Buddy Holly, holy buddy



 Buddy Guitarras Holly Musica Rock Roll

A década de 50 sempre me fascinou. Pelo mundo fora, desenharam-se casas giríssimas por dentro e por fora, que se decoraram com cores primárias e móveis de linhas direitas lindos de morrer, num minimalismo perfeito e adorável, antes e depois inconcebível à escala popular. O jazz era maravilhoso. O rock era maravilhoso. Todas as manhãs eram claras e todos os jardins tinham canitos com casaquitos xadrez e fontes em forma de sardinha. Os frigoríficos verde alface, cor-de-laranja ou amarelos eram objectos comuns e ainda não custavam o equivalente à conta total final de um tratamento de procriação assistida.

Havia também o homem típico. De fato claro, com poupa, óculos de linhas direitas (como os móveis) e aros escuros, jovem mas com ar de senhor e voz de bailarico.

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Este homem assombrou o meu imaginário infantil, e só muitos anos depois percebi tratar-se de Buddy Holly, frequentemente, inicialmente, com os Crickets. E que cricket queria dizer grilo e que beetle queria dizer besouro, tudo insectos cheios de sons, e que os Beatles se chamaram assim por inspiração dos Crickets do Buddy Holly.

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Primeiro, estranhei-lhes as capas. Depois, estranhei-lhes o estilo. Era som que vinha do passado, um passado longínquo de quando os meus pais eram miúdos e Portugal era cinzento e Portugal inteiro – como um organismo gigantesco formado por fascistas activos e fascistas passivos – usava óculos de linhas direitas e aros escuros. Os anos 50 são também esse cheiro a mofo que sai da luz mais clara do sol e que se cola às paredes das casas mais bonitas. Por fim, a música impôs-se e isolou-se e era só música, era a música. Rock inicial, primordial, que só o meu nascimento deslocado fazia parecer antigo. Bem ouvidos, Buddy Holly e os Crickets não têm nada de antigo. Eles são para sempre o momento extraordinário em que tudo estava no princípio.

"Not Fade Away" - Crickets

"Not Fade Away" - Rolling Stones

São Reino

é uma colaboradora multifacetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas.
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