kidults: crianças grandes e umas nostalgias nossas

São chamados Kidults os pós-adolescentes com salário de início de carreira, adultos independentes ou pais de família e dedicam boa parte de seu tempo e renda na compra de artigos de papelaria, chaveiros, t-shirts, objetos decorativos, objetos colecionáveis e toda a sorte de quinquilharia afetiva e nostálgica. Mas por quê?


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Tenho compartilhado através de alguns dos meus últimos artigos meu olhar fascinado sobre alguns projetos artísticos e afetivos que exploram a nostalgia da infância e como eles convivem de maneira inusitada com a visão que se tem ou tinha da chamada vida adulta. Os painéis de pixelArt, os colecionáveis cube-e-craft e mesmo as esculturas de bolo foram assuntos escolhidos que se tocam numa mesma motivação: tentar observar mais de perto que curiosa tendência é essa que tem trazido irreverência e leveza para dias tão cheios de engarrafamentos, low profile e objetividade.

O nome Kidults foi inventado pelos publicitários especializados em captar quais serão as futuras demandas do mercado, ou seja, caras contratados por grandes empresas e shopping centers para dizer o que vai ser pesadamente consumido daqui a não sei quantos meses. Esses profissionais perceberam, e foram logo seguidos por sociólogos e aparentados, que a primeira década do século XXI seria um período voltado para as lembranças de um tempo em que, parece, éramos infinitamente mais felizes do que hoje.

Lembro que, um pouco antes do fim dos anos 80, eu e minha família viajamos para São Paulo para assistir ao casamento de uma prima, e a coisa mais forte que me ficou daqueles dias não foi o burburinho das mulheres, nem a cerimônia, muito menos a febre me atacou durante dias pela falta de costume com o clima; inesquecível para mesmo foi a primeira vez que vi um vídeo game. O noivo, atualmente primo por tabela, não saída de junto do Atari nem para comer, nem para cumprimentar os parentes e muito menos para abrir presentes. Jogava Enduro incessantemente e minha prima ficava desesperada, as senhoras presentes balançavam a cabeça negativamente. Eu podia não ser nem um projeto de pessoa, mas aqueles carrinhos quadrados tinham um poder que mesmo eu não sendo nem um projeto de pessoa podia perceber. Então fui apresentada ao computador na escola e a coisa mais fascinante que ele fazia era ligar um ponto ao outro através de uma reta. Era lindo, eu mal dormia quando tinha aula de informática.

Pensávamos nos anos dois mil como se fosse um ponto inexistente no tempo, “só se for no ano 2000”, se dizia muito. A Guerra do Vietnã tinha acabado, veio o verão do amor, e a ditadura devastou o país feito uma necrose, mas então desaparecia como uma doença psicológica. O mundo vivia a expectativa de quem está convicto de não cometer o mesmo erro, jurávamos que a História servia para ensinar e tínhamos aprendido. Até Cuba havia conseguido se tornar um lugar bacana.

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Mas os anos dois mil chegaram e apesar do avanço tecnológicos, farmacêuticos e nas comunicações, a modernidade fez as malas no dia em que os mesmos erros cometidos derrubaram duas torres gigantes. Desde então a coisa de continuar com esperanças no futuro começaram a fazer pouco ou nenhum sentido porque estamos vivendo o futuro mas não voamos e nem somos estupidamente felizes como quando as Barbies tinham de se casar com o GI Joe por falta de opção melhor ou quando gravar fitas K7 ficou fácil depois do microsystem.

Os adultos do presente são filhos de pais que, em geral, são mais tolerantes ao diálogo e às liberdades sexuais. Pais que não vêem problemas nos filhos adiarem a saída de casa e eles realmente não saem, se possível, até que decidam formar uma nova família. Esses pós-adolescentes e adultos trabalham e empresas administradas por teorias não-mecanicistas, preferem a funcionalidade, a objetividade e a preservação da integridade individual de seus empregados, mesmo se eles forem operadores de call center. Toda boa companhia que se preze hoje tem de ser cool, tem ao menos de aparentar.

A liberdade para montar um espaço com fotografias, cantos de socialização entre os colegas, happy hours e satisfação profissional. Tudo isso concorre para que possamos e queiramos ser mais lúdico, aí, qual o problema em ter tudo da Hello Kitty? O que te impede comprar calotas Ferrari originais para a sua coleção de carrinhos? Em contribuição, há ainda um exército bem posicionado de designers e artistas plásticos debruçados sobre o tema, dispostos a extrair dele um impacto visual que comprove serem produtos infantis, mas só para maiores.

Longe de ser uma síndrome de Peter Pan, o fenômeno dos Kidults não nega as responsabilidades da vida adulta e trás novas conciliações para os papéis pai/mãe; na verdade, demonstra que esses conceitos mudaram muito: cabe agora alguma irreverência, algum colorido, criatividade e permissão para transitar entre tempos e idades onde seja possível repensar algum refúgio novo para liberdade e felicidade. Algum refúgio velho para diversão.

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Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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