James Riley, um branco escravo no deserto


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Em Agosto de 1815, o capitão James Riley naufragou ao largo da costa do Sahara Ocidental, quando se encaminhava com o seu barco, o Commerce, para a Europa. Riley e a tripulação conheciam bem as histórias aterradoras de homens que, como eles, tinham ido dar a uma terra onde não só a natureza era inóspita, mas muitas vezes os náufragos e outros viajantes acidentais eram capturados e tornados escravos pelos nómadas do deserto. Embora tenham conseguido reparar o barco e fugir, viram ainda um dos elementos da tripulação, que ficara para trás, ser apunhalado e morto por um beduíno.

O barco, fragilizado, não lhes permitiu chegar às ilhas de Cabo Verde e acabaram por ir dar de novo à costa africana, nove dias depois, famintos e queimados pelo sol. Riley ordenou aos homens que procurassem água; mas ele mesmo, ao subir as escarpas que se erguiam da praia, viu que tinha perante si a imensidão do deserto.

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Após errarem alguns dias sem comida nem água pelo deserto, os homens viram-se forçados a entregarem-se como escravos à primeira caravana que encontraram. Os elementos dessa tribo disputaram entre si quem ficaria com quem, e em breve o grupo foi disperso por vários donos. Riley relata os horrores da vida de escravo no livro que escreveu mais tarde; as condições de vida - fome, sede, calor, frio, espancamentos - fizeram-no passar de um peso de 109 para apenas 40 quilos.

Finalmente, um dia, Riley conseguiu convencer um comerciante chamado Seti Hamet a comprá-lo a ele e a mais quatro companheiros, prometendo que assim que chegassem à praça marroquina de Mogador (actual Essaouira) um amigo seu, que aí vivia, lhe pagaria um bom resgate. Na verdade, tratava-se de uma mentira, e Riley sabia que seria morto caso o comerciante viesse a descobrir que não havia ninguém para pagar o resgate. Após uma caminhada de centenas de quilómetros pelo deserto, sempre em condições de provação, chegaram finalmente ao destino. Seti Hamet seguiu para a cidade, levando o apelo de Riley, dirigido a um representante consular. Por acaso, Hamet acabou por falar primeiro com o assistente do comerciante britânico William Willshire; este, depois de ler a nota de resgate, apiedou-se dos homens e pagou o valor combinado, pondo fim ao seu cativeiro.

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De regresso à América, Riley escreveu as suas memórias, publicadas com o titulo Sufferings in Africa. Este foi provavelmente o primeiro best-seller da história americana, vendendo, em sucessivas edições, mais de um milhão de cópias. As histórias de cativos eram muito apreciadas pelo público americano da época, que lia avidamente os relatos de locais exóticos, do mundo muçulmano do deserto, com as suas caravanas, cidades míticas e haréns, alimentando uma imaginação que não se satisfazia com os clássicos relatos puritanos.

Riley acabou por se dedicar à defesa de políticas anti-esclavagistas, num país que brevemente se veria a braços com uma guerra civil alimentada por esta questão. O próprio presidente Lincoln incluiu o livro de Riley entre os que mais o inspiraram, na sua juventude, a lutar contra a escravatura.

Pode ler no Google Books (em inglês) o livro de Riley.


Ana Gomes

é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
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