bairro do glicério e os moradores de rua em são paulo


miseria rua sao paulo glicerio

Matheus Siqueira é um estudante de jornalismo e há aproximadamente 4 anos criou um podcast/videocast chamado éoquehá; cujo objectivo foi o de discutir religião de uma forma mais actual. Através do material que ia produzindo semanalmente começou a conhecer cada vez mais o mundo do video e do cinema. Foi um percurso natural desde as suas funções de narrador até realizador, sempre tentando aprofundar temas pouco conhecidos.

A reportagem apresentada por Matheus Siqueira é tocante e aproxima-nos do mundo de rua de uma forma que nos incomoda e emociona. Deixo-vos com uma entrevista, que fala um pouco do seu documentário do Bairro do Glicério.

Matheus, como foi que tudo começou?

O cinema e a literatura sempre apelaram para meu senso, mais dos que as outras artes. A literatura desda infância me encantou com novas experiências e realidades que poderia ler nas suas páginas. Depois começei a gostar de livros que abordassem problemas sociais, tendo a impressão que através das palavras eu me aproximava mais das pessoas que eram relatadas. Após um tempo descobri os relatos de viagem de Érico Veríssimo (Gato preto em campo de neve, A volta do gato preto, México e Israel em Abril), nesses livros ele juntava duas coisas que ainda não tinha conhecido – estudos sociológicos profundos a leveza e mestria artística do seu texto.

Já na área de cinema, recebi o empurrão final quando assisti os filmes de Kieslówski e a discussão sobre moral e religião que ele traz nos filmes do "Decálogo". Por achar o cinema europeu mais tangível a minha realidade como independente, gosto muito dos diretores da Nouvelle Vague como o Truffaut e o Eric Rohmer. Mais recentemente tenho me apaixonado pelo relato da China feita pelos filmes do Wong Kar Wai.

Achei nos documentários do João Moreira Salles e em específico no "Andarilhos" de Cao Guimarães essa junção entre a arte e a não-ficção. Assistir as obras desses diretores me animaram a fazer experiências na área dos documentários.

Qual foi a motivação para fazer este documentario?

Faço um documentário ou um curta sobre algum tema para conhecer mais sobre algo que não sei. Nesse caso, tinha um projeto de criar um videocast apenas com histórias de moradores de rua. A idéia era dar uma face aqueles que nos parecem sombras pela cidade.

Um dia ao sair do Masp comprei a revista Ocas e lá li sobre o bairro do Glicério como a maior relação de moradores de rua por metro quadrado de São Paulo. Também li sobre a grande infra-estrutura para atender as pessoas em situação de rua do Glicério. Imediatamente peguei o metrô até Liberdade e desci a Rua do Estudante andando sem rumo. Entrei na primeira ONG que vi (Minha Rua Minha Casa), de lá fui encaminhado a várias ONGs e conheci muitas pessoas que há tempo trabalham com os moradores de rua. No final da tarde já tinha o assunto em mente e como estava sem dinheiro, consegui também para dormirmos no albergue junto com os moradores de rua durante uma semana.

Quais as maiores dificuldades que sentiu?

Por estarmos dormindo no albergue debaixo da ponte do Glicério, a maior dificuldade foi com a segurança do nosso equipamento. Apesar de termos apenas uma câmera e um microfone, tomamos a precaução de fazer conhecido nossa intenção de falar sobre aquela comunidade e não explorá-los como os grandes veículos fazem, isso nos salvou algumas vezes de sermos assaltados.

Fora a segurança, uma grande dificuldade foi conseguir as entrevistas. Em respeito ao morador de rua, apenas gravamos aqueles que aceitaram conversar conosco e que assinaram o termo de cessão de imagem. Muitos ao verem a câmera (mesmo não filmando), achava que estávamos lá para explorar sua miséria no jornal da tv e tinham uma atitude hostil para conosco. Nessa questão, o fato de termos dormidos com eles no albergue fez muita diferença. Ao nos verem lá a noite e perceber que íriamos dormir na mesma sala, usar o mesmo banheiro e comer a mesma comida a maioria se abria e começava a contar sua vida.

Fora isso tudo, não tínhamos dinheiro. O documentário todo gastou menos de 200 reais.

O seu trabalho foi reconhecido? em que medida você sente que foi algo útil?

Na cena final do documentário sou perguntado o que estou fazendo lá. O Élcio me fala que estou lá conversando para ajudar mas eu não ajudo ninguém. Esse é atualmente minha preocupação, qual o sentido do documentário? Será que isso ajuda aos moradores de rua? Será que ajudo alguém? Deixei a pergunta sem resposta por que ainda estou procurando a respota. Porém, depois de terminado a entrevista com o Élcio, ele nos agradeceu muito e com um semblante muito mais calmo do que quando o encontramos (ele estava chorando). Nos abraçou e pediu para voltarmos outra vez.

Talvez o documentário não traga diferença para os moradores de rua ou aqueles que o assistem mas, produzir ele trouxe diferenças para mim próprio e, espero, também para aqueles que passaram horas conversando connosco.

Quais são os seus planos futuros?

Em relação ao documentário, o plano é transformá-lo num longa metragem. É interessante isso, pois é um projeto para internet que possivelmente alcançará as salas de cinema. Como gravamos 15h de conversas temos material suficiente, só falta arrumar tempo para organizar todo esse material.

Também está saindo até o final do mês um novo seriado feito para internet, ele se chamará "Flying Kebab". A idéia é trabalhar com o realismo/ficcional de Borges em um videocast incorporando as mídias sociais. Parte dele foi filmado aqui no Brasil e continuará em Beirute no Líbano, onde passarei esse ano trabalhando como voluntário.

Glicerio Without Number

Acompanhe o Matheus Siqueira no vimeo


benjamin mendes

There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //benjamin mendes