
A Árvore da Vida, de Gustav Klimt
Precisamos de metáforas para comunicar ideias complexas. A arte, a religião e a ciência sabem-no desde há milhares de anos. Círculos, pirâmides, árvores, espirais, teias. Tive a oportunidade de me dar conta duma mudança na linguagem (diriam os adeptos não sei de que escola filosófica: no paradigma!) durante o tempo da minha vida, que não é ainda assim tão longa. Ver esta mudança nas palavras faz-me sentir que vivemos uma época que vai deixar alguma marca, e entusiasma-me, tal como me entusiasmou e surpreendeu ver a queda do muro de Berlim e a libertação de Nelson Mandela, já lá vão 20 anos.
Voltando ao uso das imagens e partindo para um exemplo concreto: durante o meu tempo de escola, a metáfora mais usada era a da árvore. Havia a estrutura em árvore da linguística; havia a estrutura em árvore das chaves dicotómicas da biologia; havia a árvore dos organigramas das empresas; havia, e ainda há, os directórios dos computadores pessoais e dos primeiros portais de Internet. Mas quando se vulgariza e multiplica a internet, começa a tornar-se comum uma nova metáfora, que se tem vindo a manifestar, mesmo a nível da conversa popular, noutras áreas: a rede, ou a teia.

O primeiro esboço que Darwin fez da sua 'árvore da vida'
Gosto mais de teia, por ter uma ligação orgânica ao universo animal. Temos a rede/teia da world wide web; temos novos desenvolvimentos na biologia que tendem a flexibilizar a árvore da vida de Darwin para um modelo mais próximo da teia - no sentido em que não há um caminho único de A a B, e vários pontos se cruzam em vários nós, comunicando; temos as redes neuronais. Desconheço se a linguística já tem também um modelo que se assemelhe à teia para descrever o modo de funcionamento da linguagem.

Não se trata apenas de substituir uma palavra por outra, mas sim de substituir uma visão do mundo e da sua complexidade por outra. O modelo da árvore é tendencialmente mais hierarquizado, o que corresponde também a uma visão política e a uma forma de organização e relacionamento social. É possível que seja mais funcional, de um ponto de vista pragmático. O modelo da teia reconhece a dificuldade de fazer representar toda a complexidade de um sistema vivo - e a internet, sendo feita de linguagem, é também um sistema vivo - através de relações unívocas. Por isso mesmo, é também menos tranquilizante, porque não tem um princípio e um fim, e muitas vezes nem tem um centro.

Nuvem de tags
O que virá a seguir? Há dias pus-me a pensar no modelo das tags. Será uma outra versão da teia, ou uma nova metáfora: a da nuvem? Já temos, desde há décadas, as nuvens atómicas (as metáforas invadem diferentes áreas do conhecimento em épocas diferentes, e convivem). Se o modelo é o da nuvem, não é mais inquietante e mais solitário que a teia? Teremos de esperar que a ciência explore partículas ainda mais pequenas, na nossa tentativa de percebermos a estrutura do universo, para lhe pedirmos emprestada uma nova metáfora? Uma coisa é certa: não podemos estar atentos à natureza e mudanças do mundo sem estarmos atentos às palavras que usamos para o explicar.
Comentários
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Rufus
Muito bom, Tajana. É das melhores coisas que já escreveste aqui.
sao
Mas, olha, enquanto na árvore pousam pássaros e voltam a voar, na rede caem insectos e lá se finam…
Já na/da nuvem podemos entrar por um lado e sair pelo outro.
dehy coutinho
Começar um artigo com obra de Gustav Klint, impossível não lê-lo, te agradeço pelo comentário...
Mto bom !
Plasticine
Nunca tinha pensado nisso...muito bem observado :)
tajana
A não ser que seja uma nuvem daquelas de filme de terror, ho ho ho...
Maria Quitéria
Amo as palavras e o enredo. Amo a teia fiada, amo a imagem que permite a palavra. Excelente o que escreveu aqui.
Um beijo
isabella
Que beleza de artigo, Tajana. Sobre árvores, teias, nuvens e afins há um livro (filme também) de que gosto bastante: Ponto de Mutacao.
tajana
Obrigada (a todos). Isabella, não conheço, vou investigar.
Marcelo de Castro
Efeito Red é um sentimento que vem participar da nossa atenção
e dominar nossos sentidos, num sentido contundente.
Ele chega sem autorização, não traça planos, nem explica o motivo da sua ausência.
Também não anuncia se ficará por algum tempo ou se permanecerá para sempre. Nem onde.
É uma entidade infinitamente mais poderosa do que a nossa vida
e ditadora dos nossos passos.
Conrado Roel
Ponto de vista no mínimo inspirador! Confirma a forma curiosa como as observações mais simples tendem a ser as mais acertadas, menos sujeitas às armadilhas de nossa pretensão de "dar conta do recado" a qualquer custo.
Conrado Roel
mila goudet
Vc escreve muitíssimo bem. Seus artigos-crônicas são da melhor qualidade.
Li uma, depois li a segunda e terminei lendo quase todas. Achei realmente pertinente a observação de que as Tags nos deixam "no ar", já que são nuvens, rsrs. Adoro a idéia de que se modifiquem a partir da ação dos usuários e que não tenham centro ordenador.
É isso aí, viva a instabilidade do ser humano.
tajana
Mila, obrigada, fico contente por gostar.
Livia Costa
Bem escrito e poético o artigo. Foi um prazer lê-lo e senti-lo.
Mônica Soares
Penso que a árvore, a teia e a nuvem remetem mais que uma relação, mas uma força que nos projeta para a reflexão do que vivemos e sentimos, das tramas que traçamos, das sementes que plantamos e dos frutos que colhemos esperando por novos dias, novas perspectivas, as vezes com nuvens bem carregadas outras com a leveza que nos faz imaginar desenhos em suas plumas brancas...
melanie oliveira
Tajana, confira mesmo o livro ou o filme Ponto de Mutação; é do físico Fritjof Capra. O filme é um modo interessante de iniciar o assunto, apesar de ser bastante denso também.
Marcia
Só pra colaborar, segue um link pra "A árvore da vida", do Klimt, embora eu tenha gostado muito dessa composição das 3 telas, até copiei pra mim!
http://www.infopedia.pt/mostra_imagem_anonima.jsp?recid=18374
Legal vc escrever sobre repensar sempre o modo de pensar, entender o universo. A gente acaba parando um pouco pra repensar também, e procurar entender o que "pensam" nos diversos campos da observação. Eu gosto dessa idéia da nuvem, dinâmica, improvável. E além disso, remete para um atravessar sim, sabe-se lá para onde... Essa é a vida!
Peter Zimmermann
Olá internautas,
Esta questão de novos vocábulos ou novos usos para os já existentes por vezes beira a necessidade exasperante de apenas expressarem-se de forma a parecer novo, "cool", "antenado", assim como, "in", fazendo parte de algo, um identificador.
Outros, apenas querem "falar bonito" e terminam por cair no escuro precipício do ininteligível.
- "A nível" de idéias urge "repercutir" "efetivamente" o atual "paradigma" - !!!!!
"A nível": a maioria fala por "achar bonito", expressão perigosa que leva a atrocidades linguísticas, "a nivel de laranja..."
"Efetivamente": políticos e executivos floreiam frases com isto, se der para usar uns 4 ou 5 fica ótimo. Num moto-contínuo de "encher linguiças".
"Repercutir": aaahhhh esta é a menina dos olhos dos jornalistas no momento, nada como ter a chance de usá-la.... Como viviam antes, sem poder "repercutir" ?
"Paradigma": bem, deixa prá lá....
Muitas palavras , para pouco dizer, munição para metralhas verborrágicas, talvez com a missão de esconder o pouco pensar.
Prefiro o "q tc cmg ?" dos internautas, os emoticons, e outros símbolos que tornam a comunicação escrita mais dinâmica para estes tempos dinâmicos, seguindo exigências "naturais" nas novas formas de comunicação. Não este blá, blá, blá, inócuo e de pobres cores.
Mas, o texto de Tajana, é primoroso, usando adequadamente o que é novo, cercado pelas muitas belezas do antigo.
Coisas nada óbvias, coisas de Obvious.
Um abraço a todos,
Peter Zimmermann
Ivana Rowena
Tajana, achei comovente o que você escreveu. É uma observação muito estimulante e profunda.
Por isto pensei em contribuir na forma como vejo o mundo atual, com as relações mais dinâmicas estendendo-se ao todo o planeta, como neste instante em que nos comunicamos. E reitero a indicação da Melanie e da Isabella: leia o Ponto de Mutação e assista ao filme. Cheguei a visitar o Mont Saint-Michel, onde foi filmado, de tanto que este livro me emocionou!
Acho que a rede (net) pode estar contida na nuvem (tag) teroricamente, é claro ;). Afinal, estamos filosofando... O fato de a rede ser móvel mas com pontos individuais irradiando uma dinâmica própria (hubs), sem fim ou começo, aí considero que se forma algo diferente. Porque aparece um outro tipo de inteligência, a
coletiva, um outro tipo de dinamismo que eu desconhecia até então. Também encontrei este mix de modelos na natureza, no encontro dos pássaros (andorinhas)em Asturias ou neste link em Dortmoor, por exemplo. É um espetáculo inesquecível e a música de Patchelbel ("Canon")tocada pela Orquestra Sinfônica de Londres dá o tom perfeito.
http://www.youtube.com/watch?v=eakKfY5aHmY&feature=related
Efigênia Mônica
Tajana,
Escreva sempre. Leio-a com muito gosto.
Como você observou as palavras nos enrendam.Sempre pensei que a pesquisa sobre o surgimento e os usos da linguagem é matéria primordial para a história da humanidade como essência da criação de civilizações. Você já viu o documentário "La langue mens"? É baseado num diário/jornal de um judeu, não recordo seu nome, que viveu na Alemanha Nazista até o final da 2ª Grande Guerra e relata como os Nazi modificaram o idioma alemão dando novas acepções às expressões cotidianas e formando outras. Dá-nos a impressão de ser o cerne da "Novilíngua" do livro 1984 de Orwell.
Aguardo suas novas manifestações.
E muito obrigada.
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