
Quando as crianças se reúnem ao redor da fogueira em Peter Pan para aprenderem sobre a história dos indígenas norte-americanos, recebemos uma linda aula sobre os peles-vermelhas. Por que os nativos dizem "how"? De acordo com a canção, é porque eles têm muita vontade de aprender (como? como?). Até aí tudo bem. Por que suas peles são avermelhadas? Vamos de mitos de nascimento: era uma vez, uma jovem nativa que beijou um homem branco, este ficou tão perturbado que enrubesceu e, desde então, a cor vermelha tornou-se parte de seu DNA. Vejam, foi um evento sobrenatural que mudou a cor "normal" do homem (branca) para outra. Aqui em baixo, vocês acompanham a canção.
Antes de Karate Kid e dos filmes do Jackie Chan, os asiáticos eram popularmente representados de uma única forma: donos de lavanderias, mais ou menos ilegais e falantes de um péssimo inglês ("engrish"). Bem, para a Disney em 1989, esse tempo não havia passado muito bem, porque neste episódio de Chip'n Dale Rescue Rangers (no Brasil "Tico & Teco defensores da lei"), os dois esquilos vão tratar do roubo de um rubi e terminam parando em Chinatown onde conhecem uma gang de gatos chineses (ou melhor, quem conhece é apenas o Tico porque havia dispensado o irmão menos esperto da missão). Os membros mais perigosos são duas gatas siameses que falam juntas de modo irritante e o negócio feito entre o ladrão de rubi e as felinas é a venda do peixe japonês Juice Lee, exímio lutador, por uma maleta de peixes mortos. Ninguém iria perceber a ironia ofensiva.
E os negros
Capítulo espetacular dos ensinos Disney, o preconceito contra os afro-americanos aparece em diversos filmes e livros da empresa. Alguns passam a mensagem tão claramente que não necessitam de grandes comentários. Um exemplo é a seqüência da centaurete Sunflower no belo e mágico Fantasia de 1940 que, no relançamento do vídeo, foi retirada numa tentativa deliberada de varrer as coisas para debaixo do tapete. Uma centaurete africana estereotipada aparece polindo as unhas do pé (atenção, do pé!) da centaurete caucasiana, ou ariana, na linguagem mais oportuna para a época.
Mas o troféu racista fica com o Tio Remus e a Song of the South ou Canção do Sul. Imaginem que após o holocausto os judeus saiam pelas campinas a cantem que não foi nada, que o sol brilha e os pássaros voam coloridos. É o que a seqüência busca demonstrar através do Tio Remus, quem conta os folclóricos Contos do Coelho Br'er e o bebê de alcatrão. Por si só, os contos escritos por Joel Harris em 1870 já eram um tanto perniciosos mas a Disney, em 1946, mostraria as coisas de modo muito mais leve e divertido, com o Tio Remus falando das maravilhas da vida nos campos de algodão logo ao fim da Guerra Civil Americana: nada de mal havia acontecido, somos legais, vamos dançar. O ator James Baskett não pôde participar da festa de lançamento do filme por motivos que nos escapam ao conhecimento. Zip-a-dee-doo-dah!
13 comentários
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Bruna
Olá,
Sou Bruna Pallini, trabalho na Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor.
Parabéns pelo blog!
Seguindo a linha do preconceito e do racismo citado nesse post, gostaria de recomendar a leitura de "Um Apelo à Consciência - Os melhores discursos de Martin Luther King", escrito por ele mesmo. Esse livro é uma coletânea dos principais discursos de Luther King, que entrou para a história ao desafiar o preconceito com fé e resignação, preocupado em combater não só o racismo, mas qualquer fonte de injustiça contra o ser humano. http://www.zahar.com.br/catalogo_detalhe.asp?id=1007
Abraços!
Hugo Laboran
Em princípio, li um artigo na revista Caros Amigos do mês passado fazendo clara referência aos desenhos da Disney e todas as teorias que surgem a respeito de racismo, demônios e tudo o mais.
Eu acho que as pessoas estão levando isso muito a sério, são somente desenhos, apenas histórias para crianças, e a grande verdade é que as crianças atuais sequer assistem esses desenhos.
Não acredito que Walt Disney fosse racista ou qualquer coisa parecida, ele apenas quis usar um pouco de ironia em uma ou outra situação, e é claro, um pouco de realidade.
Existe uma campanha perpetuada por evangélicos e comunistas em detrimento de enchergar tais aberrações em desenhos tão inofensivos.
Eu cresci lendo gibis da Disney e vendo toda uma série de desenhos da Disney, assim como meu irmão e todos os meus primos, e creio que grande parte de uma geração.
Nada disso me tornou racista, cruel ou adorador de demonios, pelo contrário, os gibis sempre me proporcionaram o gosto pela leitura, enriquecimento do meu vocabulário quando criança e principalmente, muito tempo de diversão inocente.
Os desenhos de hoje, quando não são extremamente violentos, são extremamente estupidificados, são tão ruins, que parecem feitos para crianças retardadas.
Não sei o que acontece, mas prefiro que meus filhos vejam os bons e velhos desenhos da Disney, assim como todos os grandes clássicos da minha época, do que ficarem abobados ao assistirem o que se passa atualmente na televisão.
afonso
Desde que um amigo me mostrou o site de vcs eu fiquei adimirado com as novidades que vcs postam. Adoro curiosodades e sem duvidadas aqui é um prato cheio p/ curiosos como eu.
parabéns pela dedicação.
saúde mil p/ vcs.
priscilla
Hugo, moço, não é nem questão de paranóia, te juro mas... é que não existem apenas desenhos, nem apenas histórias, nem apenas livros.
nada "só é...", toda produção humana é fruto de intenções, sejam pensadas ou impensadas. Esse assunto pode e deve ser levado à sério com o a história da Chapeuzinho Vermelho pode/deve ser levada à sério. Mas o caso da Disney é como qualquer outro de todos os humanos; por mais que passível de julgamento, (são-ou-foram racistas. são-ou-foram etnocêntricos) segue as mesmas regras de tudo que se pinta social: traduz uma cultura ou uma crença que era adequada ao momento da produção. Já se acreditou até com as melhores intenções que o racismo salvaria o mundo, cest la vie. human behavior. A sociedade, os valores, mudam (pra melhor? pra pior? não faço idéia, simplemente muda).
Como eu disse no comentário da primeira parte da postagem, há um livro que mergulha nessas questões, contextualizando a coisa. Assim que encontrar o título, ponho aqui nos comentários. Ou se alguém souber, por favor, diga aí.
Muitos abraços, gostei da dica da Zahar e que bom que gostou, Afonso. Volte, volte e volte.
Priu
Fábio Mendes
Concordo com o Hugo.
Adoro o blog mas sobre essas "curiosidades' da Disney, vocês estão querendo achar pêlo e casca de ovo. Meus filhos, se um dia tiver, assistirão sem problemas os desenhos da Disney. O que realmente me preocupa é essa educação falha que o Estado proporciona para as crianças e jovens. Educação continuada? O futuro vai mostrar!
Parabéns ao blog.
Fábio Mendes
Vitor Silva
Sempre pensei que o politicamente correcto é tão pernicioso como os valores que tenta combater.
Reescrever livros, cortar parte de obras faz-me sempre lembra a inquisição e a queima de obras por parte dos nazis
É sempre necessário ver as pessoas no contexto em que viveram.
Pensem em todos os artistas que viveram no passado e que viveram em contextos onde a escravatura, a pena de morte, os castigos corporais, a discriminação sexual, religiosa ou de raça era aceite pacificamente.
Devemos recusar de obras de Miguel Angelo, Camões ou Fídias por que eles não viveram pelos padrãos de hoje em dia?
É sempre perigoso reescrever a história para trás. Atribuir intenções a pessoas que nem sequer reflectiam nelas.
Eu pessoalmente gosto da maior parte da obra de Disney e confio na minha inteligência e na da minha filha para filtrar e descodificar aquilo que hoje já não é socialmente aceite.
Tanya
Mas que ótimo blog!!! Adorei o conteúdo! Parabéns!
abraços
Nadja
Priiiiiii... amei o sei! Superrr Obvious!
by the way... amiguinha da Heloisa.. aqui não tem seu email.
Beijos!
GabitoN
...Vitor Silva em 19 de dezembro de 2008 às 18h31: "É sempre perigoso reescrever a história para trás. Atribuir intenções a pessoas que nem sequer reflectiam nelas.
Eu pessoalmente gosto da maior parte da obra de Disney e confio na minha inteligência e na da minha filha para filtrar e descodificar aquilo que hoje já não é socialmente aceite."
Vitor, acredito nos diversos tipos de manipulação, porém, concordo qdo diz que é perigoso rescrever a história para trás. Mas se voltarmos um pouco....
Nazismo...
O que foi aquilo?! Foi influência de uma pessoa sobre outras, afim de defender um ideal. E, como sabemos, ele nunca agiu de forma autoritária, mas através de discursos, "convenceu" a uma nação.
Pensemos assim, a tática de convencimento somente foi especializado, mais bem elaborado! Buscam a base da nação (as crianças) afim de receber os frutos mais adiante, não agora!..... ;)
UMA FERRAMENTA
Abrange a vicitude do consumo...POR EXEMPLO:
Uma das coisas que está nos olhos de todos, porém não enchergam e ainda se faz uso do que a mídia impôe...!
Para discutir esse assunto, vc deve estar incomodado... Ainda vai deixar sua filha continuar a ver desenhos Disney???
Nos piores casos, essa é uma técnica desenvolvida por psicólogos...rs..
Sua filha realmente irá filtrar e descodificar alguma coisa? ou será absorvido, assim como qualquer criança faz... absorve a informação e reprocessa NO DECORRER DA VIDA...
Vinicius
Nunca vi tanta babaquice junta escrita sobre a Disney numa mesma tela.
Taiguara Almeida
Desprezível a arrogância de algumas pessoas aqui, definindo a validade ou não dessa discussão. Paciência, internet é assim.
No mais, ainda que curtos, os textos são bons e o assunto, interessante. Além das curiosidades para quem foi contemporaneo desses desenhos, tem um interesse maior que é o de entender/decompor produtos culturais. E isso, obviamente, não é procurar cabelo em ovo. É um exercício interessante e uma atividade intelectual importante. Enquanto crianças, dificilmente exercemos um ohar crítico sobre o que no é apresentado. Façamos enquanto adultos, ora.
Outro dia mesmo eu pensava sobre isso, enquanto via "O Espanta Tubarões". A mensagem mais clara "respeite a diferença" e a alegoria menos óbvia (ok, é bem clara) nos faz pensar no tubarão-quero-ser-golfinho como homossexual e no seu pai como o padrão hetero. E conciliação no final.
Anos atrás "O REI LEÃO" trazia outra msg: o personagem afetado era o vilão, o claro é posto em oposição ao escuro - inclusive na pele dos personagens, etc. Claro que essas escolhas podem n ser deliberadas (vilão afetado, vilão negro), mas são coisas que, pelo menos, são repetidas. E automatizar certos pensamentos é pior do que, deliberadamente, propaga-los.
Que os produtos culturais portam discursos característicos do tempo e espaço no qual são criados, é óbvio. Quais são essas marcas, que escolhas são feitas e que discursos são apresentados é algo que eu acho instigante.
Mas, é claro, não me refiro aos idiotas-de-deus que procuram demônios em tudo.
Júlia Marcuz
Eu não duvido que a Disney tivesse produtores racistas e afins na decada de 40, e talvez, até atualmente. Entretanto, mostrar videos daquela epoca como um fato atual beira o sensacionalismo.
É como assistir Olympia, de Leni Riefenstahl, feito durante as olimpiadas na Alemanha de Hitler e assimilar o documentário unicamente como um simbolo nazista ainda vivo que deveria ser queimado em praça publica para demonstrar a hostilidade e os absurdos que tal doutrina trouxe á humanidade. E esquermos de que esse documentário foi absolutamente inovador, com cenas filmadas em baixo d'agua e afins, além de ser um documento histórico sobre a Olimpiada de 1938 e o contexto no qual o vídeo foi feito. Acho interessantissimo mostrar as "mensagens subliminares" nesses filmes, só que usa-los como "fato absoluto", como se toda a Disney, até hoje, ainda mantivesse a mesma linha de pensamento, é ridiculo e, de certo modo, preconceituoso.
Infelizmente, pelo que eu vi nesse blog, a maioria dos post estão recheados de sensacionalismo (pornografia, disney do mal, teorias conspiratorias... ) ainda que seja verdades, não devem ser vistas apenas por um lado da moeda. Se não estariamos comentendo o mesmo "erro" que as "mentes" por trás dessas histórias cometeram...
andre
Obviamente, todo o contúdo produzido pelos homens é cheio de intenções. Vale ressaltar que a maioria dos desenhos do Disney eram adaptações dos contos de fada de tradição oral, que tinham como função educar e apresentar a ética, a boa conduta, o bem, o mal,... de forma bem clara. O vilão não tem atitudes dúbias, ele é sempre mal, facilitando a distinção dos exemplos. O que o Disney fez com esses contos foi amenizar as relações de bem e mal, o mesmo fez com as penalidades para quem pratica o mal. Nos contos de fada tradicionais, as punições são bem mais severas do que as apresentadas nas versões disney. Vale a pena conhecer os principais contos nas compilações dos irmãos Grimm, para perceber a hipocrisia e falsidade ensinada nos contos de fada Disney. Só pra fechar, na fase em que o estúdio Disney ia mal, sobreviviam de fazer desenhos para treinamento militar.
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