mafia: o crime na cidade das maravilhas


 Carros Computador Games Jogos Mafia Mafia I - Frank, advogado de Don Salieri

Se não soubéssemos já que realidade e ficção por vezes são mesmo diferentes, "Mafia" (Illusion Softworks, 2002) serviria pelo menos para nos elucidar a esse respeito. "Mafia" é um jogo violento na terceira pessoa, em que encarnamos a personagem de Tommy Angelo, um jovem taxista de Lost Heaven que se vê envolvido com a mafia da cidade e que acompanhamos até avançada idade. Lost Heaven é uma cidade imaginada, de desenho inspirado em Chicago e Nova Iorque dos anos 30 do século XX. O mapa é acessível em qualquer momento do jogo e mostra um rendilhado urbano em que todos os espaços, não apenas as principais ruas e avenidas, mas também pracetas insuspeitas entre prédios e atalhos diversos, são jogáveis.

Em modo "free ride", o jogo paralelo ao principal em que nos limitamos a ser um taxista que apanha e larga clientes pela cidade, podemos abraçar uma vida completamente honesta dentro da lei e dos limites de velocidade e explorar a cidade à vontade, ou conduzir de forma irresponsável - you drive like a maniac! -, atropelar mafiosos e ver quanto tempo conseguimos ter a polícia da cidade em peso atrás de nós sem nos despistarmos. O jogo principal tem vinte missões, cada uma subdividida em várias pequenas fases e introduzida por um pequeno filme em que Don Salieri, o padrinho da famiglia, nos explica o que se passa, o que é necessário fazer, o que espera de nós (nada de que nos possamos orgulhar).

Quer num quer noutro modo, o jogo envolve imensamente graças a um pormenor a que os criadores dedicaram extrema atenção: a música. Vladimir Simunek compôs os temas originais, enquanto as heranças de Django Reinhardt, The Mills Brothers, Louis Prima, Louis Armstrong, Lonnie Johnson, Duke Ellington e Louis Jordan reinventam, com emocional exactidão, o ambiente citadino dos anos 30, conferindo a Lost Heaven estatuto elevado entre as cidades imaginadas do mundo, capaz de rivalizar, sem vergonhas, com outras cidades da literatura e do cinema. O resultado é uma banda sonora que vale por si e que, consequentemente, fica depois do jogo. O próprio jogo tem vencido, naturalmente, o desafio do tempo.

A música e a história, que são indissociáveis uma da outra sem se encostarem ou desculparem mutuamente, e que servem de base às missões sem, no entanto, terem sido reduzidas a um seu mero pretexto, bem como o cuidado posto na construção da cidade - espelhado no brio realista do mapa - que, só por si, é diversão que baste, fazem de "Mafia", classificado para pessoas com 15 ou mais anos, um jogo demasiado bonito para despertar o assassino que há em nós, embora, pela mesma razão, possa fazer muito pelo que temos de autista, fazendo-nos esquecer de tudo enquanto jogamos.

Carros Computador Games Jogos Mafia Mafia I - Lost Heaven

Não sou jogadora de jogos. Tenho meia dúzia de simpatias sólidas, todas elas passíveis de esquecimento e absoluta indiferença durante meses ou anos. Não percebo nada dos cultos desse mundo e é provável que nunca tenha jogado coisas consideradas obrigatórias pelos honrados geeks do meio. Quando estou para aí virada, jogo jogos - faço-o com exagero e paixão, rejeitando tudo aquilo de que poderia gostar moderadamente (ou aquilo que me assusta). Se sou desligada sou também fiel e, mais cedo ou mais tarde, volto sempre àquilo de que gosto. Voltei agora a ler sobre "Mafia", mesmo a tempo de ter duas grandes alegrias e de me sintonizar para não voltar a desligar-me até 2009. Uma alegria foi a confirmação de que o "Mafia II" estará aí no próximo ano. Outra alegria foi ter conseguido, por fim, reunir a banda sonora original do primeiro jogo que, incrivelmente, não foi editada em cd.

Coucou - Django Reinhardt e Josette Dayde

Nos anos após o lançamento de "Mafia", a equipa que seria capaz de produzir a sequela desfez-se e durante muito tempo acreditou-se que o jogo não teria continuação. Em 2006, a Electronic Arts lançou "O Padrinho", obviamente inspirado nos filmes de Francis Ford Coppola. Tarde demais. Mesmo com a voz emprestada de Marlon Brando (o jogo estava em desenvolvimento antes de Julho de 2004), o território da mafia glamorosa, no que aos jogos respeita, pertencia já por elementar justiça à Illusion Softworks, e até a referência à proposta irrecusável - "An offer you can't refuse" é o título da primeira missão do "Mafia" - tinha já sido conquistada. A Electronic Arts mostrou, além disso, não perceber patavina de pormenores: "O Padrinho" tinha um belo bandido que podíamos personalizar num software semelhante ao usado em "Os Sims 2" (claramente fora de contexto) e fora isso não dava nada que "Mafia" não tivesse dado antes e melhor. Desde logo, a história não era original, era a história d'"O Padrinho", o que em si não representa especial defeito, a menos que conheçamos os filmes, caso em que pode tornar-se maçador. A música era também a dos filmes. Os controlos de jogo eram piores e menos intuitivos. Os carros, por exemplo, além de francamente mal desenhados, não ofereciam qualquer sensibilidade de que pudéssemos gozar durante a condução, o que, para quem tivesse jogado "Mafia" (e, dizem-me, "GTA") era um regresso à pré-história.

Foi também em 2006 que se soube, por fim, que havia equipa para um "Mafia II" (se calhar, os criativos da Illusion Softworks também jogaram "O Padrinho" e compadeceram-se de nós). Em 2007 surgiram os primeiros screens. Em 2008 temos dados concretos: a cidade do Mafia II chama-se Empire City e é inspirada em Nova Iorque. O herói, Vito, volta à cidade no fim da Segunda Guerra Mundial. São os anos 40 e 50 do século XX. Os carros são, definitivamente, um dos luxos de "Mafia" e os screens do próximo jogo são de cortar a respiração.

 Carros Computador Games Jogos Mafia

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O trailer mostra um jogo que, aparentemente, nada fica a dever àquilo que antes nos fez render, um jogo que, como o primeiro, é um caso invulgar de afecto criativo e que foi aperfeiçoado de forma visível e indiscutível, mas também de forma elegante e conservadora: nada belo se perdeu, nada que destoe se adicionou, o que é verdadeira e tradicionalmente mafioso. Os gráficos são mais recentes e, logo, melhores, permitindo grande perfeição ao nível do detalhe, com reflexos e cores belíssimos. A cidade é outra, o tempo é outro, mas é familiar e conhecido o mundo a que regressaremos. Já ia sendo tempo.

Mafia II - trailer


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