caricatura - carla chambel


carla chambel caricatura henrique

Ilustrações de Henrique Monteiro, texto de Priscilla Santos

É fatal que os tablóides ingleses representem o creame de la creame da ofensividade quando se trata de perseguir e caçar famosos. The Sun, o Daily Star, entre outros, forneceram os moldes para a escola da invasão de intimidades e multiplicam seu modelo mundo afora, com paparazzos em motocicletas, calcinhas flagradas e vendas exorbitantes de matérias efêmeras.

É interessante perceber como o culto ao gossip, ao cotidiano das celebridades e aos escândalos floresceu seguindo aquela velha máxima dos biscoitos: publicam-se porque são famosos, são famosos porque publicam-se. Mais interessante ainda é perceber como esse mercado desenvolve-se nas diferentes culturas; exemplos incríveis são Brasil e Portugal, veja: não se vendem tablóides com cantores cheirando cocaína nesses dois países. Importa o que esses famosos fazem de mais trivial como ir as compras, levar as crianças na escola etc. Em Portugal, a coisa tem proporções ainda mais leves porque nem fotos insinuantes na praia costumam ser alardeadas. Ora, nada tão indecente que o conservadorismo.

Carla Sofia Dias Chambel nasceu em Amadora, Lisboa, ao s finais dos anos 70. Começou cedo sua carreira de atriz, dedicando-se com exclusividade à grande arte do teatro em peças de Sheakespeare, Almeida Garret ou adaptações de autores russos como Dostoieviski. Ela estava desde o início em projetos exigentes para qualquer profissional dramático e, naturalmente, cursou a Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Mas hoje, ao digitarmos o nome “Carla Chambel” em sites de busca, metade do retorno apontará para sites de conteúdo erótico.

Por sua participação na série “Jura”, Carla Chambel despontou na televisão portuguesa e nas rodas de pornógrafos. O programa, que tratava de intimidades entre casais e amigos, exibia diversas cenas ousadas estreladas pela atriz e, de repente, ela tornou-se bastante conhecida, mais do que sua dedicação ao teatro lhe permitiria e mais do que o próprio trabalho na TV incitaria. Mas na imprensa, quase um silêncio absoluto, o rubor da impressa lusa não permite que certos assuntos sejam comentados, como em escândalos que explodem para dentro.

É por isso que as declarações de Carla sobre o assunto da subversão do seu trabalho e o modo como enfrenta suas cenas de nudez se tornam muito corajosos: porque a ninguém apetecia falar sobre o assunto. Embora não estivesse totalmente consciente da repercussão na net, continuo a ter muito orgulho em ter feito esse trabalho, disse em recente entrevista para o portal Sapo.pt. Dirige-se sempre com esse mesmo tom frontal; revela-se como uma mulher sem medo de exposições em nome do seu trabalho, vê-se claramente que é saída das disciplinas do tablado. Modifica de certa forma o rumo do caso ao exaltar a exposição de si, o que exige ainda mais coragem num país onde as mulheres preferem o recato.

A consagração popular da atriz está hoje concretizada na telenovela “Resistirei” onde vive Julia Mascarenhas; uma mulher dividida entre um relacionamento seguro e uma paixão repentina, ambos relacionamentos temperados com muitos conflitos e mortes misteriosas. Por conta de “Resistirei” veio o convite para o “Dança Comigo”, da RTP. Dos teatros para programas popularescos, uma mudança e tanto! É mais uma vez com serenidade que Carla Chambel, aos 31 anos, fala dessa mudança de veículos; a TV lhe dá a chance de ser conhecida, embora seja um meio bem menos valorizado que o teatro, ademais, é também um trabalho artístico que merece ser reconhecido por isso. Fazer televisão é também acreditar em projectos, com uma perspectiva artística, endossa.

Enriquecendo o currículo, Carla Chambel viverá no cinema uma das irmãs de Amália Rodrigues, Celeste, na produção “Amália” dirigida pelo cineasta Carlos Coelho da Silva. Divide-se ainda a incursões no teatro de marionetes. Basta-nos esperar para conhecer os desdobramentos da carreira dessa mulher incomum em seu país, que fala de si, de seu corpo e de seus desejos artísticos com uma rara abertura íntima. Podemos esperar também que a imprensa portuguesa atente-se para a busca do equilíbrio entre o silêncio de suas publicações e a excessivamente inútil fala dos demais tablóides europeus.

carla chambel caricatura henrique


Henrique monteiro

adora ir às nêsperas, faceta que nunca conseguiu explicar muito bem até hoje. Tem aversão epidérmica ao tipo de sandálias que se usa para o efeito.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Henrique monteiro