André Dahmer: desenhos, ácido, amnésia etílica e uma não-entrevista



HQ desenho humor historia criativo andre dahmer

Durante os quinze dias em que pretendi escrever ao André Dahmer, montei uns cinco rascunhos onde nenhum dava conta d'eu não parecer groupie ou bestamente formal - tenho essas dificuldades de equilibrar um texto - mas, no final da segunda semana, lhe escrevi algo que não recordo, pedindo permissão de uso das suas gravuras para este artigo. Se não fosse abuso, acrescentei, que pudéssemos trocar algumas palavras. Depois, me ouvindo contar sobre, a cartunista Clara Gomes compreendeu e achou justificativa: o André tem mesmo uma presença assustadora.

Ele me respondeu cerca de quatro minutos depois com a musical frase “sou bom de papo e bom de copo” e então eu, plenamente confusa, corri a pensar que perguntas deveria lhe fazer, ou como fazê-las ou onde. Não tinha preparado nada, não imaginava uma resposta.

Dahmer declarou que melhor seria conversar por e-mail porque não usava telefones de jeito nenhum. Compreendi pois minha mãe tem quatro aparelhos celulares e vive todos os dias como que dentro da Bovespa o que me causou um grande trauma; ela nunca me ouve. Trocamos algumas mensagens e, embora eu buscasse assessoria no álcool, fui incapaz de fazer alguma pergunta concreta; ele me explicava sua teoria de que algumas pessoas eram gatos e outras eram cães. Da mesma forma que, dias depois aquele, enquanto o Dahmer estava sentado à minha frente, falando descalço sobre as plantas novas do seu canteiro, fui incapaz de concretizar qualquer pergunta. Vinhos traidores.

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Nascido no Rio de Janeiro há 34 anos atrás, André Dahmer começou a desenhar na infância como um ser humano saudável costuma fazer e estudou alemão até a quinta série. Diz que tentaram lhe desviar dos rabiscos por essa época, ao que ele resistiu, indo tentar a carreira de Belas Artes na Universidade Federal do Rio. Mas, porque os professores ali o queriam fazer de robô, formou-se em Design na Universidade Católica e cultivou o mote pelo qual tem mais carinho, a pintura.

Os quadrinhos vieram depois, como um hobbie. Em 2004, quando o Orkut era tão alternativo quanto o Suicide Girls, Dahmer já reunia uns milheiros de pessoas contentes em discutir suas tirinhas dos Malvados e, num curto espaço de meses, seu blog já estava caracterizado como um fenômeno de audiência, tendo expandido em seguir para o portal malvados.com.br. Com a boa visibilidade, vieram as propostas de trabalho e hoje suas gravuras podem ser acompanhadas em espaços como a Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, revista Sexy Premium, Bizz e o portal G1. Em 2007, os quadrinhos foram compilados no Livro Negro de André Dahmer, pela editora Desiderata e, esse ano, Malvados, pela mesma editora.

Foi quando conheci seu trabalho. Tina Oiticica no seu blog Universo Anárquico, que eu freqüentava, falou sobre o lançamento do livro "Malvados" e fui ver do que se tratava. Eles eram amigos. Agora penso que o buraco inventado pela morte de Tina me fez tentar histericamente ficar perto das suas lembranças e enfeitei um laço com aqueles desenhos, os escritos. A medida em que o ácido dos Malvados corroía meus pensamentos, mais me crescia a admiração pelo cara, mais alimentava meus afetos pela querida amiga.

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Seus desenhos têm traços simples, mas não dispensam algumas colagens ou experiências de formas: preto e branco. São como mini-coliseus onde os textos são postos para ressoar violências numa fala deliciosamente cruel, cruelmente deliciosa. Palavrões, genocídio, superexposição de si, miséria, perversões sexuais, drogas e alguma esperança sufocada aparecem entre os personagens.

Não lembro bem como cheguei em casa naquela noite. Sei que o Dahmer, dentro de uma incrível doçura, insistia para que eu levasse um guarda-chuvas, embora não chovesse. Também sei que me despedi e voltei logo em seguida para que que ele autografasse meu livro; uma cena patética, mas não estou aqui para contenções. Parei ainda numa confeitaria e tentei suicídio com uma torta de chocolate para fins de comemoração diabética; sempre essa fraqueza de caráter pancreático manifesta pelo vinho. Trouxe um cinzeiro fetichista na minha bolsa, um de louça como os que estão lá na página da MalvadosCorp junto com t-shirts, canecas e gravuras originais igualmente fetichistas... Eu levava de presente o sadismo contemporâneo carinhosamente vendível e estava apaixonada por uma presença assustadora.

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priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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