Palavras para falar do mundo

publicado em outros por tajana em 19 fev 2009 | 16 comentários

 Ideias Linguagem Metaforas Mundo Palavras
A Árvore da Vida, de Gustav Klimt

Precisamos de metáforas para comunicar ideias complexas. A arte, a religião e a ciência sabem-no desde há milhares de anos. Círculos, pirâmides, árvores, espirais, teias. Tive a oportunidade de me dar conta duma mudança na linguagem (diriam os adeptos não sei de que escola filosófica: no paradigma!) durante o tempo da minha vida, que não é ainda assim tão longa. Ver esta mudança nas palavras faz-me sentir que vivemos uma época que vai deixar alguma marca, e entusiasma-me, tal como me entusiasmou e surpreendeu ver a queda do muro de Berlim e a libertação de Nelson Mandela, já lá vão 20 anos.

Voltando ao uso das imagens e partindo para um exemplo concreto: durante o meu tempo de escola, a metáfora mais usada era a da árvore. Havia a estrutura em árvore da linguística; havia a estrutura em árvore das chaves dicotómicas da biologia; havia a árvore dos organigramas das empresas; havia, e ainda há, os directórios dos computadores pessoais e dos primeiros portais de Internet. Mas quando se vulgariza e multiplica a internet, começa a tornar-se comum uma nova metáfora, que se tem vindo a manifestar, mesmo a nível da conversa popular, noutras áreas: a rede, ou a teia.

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O primeiro esboço que Darwin fez da sua 'árvore da vida'

Gosto mais de teia, por ter uma ligação orgânica ao universo animal. Temos a rede/teia da world wide web; temos novos desenvolvimentos na biologia que tendem a flexibilizar a árvore da vida de Darwin para um modelo mais próximo da teia - no sentido em que não há um caminho único de A a B, e vários pontos se cruzam em vários nós, comunicando; temos as redes neuronais. Desconheço se a linguística já tem também um modelo que se assemelhe à teia para descrever o modo de funcionamento da linguagem.

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Não se trata apenas de substituir uma palavra por outra, mas sim de substituir uma visão do mundo e da sua complexidade por outra. O modelo da árvore é tendencialmente mais hierarquizado, o que corresponde também a uma visão política e a uma forma de organização e relacionamento social. É possível que seja mais funcional, de um ponto de vista pragmático. O modelo da teia reconhece a dificuldade de fazer representar toda a complexidade de um sistema vivo - e a internet, sendo feita de linguagem, é também um sistema vivo - através de relações unívocas. Por isso mesmo, é também menos tranquilizante, porque não tem um princípio e um fim, e muitas vezes nem tem um centro.

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Nuvem de tags

O que virá a seguir? Há dias pus-me a pensar no modelo das tags. Será uma outra versão da teia, ou uma nova metáfora: a da nuvem? Já temos, desde há décadas, as nuvens atómicas (as metáforas invadem diferentes áreas do conhecimento em épocas diferentes, e convivem). Se o modelo é o da nuvem, não é mais inquietante e mais solitário que a teia? Teremos de esperar que a ciência explore partículas ainda mais pequenas, na nossa tentativa de percebermos a estrutura do universo, para lhe pedirmos emprestada uma nova metáfora? Uma coisa é certa: não podemos estar atentos à natureza e mudanças do mundo sem estarmos atentos às palavras que usamos para o explicar.

Tajana Avatar tajana é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz. Saiba como colaborar.
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16 comentários

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Muito bom, Tajana. É das melhores coisas que já escreveste aqui.

Rufus em 19 de fevereiro de 2009

Mas, olha, enquanto na árvore pousam pássaros e voltam a voar, na rede caem insectos e lá se finam…

Já na/da nuvem podemos entrar por um lado e sair pelo outro.

sao em 19 de fevereiro de 2009

Começar um artigo com obra de Gustav Klint, impossível não lê-lo, te agradeço pelo comentário...
Mto bom !

dehy coutinho em 19 de fevereiro de 2009

Nunca tinha pensado nisso...muito bem observado :)

Plasticine em 19 de fevereiro de 2009

A não ser que seja uma nuvem daquelas de filme de terror, ho ho ho...

tajana em 19 de fevereiro de 2009

Amo as palavras e o enredo. Amo a teia fiada, amo a imagem que permite a palavra. Excelente o que escreveu aqui.
Um beijo

Maria Quitéria em 20 de fevereiro de 2009

Que beleza de artigo, Tajana. Sobre árvores, teias, nuvens e afins há um livro (filme também) de que gosto bastante: Ponto de Mutacao.

isabella em 25 de fevereiro de 2009

Obrigada (a todos). Isabella, não conheço, vou investigar.

tajana em 25 de fevereiro de 2009

Efeito Red é um sentimento que vem participar da nossa atenção
e dominar nossos sentidos, num sentido contundente.

Ele chega sem autorização, não traça planos, nem explica o motivo da sua ausência.

Também não anuncia se ficará por algum tempo ou se permanecerá para sempre. Nem onde.

É uma entidade infinitamente mais poderosa do que a nossa vida
e ditadora dos nossos passos.

Marcelo de Castro em 27 de fevereiro de 2009

Ponto de vista no mínimo inspirador! Confirma a forma curiosa como as observações mais simples tendem a ser as mais acertadas, menos sujeitas às armadilhas de nossa pretensão de "dar conta do recado" a qualquer custo.

Conrado Roel

Conrado Roel em 3 de março de 2009

Vc escreve muitíssimo bem. Seus artigos-crônicas são da melhor qualidade.
Li uma, depois li a segunda e terminei lendo quase todas. Achei realmente pertinente a observação de que as Tags nos deixam "no ar", já que são nuvens, rsrs. Adoro a idéia de que se modifiquem a partir da ação dos usuários e que não tenham centro ordenador.
É isso aí, viva a instabilidade do ser humano.

mila goudet em 13 de julho de 2009

Mila, obrigada, fico contente por gostar.

tajana em 14 de julho de 2009

Bem escrito e poético o artigo. Foi um prazer lê-lo e senti-lo.

Livia Costa em 22 de setembro de 2009

Penso que a árvore, a teia e a nuvem remetem mais que uma relação, mas uma força que nos projeta para a reflexão do que vivemos e sentimos, das tramas que traçamos, das sementes que plantamos e dos frutos que colhemos esperando por novos dias, novas perspectivas, as vezes com nuvens bem carregadas outras com a leveza que nos faz imaginar desenhos em suas plumas brancas...

Mônica Soares em 25 de outubro de 2009

Tajana, confira mesmo o livro ou o filme Ponto de Mutação; é do físico Fritjof Capra. O filme é um modo interessante de iniciar o assunto, apesar de ser bastante denso também.

melanie oliveira em 3 de janeiro de 2010

Só pra colaborar, segue um link pra "A árvore da vida", do Klimt, embora eu tenha gostado muito dessa composição das 3 telas, até copiei pra mim!

http://www.infopedia.pt/mostra_imagem_anonima.jsp?recid=18374

Legal vc escrever sobre repensar sempre o modo de pensar, entender o universo. A gente acaba parando um pouco pra repensar também, e procurar entender o que "pensam" nos diversos campos da observação. Eu gosto dessa idéia da nuvem, dinâmica, improvável. E além disso, remete para um atravessar sim, sabe-se lá para onde... Essa é a vida!

Marcia em 22 de abril de 2010

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