o mundo da nossa infância transformado em design


anderson Miranda araujo brasil ilustracao crianca imaginacao fantasia

Quando éramos crianças gostávamos de imaginar o que seríamos quando adultos, e muitas das crianças quando faziam isso, desenhavam. Eu, me imaginava e me desenhava por vezes uma mulher dirigindo um automóvel que voava, outras, uma médica cuidando de criancinhas, e muitas das vezes, uma super heroína. Estes eram os reflexos que registrávamos quando crianças do que habitava nosso imaginário.

Acredito piamente que ele, nosso imaginário tão fantástico, seja hoje tumultuado por muitas imagens que foram produzidas pelo que vivemos e vimos quando crianças, sendo elas fundamentais na formação do que somos hoje.

Na poética de um designer certamente esses referenciais influenciam de uma forma ou de outra. E em design, linguagem própria é fundamental. Entretanto, o designer que trabalha na área da infografia tem que se acostumar com a idéia de que nela o estilo do profissional não é o mais importante, mas sim o tom da comunicação usada por ele. Não se pode ilustrar, por exemplo, um assalto utilizando-se de bonequinhos de cartum. Assim, o ilustrador tem que ter soluções para casos diferentes. E nem sempre poderá dar tantas asas à imaginação.

Porém, não é bem assim no trabalho do designer e infografista Anderson Miranda, pois ele consegue voar, voa sim, mesmo quando precisa comunicar a mais banal das notícias. Seu design é construído a partir de um imaginário lúdico, fantástico, quase lobatiano. Subeditor de arte de um dos mais importantes jornais brasileiros, ele conta notícias utilizando-se de desenhos, mapas, gráficos e todo o suporte possível, conseguindo ser um designer fundamentalmente criativo na área da infografia. Foi premiado três vezes pela SND (Society of Newspaper Design) e recebeu uma medalha de bronze do SND-Malofiej, que confere premiações aos infográficos mais bem feitos do mundo.

O que encanta em seu design é a maneira que Anderson Miranda manipula a idéia. Ele literalmente trabalha com as mãos, suas ilustrações e personagens saltam do papel e se transformam em tudo que um dia sonhamos que acontecesse com os super heróis que desenhavamos.

Em entrevista ele nos explicou sobre a atuação de um designer na infografia.

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O que pode diferenciar um designer dentro do trabalho em infográficos?

Tanto na arte quanto no design atuais, percebo que quanto mais sentimento gerado pelo componente cultural inserido na obra, mais valorizada ela é. Na série sobre o aniversário de 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, criei um personagem. É um bebê ruivo que cresceu a cada dia, até se tornar um rapaz. Todos me disseram coisas que não são exatamente acerca do desenho, como terem se visto novamente jogando bola ou eu via TV de pertinho assim... Entretanto, ninguém me falou sobre as cores, o traço. Fico feliz por ter conseguido fazer com que as pessoas se vissem ali, pois acho que o trabalho bem sucedido diz às pessoas quem elas são.”

Como sua linguagem foi e é trabalhada?

Na minha maneira de ver, uma linguagem é criada a partir do modo como escolhemos trabalhar, ou seja, o método. Ao longo de vários anos, passei pelo aprendizado de processos diferentes para a realizar o que me era encomendado. Esse conjunto de experiências moldaram a minha maneira de fazer. Não estou falando da ordem do processo: analisar idéia, esboçar conceitos e finalizar. Falo do trabalho que parte do desenho geométrico e dá valor de linha aos contornos, e do desenho vetorial sobre colagens de imagens, com ausência de contornos e interferências de "sujeiras vetoriais". São minha maneira de interpretar e mostrar aos outros como vejo.

Qual a diferença de se ilustrar em infográficos?

Em infografia, dizemos que um trabalho tem uma macroleitura e uma microleitura. Na macro, vemos o aspecto geral da obra, a ilustração principal com suas cores e formas. Na micro, paramos para ler os detalhes. Pois na ilustração, isso tem um grande potencial que só entendi a pouco tempo. Tem uma Marilyn no meu Flickr que mostra bem a idéia: você vê um pop art como já viu centenas: a velha imagem da mulher com a saia voando. Essa é a macroleitura. Mas pare para ver atentamente, a minha Marilyn está soltando “gases”. É a minha maldade na microleitura. Agora passe essa ilustração para uma camiseta e se surpreenda com a quantidade de pessoas que vão conseguir ver o que eu realmente quis mostrar no primeiro golpe de olhar! No impresso isso não acontece tão facilmente... É um fenômeno curioso.

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Eu percebo uma relação grande entre seu trabalho e um imaginário lúdico, infantil… Acho essa a grande característica da sua ilustração.

Há muito tempo que tenho a idéia de ampliar meus horizontes em design, pois acho muito prazeroso o tom lúdico que tem a criação de objetos. Por isso, tenho desenvolvido alguns projetos pessoais ainda não-públicos, como a criação de brinquedos, estampas para tecidos, tênis e acessórios para vestuário. Depois de tanto caminhar pelas veredas da técnica, finalmente eu passei a me concentrar em uma característica que considero mais importante do que o estilo: gerar emoções nas pessoas. Quando a arte contemporânea inseriu as pessoas na obra, ela não direcionou o que queria que se sentisse. Mas eu creio que é quando conseguimos fazer com que as pessoas sintam algo específico planejado pelo artista, é que podemos dizer que realizamos o potencial da razão de ser da arte.

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Ao ver o trabalho de Anderson Miranda me lembro do pequeno polegar e de seu quarto cercado por brinquedos vivos, a idéia que toda criança tem de que à noite eles ganhariam vida e os desenhos saltariam da folha do caderno. Ele dá vida aos personagens que imaginou quando era apenas um menino. E que bom que partilha isto conosco. Quem quiser voltar um pouco para os anos da meninisse, pode conhecer mais do trabalho deste designer em sua page pessoal:

www.andersonaraujo.com


Cris Alcântara

Ela gostaria de viver num mundo art decó entre paredes em tons verde água e casas a la "Jetsons".
Saiba como escrever na obvious.

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