Joan Colom e as "partes baixas" de Barcelona



 Barcelona Colom Fotografia Joan

Colom, nascido em 1921, autodidacta, começou a fotografar em 1957. É um dos elementos da chamada 'nova vanguarda' da fotografia espanhola, colhendo inspiração em figuras como Cartier-Bresson, Man Ray, Doisneau, ou os americanos Walker Evans e Helen Levitt.

Ao longo de três anos, Colom frequentou o Barrio Chino (actual Raval), que, nas suas palavras, era "o único lugar de Barcelona onde consigo ver o Homem". Tal como hoje, o Raval era um bairro de pobreza e prostituição. Nesse ambiente difícil, propenso a conflitos e à manifestação dos desejos humanos mais básicos, Colom utilizava uma técnica particular: colocava a máquina fotográfica à altura da cintura, e disparava clandestinamente, sem olhar, fazendo, mais tarde, algum trabalho de laboratório.

 Barcelona Colom Fotografia Joan

O que impressiona nas imagens de Colom é precisamente este carácter furtivo e imediato, esta perspectiva dum voyeur da humanidade, sem cair no exotismo ou no sentimentalismo, mas também sem procurar conferir uma dimensão épica ou trágica às vidas daqueles homens e mulheres. Mãos que apalpam as nádegas, seios abundantes nos característicos sutiãs dos anos 50, a carne a transbordar das roupas e dos olhares. Crianças sujas, proletários e filhos de proletários.

 Barcelona Colom Fotografia Joan

A clandestinidade dá ao trabalho de Colom um valor documental particular. Em 1964, o fotógrafo publicou um livro com estas imagens e textos do escritor Camilo José Cela - Izas, rabizas y colipoterras. A polémica estalou - estávamos afinal na Espanha franquista; mais tarde, uma das mulheres retratadas apresentou queixa. Colom abandonou a fotografia até aos anos 80.

Entretanto, tinha feito outros dois trabalhos que merecem destaque: fotografias do mercado de El Born (1963); e uma série sobre o bairro cigano do Sorromostro, um dos mais pobres da cidade, que foi sendo desmantelado à medida que o passeio marítimo de Barcelona avançava até à zona de Poblenou (1964). São impressionantes as imagens da grande obra de engenharia a progredir sobre as barracas e as pessoas que viviam na praia da cidade. Poblenou é, ainda hoje, uma das zonas de maior desenvolvimento urbanístico da cidade, pelo que as fotografias de Colom representam uma memória crítica particularmente importante da vida dos deserdados de Barcelona.

 Barcelona Colom Fotografia Joan

Não sei o que pensa Colom sobre o desenvolvimento actual do bairro do Raval. Para acolher os jogos olímpicos de 1992, foi feita uma lavagem de cara: a parte mais problemática do bairro foi arrasada, surgindo a arejada rambla do Raval, sem dúvida apreciada pelos habitantes; mas esta alteração implicou também o desalojamento de muitas famílias, levadas para os subúrbios. O Raval continua sujo, escuro, operário, com droga e e bêbedos e prostituição. É um bairro de imigração, onde é mais fácil encontrar um talho islâmico do que uma churreria, o que o faz manter, em plena metrópole, uma domesticidade agradável para quem não sofre todos os dias com os seus problemas. Mas a pressão turística da vizinha Rambla está a transformá-lo de forma desigual: é cada vez mais procurado para hotéis de luxo. E ao tornar-se economicamente apetecível, a população começa também a sofrer com a especulação imobiliária.

O episódio polémico mais recente foi uma operação policial, que teve lugar há cerca de uma semana, na qual se fizeram mais de 30 detenções de proxenetas e outras pessoas possivelmente ligadas a redes de prostituição. As críticas não se dirigem à operação, em si, mas ao facto de esta ocorrer precisamente após a inauguração de um novo hotel de cinco estrelas muito perto de uma das ruas onde o negócio da prostituição decorre a céu aberto. Ali há mulheres dos quatro cantos do mundo, de todas as idades e feitios, a ocupar os passeios, enquanto passam tranquilamente clientes, turistas, estudantes, famílias com crianças, lado a lado, sem que alguém pareça incomodar-se com o que seja. Mudam os modelos dos sutiãs, mudam os penteados. Continuam as mesmas mãos nas mesmas nádegas, a mesma miséria, agora a dois passos do luxo de um grande hotel.

Ana Gomes

é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
x4
 
Site Meter