câmera o.k.? o.k.! pode rodar!


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Este artigo é contributo de uma leitora do obvious. Cecília Barroso é uma mistura de sentimentos e emoções. Escreve o blog Cenas de Cinema. Cinéfila, quase cantora e quase escritora é fascinada pela arte em todas as suas representações. Todas as fotos, são de sua autoria. Saiba como publicar um artigo.

O cinema é aquela coisa que nos fascina por completo. Alguns filmes conseguem tocar tão fundo os sentimentos de cada um de nós que acabam fazendo parte da nossa vida para sempre. Há alguns que tomam essa paixão mais seriamente e resolvem viver disso. São milhares de pessoas que fazem de tudo para estar presente em um set de filmagem e só se sentem felizes ao ver que aquele projeto ganhou vida e nasceu.

Outros, também apaixonados, ficam longe do set, analisando aquilo que vêem. Falar das coisas que os outros fazem também tem as suas dificuldades, mas, convenhamos, é muito mais fácil do que estar envolvido na produção de toda aquela loucura.

A minha praia é a de comentarista mesmo. Até participei de momentos tão insandecidos quanto estes, mas no teatro. Como o que escrevo é completamente voltado para o cinema, achei mais do que certo me aventurar por estas searas e ver como é que cada parte influencia no processo.

Fazer um filme é um estresse mesmo antes do roteiro existir. Antes de dar um sentido visual para as palavras, várias são as derrapadas por um meio de escrita que induza ou ofereça elementos exagerados para aquilo que vemos. Depois que está tudo certo e que a história está definida é o momento de montar a equipe. Embora em muitos casos isso seja fácil e rápido, em uma turma de estudantes vários são os postos indesejados (vai aí a produção e o som direto) e muita gente quer fazer a mesma coisa (direção, é claro).

Nada que um sorteio ou, em casos mais radicais, algumas brigas não resolvam. Aí começa a correria de verdade. Milhares de coisas têm que ser resolvidas de uma hora para outra. Começam o teste de elenco e a procura por uma locação. O diretor geral, o diretor de arte e o diretor de fotografia compõe a sua visão da história e as reuniões começam o sound design (desenhista de som) também dá o seu parecer até que tudo esteja amarradinho. cinema curso aula filmar

Parte da equipe do curta A Dois. Idê Magno (direção), Andressa Back (som), Thiago Costalonga (fotografia), Diego Seiti (arte, microfonia), Deborah Krysthine (assistente de direção) e a atriz Fernanda Eva.

Enquanto isso, a produção vai atrás de toda a papelada necessária para a realização das filmagens e tem que organizar tudo nos mínimos detalhes para que as coisas funcionem como devem funcionar.

A história escolhida pelo meu grupo foi a de uma mulher solitária que inventa um marido para sentir a sua vida preenchida, assim como a famosa Mrs. Lonelyheart do clássico Janela Indiscreta de Hitchcock.

Como nem tudo sai como se espera, no dia anterior às filmagens uma obra começou bem ao lado da locação escolhida. O barulho de ferro sendo cortado invadia completamente o set e seria impossível gravar do jeito que queríamos. Um contato infrutífero foi feito com o dono da obra e, sem negociação, o responsável pela área de som deu duas possíbilidades: cobrir todo o som com um material que seria captado separadamente ou arrumar uma outra locação.

Um dia antes, uma nova casa foi encontrada. Os diretores foram todos convocados e os arranjos necessários para uma filmagem diferente da que estava programada foi feito. Com a papelada toda refeita e com as novas compras para adequação do local providenciadas, o filme começou a ser rodado na manhã do dia marcado para a retirada dos materiais. Logo nos primeiros minutos uma constatação: o primeiro cabo de som não funcionava. O segundo, sim, mas com muito ruído. Com o prazo curto para filmar, o jeito foi tentar arrumar o cabo. Até que deu certo, mas com um chiadinho de fundo que só foi aparecer bem depois de tudo pronto.

Primeiro problema resolvido, o trabalho continuou até que na terceira cena, os refletores pararam de funcionar. Pior, tudo parou de funcionar. O curto no transformador foi o responsável desta vez. Correndo, todos as chaves de luz do local foram desligadas, e apenas a de uma tomada, ficou funcionando. O barulho estranho indicava que algo não estava tão certo como deveria, mas já era tarde e tínhamos que gravar. Claro que cada um desses pequenos detalhes ia deixando a equipe cada vez mais nervosa. Briguinhas e provocações aconteciam e eram sanadas antes de tomarem grandes proporções. O corre-corre ainda foi tirando tudo de ordem e várias cenas deixaram de ser gravadas.

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No final da noite, com o prazo estourado para a entrega do material, a produção e o diretor correm para fazer a devolução enquanto o resto da equipe fica encarregada da desprodução do local. Tudo tinha que estar exatamente como foi encontrado. Depois de tudo entregue e de duas noites de sono tranquilo, o material bruto começou a ser editado. Para começar o som estava péssimo mas, graças a um colega documentarista e conhecedor do programa utilizado, tudo foi resolvido no computador mesmo, sem a necessidade de uma nova gravação do som local.

Vários cortes e sons depois, o filme começou a ter um corpo de verdade e apresentava alguma coisa da idéia original. Depois da trilha ficou ainda melhor, mas muito longe de ser excelente. Uma ou outra cena cortada ainda deixaram o clima meio pesado entre os integrantes do grupo, mas nada que saísse da ilha de edição.

E lá estava o nosso filme. Na primeira exibição todos estavam nervosos e foi bem legal ver na tela grande (ou quase grande) aquilo que deu tanto trabalho para ser produzido. Uma espécie de orgulho por sabermos que tantas vezes quisemos desistir ou deixamos de acreditar no projeto, mas seguimos em frente e tínhamos ali o resultado.

Foi daquelas experiências que quem gosta de cinema poderia tentar ter. Aqueles que gostam de falar sobre os filmes, mesmo que de maneira informal, esses sim, deveriam passar por todas as partes deste processo. Além de ser uma grande experiência de vida, muda a forma como lidamos com o cinema.


benjamin mendes

There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?
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