
O mundo real de Kieslowski.
Uma mesa, uma xícara sobre essa mesa, uma mulher que olha pela janela a chuva que cai lá fora. Depois, uma velha que tenta incansavelmente colocar o lixo numa lixeira da rua. O cineasta polonês Kieslowski foi gênio em poetizar instantes banais. Encontrar arte no banal faz com que a arte se torne mais cotidiana e torna a vida menos dura. O escritor Brissac Peixoto fala em seu livro “Paisagem urbana” sobre este tema. Brissac defende a arte feita a partir do instante, do olhar que pára diante daquilo que é banal, para transformá-lo em arte, e só o instante em meio à paranóia da contemporaneidade conseguirá destacar estas paisagens.
No século XIX o flâneur foi aquele que observava sem ser observado em meio às galerias parisienses. O homem da urbe, que observava o dia-dia, o deslumbramento diante da modernidade, e muitas das vezes este flâneur era o escritor ou o fotógrafo, aquele que surgia dentro das grandes cidades européias, como Paris.

Flânerie
Já a questão do olhar em nossa contemporaneidade vem sendo discutida por diversos autores. Junto a ela outros assuntos estão inevitavelmente relacionados, como o do imaginário. O olhar do homem sobre o mundo em que vive foi sempre o elo que o ligou à sua capacidade de representar e criar símbolos. Atualmente, autores como Brissac Peixoto acreditam que os problemas que cercam a questão do olhar no mundo contemporâneo estão relacionados à banalização e rapidez das imagens, como o próprio diz: “Vivemos no universo da sobreexposição e da obscenidade, saturado de clichês, onde a banalização e a descartabilidade das coisas e imagens foi levada ao extremo”.
O olhar contemporâneo é conseqüência de um contexto formado por uma gama de transformações que culminaram hoje em uma sociedade habituada ao imediatismo. As imagens que são rapidamente enviadas via celular, as máquinas de fotografia digital e a Internet são elementos inegáveis de evolução e transformação. Nas artes visuais o artista começa a compreender e a se relacionar com estes novos meios, assim como o pintor do século XIX, que se viu obrigado a mudar sua maneira de observar com o advento da fotografia. O artista hoje vive dentro de um contexto em que busca, muitas das vezes involuntariamente, novas formas de olhar, formas estas que certamente criarão novos imaginários.
Para ilustrar melhor o tema do olhar e do imaginário, vinculados à contemporaneidade, será publicada na segunda parte deste artigo a conversa com o jornalista e fotógrafo Eder Chiodetto.
3 comentários
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Sonia Regina
Mesmo os fatos mais comuns,mais triviais dependendo do olhar e do pensamento de quem os observa podem transformar-se em obras de arte...fotográficas,cênicas,cinematográficas.
Muito bom o artigo!!!
paula
Sem duvida o nosso dia-a-dia está bombardeado de informações, imagens, cores e formas, e existem pessoas que possuem tal sensibilidade e capacidade de transformas esses simples elementos, que por muitos passam despercebidos, em obras .
Realmente um ótimo artigo...e belas fotos também!
abraços
Zazá de Souza
Adoro viajar nas possibilidades que a exposição a tantas imagens pode nos levar...Gosto de pensar que superado o excesso de estímulos e de sensações caminharemos para uma abstração dos sentidos que nos levara a um hiper foco, ao vazio, ao nirvana...
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