Júlia Côta: a mulher dos diabos


 Artesanato Barro Ceramica Cota Diabo Julia Popular Imagem do site upart

Não sou grande compradora de cerâmica popular - tenho apenas um burro pequenino, cinzento, que quase parece uma cabra ou outro bicho, e leva às costas uma cesta cheia de miudezas coloridas. Mas sempre gostei das bandas, e dos santos e demónios da Rosa Ramalho, e das figuras do presépio, estas mesmo quando, como muitas vezes, têm os olhos fora do sítio e as mãos maiores que a cabeça.

Alguns clássicos passam actualmente por um renascimento. O galo de Barcelos, que se tornara entediante e quase perdera a sua dignidade, como todas as imagens de que a ideologia nacional se apropria, ainda para mais nas suas reproduções industriais descuidadas, está agora a ser recuperado, redesenhado (tal como os lenços de Viana e outras coisas que passaram ao território do folclore oficial) e vendido em projectos como, por exemplo, a loja Alma Lusa.

Tudo isto para chegar a Júlia Côta, que descobri há dias no site da Upart. Segundo a entrevista/reportagem disponível online, a sua é já a terceira geração de artesãos do barro na família. Infelizmente, nenhum dos filhos de Júlia parece ter herdado o ofício.

 Artesanato Barro Ceramica Cota Diabo Julia Popular Imagem do site upart

Fiquei deslumbrada com os diabos; depois, descobri algumas outras figuras cheias de personalidade. Uma das coisas que me fascinam é a diversidade que se consegue com elementos mínimos, a partir de uma forma e de uma linguagem que parecem à partida limitativas. Como se a artesã estivesse, há décadas, a inventar uma história a que fosse acrescentando estas personagens. As bonecas de Júlia Côta são umas senhoras e pêras, de mão na anca e sobrancelhas rijas, e a qualidade do trabalho não deixa dúvida de que são obras de amor.


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