 1935

Andar a ouvir um tipo e a ver quadros de outro ao mesmo tempo tem destas coisas: em dado momento pareceu-me que "Because of" do Cohen também servia bem a minha relação com Hopper, nos últimos dias revisitado, um dos residentes mais antigos do meu caos de trazer por casa. Desde que o conheci até agora, que consiga lembrar-me, gostei do Hopper: pelo azul e pelo mar; pelo espaços e pelo vazio dos espaços; pelo cor-de-laranja; pelos faróis; pela solidão; pela luz branca, que é leve, pesada, exacta; pelas cidades; pelo cansaço e pela desilusão; por algumas árvores numa aguarela; pela alegria; pelo corpo em frente ao sol; pelas casas magníficas. Cada fase durou o seu tempo e em cada uma delas, saciada de luz, eu gostei do Hopper mais um bocadinho.

Em Hopper a hora que nunca passa e nunca se acaba é a do meio-dia e a luz cai sempre a pique. Mesmo nos interiores nocturnos, quando o esverdeado sombrio do ar nos agiganta as pupilas fá-lo como uma falha, como o meio-dia que não é, não está, mas devia. E a menina do Hotel Room não queria estar ali. Ou queria, mas de dia e com a porta aberta. Solar, em bruto, primordial e granulosa, a luz do meio-dia do Hopper é também a luz do mar alto. Hopper adorava navegar e o primeiro quadro que alguma vez vendeu foi este:

 Agua Arte Barcos Edward Hopper Mar Oleo Pintura "Sailing", c.1911

Em tempos li que "Yawl Riding a Swell" é, na verdade, um quadro trágico, onde uma fatalidade obscura se esconde, pronta a saltar a qualquer momento e a acabar com toda aquela pujança solar; ora eu, que andava à procura e a ler porque estava entusiasmada, esmoreci. Não durante muito tempo, que encontrei depressa outros barcos do Hopper. Fatalidade obscura? Por que é que a alegria tem tão péssima reputação na arte que até quando entra pelos olhos dentro fingimos que não está lá?

 Agua Arte Barcos Edward Hopper Mar Oleo Pintura "The Long Leg", 1935

 Agua Arte Barcos Edward Hopper Mar Oleo Pintura "Ground Swell", 1939

 Agua Arte Barcos Edward Hopper Mar Oleo Pintura "The Lee Shore", 1941

 Agua Arte Barcos Edward Hopper Mar Oleo Pintura "The Martha McKeen of Wellfleet", 1944

Martha e Reggie Mckeen eram amigos dos Hopper e levaram-nos várias vezes a navegar no Porto de Wellfleet. Quando achou que tinha o barco perfeito, Hopper fez questão de lhe dar o nome de Martha. É belíssimo e, ao contrário dos outros, que se guardam aqui e ali nos Estados Unidos, o "Martha McKeen of Wellfleet" está no Thyssen-Bornemisza, em Madrid, que é já ali.


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