
Uma coisa que me faz adorar Tarantino e os filmes do Tarantino é a escolha das bandas sonoras e o alinhamento destas com a história ou com os segmentos de história. Vistos os filmes, a sensação que tenho é que os temas não podiam ser outros, não podiam estar noutro sítio e que música e história formam sempre uma unidade indissociável. Por causa disso, posso rever Tarantino doentiamente. A música permite-o, a música provoca-o. Houve uma época em que adormecia a rever o Kill Bill, vol.I, tão familiar se tinha tornado. Fora isso, quando o reencontro com os filmes é pausado, equilibrado, tendo a desmantelar aquilo que na percepção inicial foi mais emocional. Fico então, durante uns tempos, com filmes estilhaçados, dissecados, onde cada coisa está sozinha no seu universo próprio, para gozo racional.
É o que se passa ultimamente como a letra de 'Hold Tight', de Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick e Tich, em «Death Proof», na cena em que Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier) e as amigas morrem no choque frontal com o carro à prova de morte do Stuntman Mike (Kurt Russell), no acidente provocado por este. 'Hold Tight' no choque frontal é bestial. Qualquer outro tipo que usasse a mesma música numa cena equivalente conseguiria um efeito engraçado. Tarantino conseguiu uma ironia requintada. Não só a ideia de voar se liga perfeitamente à do impacto de um choque daquela violência, como uma das mulheres literalmente voa. A perna de outra, também.
Sim, é coisa feia. Sangue, morte, violência são coisas feias. Musicar essas coisas seria, pelo menos teoricamente, de uma perversidade atroz. Que se fizesse ao menos com uma música que nos soasse a alfinetes e a facas, como Hitchcock, na cena da banheira de «Psycho». Mas Tarantino usa rock. Neste caso, rock de uma época particularmente alegre e feliz, rock alegre e feliz. Tarantino é divertido. 'Hold Tight' é uma canção de amor. Tarantino usa-a numa cena de homicídio.
Que tem o amor em comum com o homicídio que a mesma canção serve os dois?
Pode o cinema de Tarantino ser arte?
[link só para a música, para quem não tem estômago para a cena; link para a cena com a música, para quem tem]
26 comentários
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Eukor Eukoriano
Concordo plenamente com você.
Tarantino é inigualável.
Abraço,
Leonardo Pastor
Assisti um filme de Tarantino ontem: Pulp Fiction. Muito bom.
Alexix
Novo documento a provar as ilegalidades dos Governos de Gestão, aqui
São, não sei se o cinema de tarantino é arte ou não mas, é diferente. Começa logo pela postura sobranceira do próprio. A cena é de facto de uma violência impressionante... acho que a devias ter colocado no artigo :)
sao
Eukor e Leonardo,
Obrigada pelo comentário :)
Alexix,
Não deixes de tomar os comprimidos e tem fé na tua cura.
Jr,
Sendo cinema, então temos pelo menos matéria para um silogismo: se cinema é arte e se o que Tarantino faz é cinema, então o que Tarantino faz é arte :D
Pensei que a foto já era violenta qb para pôr também esse excerto do filme.
Não sei se o temperamento das pessoas diz ou desdiz o que fazem. Pelo menos um terço da história da arte tem obras giríssimas da autoria de tipos que eram uns fdps para as pessoas mais próximas e piores ainda para o resto do mundo.
E então? Se calhar o mau feitio é uma entre várias pré-disposições possíveis para criar coisas. Nós é que estamos demasiado sintonizados nas artes e, o que deve ser próprio deste tempo e tb diz muito sobre nós enquanto donzelas, nas respectivas fofocas.
Rodrigo Andolfato de Moura
Tarantino tem uma mente psicótica, mas que usa de sua psicose para fazer arte. Uma arte inigualável. quer coisa mais Psicótica do que o personagem de John Travolta estourando os miolos de um passageiro no banco de trás do carro por que apontou a arma pro cara enquanto falava e ela disparou sem querer? E eu ainda quase morri de rir com aquela cena.
Cesar
Meus parabéns, eu não vi o filme e já sei o final dele, metade do prazer de assistir um filme pela primeira vez foi para o ralo.
Eu espero que isto aconteça contigo de agora em diante com todos os filmes que você não viu, que venha alguém e te conte como vai terminar o filme, e estrague a surpresa para ti.
ESTÁ AMALDIÇOADO.
Jim
Tu vais morreeeerrrrrrr! :)
acoiematoia
Não é ele que faz o filme, ele apenas é actor e um bem grande actor. No entanto quem faz essas cenas ficarem perfeitas não é ele, é a grande e excelente equipa que está por trás.
Os actores são muito importantes e ele consegue desempenhar o seu papel de uma forma extraordinária, mas sem a equipe por trás a criar storyboards, fotografar os sitios, filmar em vários ângulos, editar vídeo, criando efeitos, criar e editar os sons...
sao
Rodrigo
Essa cena é do piorio hehe
César
Não sei se o comentário é para mim ou para o Rodrigo, mas nem a cena de que falo é sequer o meio do "Death Proof" ou representa ou indica qual o fim do "Death Proof", nem a cena de que Rodrigo fala é final ou minimamente reveladora do fim do "Pulp Fiction" (se é que "Pulp Fiction" tem um fim >:>). Ok, sabe-se que umas pessoas vão morrer. Mas isso é mais que habitual nos filmes do Tarantino.
sao
p.s. Acabo de reparar na minha gaffe: Rodrigo não tinha dito que estava a falar de "Pulp Fiction". Mais uma surpresa estragada para César. Temos pena. César, stay cool, keep tuned. Abração.
[e aproveito para fazer um desabafo… esperava mais comentários horrorizados tipo até-me-doem-os-olhos com este post. Onde é que eu errei? Tarantino é assim tão intocável?]
Carlos Duarte
Tarantino é um cinéfilo tornado realizador. Um realizador a quem se pode chamar de autor, pois apesar do seu cinema ter muito do que já se fez por aí, ele consegue dar um toque único e especial. As suas características mais marcantes são, além da música, os diálogos e o aspecto cool das personagens. Neste À Prova de Morte ele dá-nos a "sua" visão feminina. Um autor memorável.
koveiro
O Tarantino é foda, na minha opinião é arte sim o que ele faz
edson
Não vejo o trabalho de Tarantino como arte, à excessão de Cães de Aluguel. Ele se utiliza de colagens, referências em excesso da mídia, sem as quais o filme não se conslui e sem que elas sejam alvo de uma análise crítica. Uma influência típica do entretenimento americano, e não do cinema advindo da literatura. Mas diverte. E tome narrativa of... (e o que é Robert Rodriguez?!, que até de nome mudou, o mexicano?)
Cesar
Você avisou que era horrível, achei melhor não olhar. E nem vou ver o filme, já que é tão "gore". Já achei que Kill Bill foi um banho de sangue, pelo menos a parte em que a noiva, sozinha, decepa dezenas de braços e pernas.
Ricardo Meier
Uma boa forma de aprimorar o debate sobre a obra do Tarantino é ver o curta " Tarantino's Mind" que pode ser visto em www.portacurtas.com.br, com o Selton Mello e o Seu Jorge.
sao
Carlos Duarte: os diálogos e a acção. Há uma introdução do Tarantino num DVD do Kill Bill 1 ou 2 em que ele explica que nos Kill Bill apostou na acção em detrimento dos diálogos, porque queria aprender a fazer acção.
Edson: teu comentário é popular na internet escrita em português e em inglês. Está na moda ;)
Mas desde quando o cinema tem de vir da literatura? Desde quando a cultura pop não pode ter referências aos media (i.é., à cultura pop)? Charles Bukowski fez literatura pior por causa das referências aos media? Tom Waits faz música pior por causa das mesmas referências? E que seria "On The Road" do Kerouac sem elas? Caramba, a arte dos últimos cinquenta anos está pejada do mundo dos últimos cinquenta anos e os media são inseparáveis desse mundo.
Toda a arte é colagem e referência. Sem os que fizeram antes de nós somos muito pouco: Sem "Madame Bovary" do Flaubert não haveria "Anna Karenine" do Tolstoi. E agora? Vamos dizer que Anna Karenine é menor por isso?
Além do que, a colagem itself, enquanto técnica e forma de expressão, é plenamente aceite pelo menos desde o início do séc.XX...
Mil vezes as referências do Tarantino, que são animadas, inspiradas, cheias de sentido e de ritmo, do que as referências de name-drop de quem não sabe fazer nada mas quer dizer que leu/viu/ouviu.
Não sei se percebo de que filme estás a falar no fim. "From Dust Till Dawn", do Robert Rodriguez, com screen do Tarantino?
César: a partir de "Sim, é coisa feia", o texto é pura retórica. Não estava a dizer, muito menos a avisar, que seria horrível. Ah, "Kill Bill, vol.I", a noiva em fato-de-treino amarelo dá banho de sangue em Tóquio :) Coisa mais linda. Vi isso vinte vezes.
Obrigada pelo comentário, koveiro.
Cecilia Barroso
Tarantino é genial!
Death Proof é, para mim, a maior prova disso.
Apesar de todos os filmes anteriores serem excelentes, neste ele faz com que o espectador entre em contato com a sua violência.
Demais!!!
tajana
Por acaso o meu preferido do Tarantino também são os Cães Danados. Mas a verdade é que só vi mais 3 dele - o Pulp Fiction, o Kill Bill e o Jackie Brown. Gostei muito do Pulp Fiction da primeira vez, mas quando vi a segunda vez tinha perdido bastante o interesse. Imagino que por ser um filme que vive muito do efeito surpresa. O Kill Bill achei... chato :) Isto é, achei exibicionista, e achei que a agitação/violência/gore/kitsch do filme eram demasiado constantes, acabando por não criar momentos altos e momentos baixos: tudo está elevado a um patamar muito intenso, e aí anestesia. Mas acho que neste tipo de filme a reacção é sempre muito pessoal e não tem nada a ver com o filme, em si, ser arte ou deixar de ser. É como a conversa do outro dia sobre a fotografia: antes de mais, é fotografia, ou é filme. Provavelmente, também, o Tarantino explora um filão da cultura pop que me diz pouco, ao contrário de outros.
sao
Cecília:
Não vejo o "Death Proof" desde a altura em que estreou aqui em Portugal. Até à cena da morte da personagem de Rose McGowan não consegui levantar voo, não consegui divertir-me. A seguir, sim, entrei na onda e acabei por adorar o filme. Então vi-o duas vezes no cinema, com um intervalo de poucos dias. Depois nunca mais pensei nisso e temia que o "Death Proof" pudesse ser o primeiro filme do Tarantino que eu não iria rever a médio/longo prazo. Estava enganada, felizmente, de há quinze dias para cá sinto crescer uma vontade enorme de rever.
Tajana
Se é arte ou não era pura provocação :D Acho a questão mais que ultrapassada. É sim e se não for tem visibilidade de.
A música faz-me gostar mesmo muito do Tarantino. É genial a contar uma história com música e a organizar um filme com música. É alucinante. É uma montanha russa de associações emocionais. Admito que em mim a ligação entre a música e as histórias tem um efeito de droga, coisa de adrenalina, diverte-me muitíssimo, entusiasma-me.
Acho injusto isso da ausência de altos e baixos no "Kill Bill", especialmente no I. A cena em que a personagem da Uma Thurman tira o (último e único) olho à personagem da Daryl Hannah e esta, furiosa, deitada a esgravatar no chão da roulotte, diz "Onde estás, cabra? Vou-te apanhar! Vou-te matar! Onde estás?" é um momento altíssimo. Há outros nesse e no II. Acho que conseguia fazer mapas de altos e baixos de todos os filmes do Tarantino (é capaz de ser bom pretexto para rever a totalidade).
tajana
Pensava que a cena do olho era no II. Não em lembro sequer disso, vê lá tu. Sei lá, as cenas de violência nos filmes do Tarantino, pelo menos no Kill Bill, lembram-me um bocado a Disneyworld, sempre com bonecos a saltar e alegria em todo o lado, tem um lado circense que não me atrai. Talvez para mim (que não vejo filmes de terror e vejo poucos de acção) o patamar da violência cinematográfica esteja muito em baixo, e mesmo os pontos baixos do Tarantino já estejam no limiar da minha disponibilidade e paciência para o ver. A verdade é que não sinto que esteja a perder nada de especial:)
Quanto a música, sou um bocado dura de ouvido para bandas sonoras. Há meia dúzia de casos que são a excepção, mas na maior parte dos filmes saio de lá e nem faço ideia de qual era a música. No caso do Tarantino lembro-me, sim. Mas como a parte da imagem me atrai pouco, acabo por não disfrutar dessa ligação com a música.
sao
Tens razão. A cena do olho é no II. Ela no I não chega a vingar-se da loira.
É que eu aos Kill Bill não os vi no cinema. Vi em DVD, seguidinhos, e tenho de pensar um bocado para me lembrar onde é que está o quê.
Tarantino é um grande avacalhanço. Disney, sim. Tom & Jerry também pode ser. Mas não diria alegria, diria energia. Muita energia.
sao
Estive a reler tudo. A parte do comentário do Edson que me fez ouvir campainhas foi a das colagens e das referências. No fórum do muito aguardado e/ou à partida odiado "Inglorious Bestards", no IMDB, há um debate chamado "Since when did it become 'cool' to hate Tarantino?" onde essa argumentação é a humble opinion da maioria dos haters.
Por acaso, fora, se calhar, os irmãos Coen, não estou a ver quem mais saiba trabalhar o ritmo dos filmes como o Tarantino ou quem mais o faça como ele faz. E os irmãos Coen não têm o mesmo estilo, nem pouco mais ou menos (excepto em "No Country For Old Men", o filme-mais-Tarantino-de-sempre dos Coen, a seguir a "Big Lebowski", que me lembra "Pulp Fiction" no aspecto da concentração de grandes cromos por milímetro quadrado de película).
Quando falo em ritmo não quero obviamente dizer música. Todas as narrativas têm uma respiração, um embalo, e a narrativa em cinema, em comparação com a escrita, conta com mais factores para conjugar ou desviar para conseguir acertar nessa respiração: a história, a fotografia, as cores, a luz da fotografia (Truffaut, no Fahrenheit451, usou o dourado, o vermelho intenso e o verde escuro, as cores principais do fogo), os sons todos, desde os passos das pessoas aos timbres das vozes, portas a fechar e a abrir, objectos a tocar outros objectos, o vento (no campo dos sons não conheço nada como “Mãe e Filho”, de Sokurov), a dinâmica dos planos e também a música, claro.
Todas estas coisas ajudam ou não o filme a respirar, a fluir, a comunicar, mas em Tarantino o jogo principal é a combinação de todos esses factores e ninguém o faz como ele. Se nas últimas décadas as bandas sonoras, especialmente a música, deixaram de ser meramente decorativas ou amplificadoras para passarem a fazer parte integrante da narrativa, com Tarantino isso passa de tendência para género, estilo, objectivo e a ideia de filme, do que é e como se faz um filme, muda substancialmente. Para mim, aqui é que está a originalidade do Tarantino, e estou tão certa dela quanto sei que aquilo que vou buscar aos filmes dele não encontro noutros.
É verdade: como é que é com o cinema de autor no Brasil? Também se vê dobrado ou existe a consciência que, quando os filmes são um bocadinho mais especiais, é melhor optar pela banda sonora original subtitulada/legendada?
tajana
Lá está. Tudo o que dizes me parece fazer sentido, e no entanto, quando vi o Kill Bill, não me entusiasmou nada. Preferi os outros - e, ainda assim, não é um realizador que me faça ir ao cinema (pelo menos depois do Kill Bill). Acho que é mesmo uma questão de reacção pessoal. Também me acontece às vezes com grandes escritores para os quais não tenho paciência.
saozita
ya, química. às vezes não diz nada e pronto. uma amiga minha não consegue achar piada ao bruno aleixo. tb não a irrita. é como se não estivesse lá nada de especial.
Edson
Oi Sao, não escute campainhas, não estamos falando de teses, só de gostos. Prefiro um cinema mais silencioso, sim, mais reflexivo, que se realize dentro da cabeça do espectador. Talvez isso reflita um ranço meu com quadro mercadológico do cinema, que aqui no vice-reino só nos prejudica. Mas eu citei "Cães..." como arte. Acho que o espírito livre de criador do Tarantino ficou por ali. As colagens e referências a que me refiro podem ter este painel midiático a que você se refere, mas não acontecem como, por exemplo, em "Natural born killers", do Oliver Stone, que também não é lá dos meus diretores preferidos, mas é um filmaço. Como "Sin City". Referências são bem legais, pois abrem um desejo investigativo sobre a arte cinematográfica, mas "o carrinho de bebê de Odessa" às vezes cansa. E não sustenta o brinde.
abs e cuide da labirintite.
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