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o piano de Libeskind

publicado em arquitetura por revista atol | 8 comentários

daniel Libeskind nazi berlin piano

Gostaria de abordar o actual panorama da arquitectura mundial a partir do desenho de um piano. O piano é um instrumento icónico que entra no imaginário universal e é reconhecido como um objecto dotado de extremo rigor e de monumentalidade tanto no porte como na sonoridade.

O piano foi inventado por volta de 1698 por Bartolomeo Cristofori um fabricante de cravos de Florença e inicialmente era denominado de pianoforte e daí o diminutivo actual. Da família do piano temos o cravo e o clavicórdio, estes foram perdendo o protagonismo para o piano que se foi afirmando como seu sucessor pela sua polivalência e oferta de possibilidades. O piano actual possui 88 teclas que foram conseguidas a partir de décadas de experimentação pelos interessados entre os quais Ludwig van Beethoven. Existe o piano de cauda e o piano vertical, estes distinguem-se pela orientação do núcleo onde as cordas estão colocadas.

Quero falar dum piano em concreto e da maneira como expõe as características de uma arquitectura teoricamente débil do plano actual, o piano que Daniel Libeskind concebeu para a Schimmel pianos. Libeskind tem um percurso no panorama da arquitectura que se pontua pelo seu museu judaico de Berlim, cujo projecto pela sua forma e espaços agressivos e desconcertantes é tão vizinho do imaginário comum dos horrores passados pelas vítimas judaicas do III Reich.

Este museu é um objecto arquitectónico de enorme valor e ultrapassou barreiras tanto na sua teorização como na sua volumetria . Considero o museu judaico de Berlim um dos melhores feitos arquitectónicos do século XX, tem uma enorme carga conceptual que vai buscar a sua força á tragédia advinda da brutalidade nazi que condenou os judeus e o consequente genocídio dos mesmos. O museu transpira emoções profundas e sombrias, desespero e comoção, os seus espaços retratam fielmente o estado de espírito global de uma comunidade fortemente estabelecida transformada num gigantesco grupo de escravos cujas vidas não eram minimamente valorizadas. Este edifício consagrou Daniel Libeskind, porém como um actor ‘typecasted’, que escolhem para representar sempre o mesmo tipo de personagem, e que ficou intimamente ligado a este tipo de edificações e por todo mundo foi expandindo esta linguagem de volumes pontiagudos e retorcidos com janelas ziguezagueando cruamente recortadas no metal. Libeskind estagnou, encontrou a fórmula do sucesso, o mediatismo e espectáculo fácil, uma imagem de marca que retira a potência teórica ao já referido edifício marco inicial da carreira do arquitecto.

daniel Libeskind nazi berlin piano

O piano Schimmel reflecte muito bem esta estagnação, e caracteriza optimamente a arquitectura deste arquitecto e também a arquitectura ‘show-off’ actual, este objecto está impregnado com a imagem de marca de Libeskind, os ângulos agudos ameaçadores, os grandes balanços que desafiam a gravidade, as janelas ziguezagueantes que aqui se transformam em simples listas pintadas, e o espaço vazio sem funcionalidade. Tal como na sua arquitectura Libeskind produz um objecto que se reconhece imediatamente como de sua autoria pela sua formalidade. Parte do piano de cauda clássico, muda-lhe a ordem habitual das pernas, aumenta-lhe a cauda em comprimento curvando até ao chão, cola á volta do teclado feitios flagrantemente artificiais e modifica-lhe a sensual sinuosidade das linhas para a sua geometria rude e agressiva. Libeskind mantém naturalmente a forma do núcleo do instrumento pois esta tem a função de soar bem e como tal não poderia sucumbir á parafernália de artifícios aplicados. Com o aumento da cauda e para hiperbolizar o efeito de espectáculo quando o piano é aberto a tampa assume uma forma dentada o que cria um vazio na cauda que não se explica com nenhum melhoramento de som mas sim com a formalidade a que Libeskind cedeu.

Este objecto fala duma flagrância formalista a que a arquitectura actual está atirada, os concursos mediáticos só são ganhos por edifícios de formas gratuitas, onde o espaço é trabalhado em função da imagem, a busca da espectacularidade fortuita instalou-se e é preocupante ver o caminho que temos pela frente. A arquitectura influencia a vida das pessoas, constrói o cenário onde vivemos e reflecte de maneira indiscutível as sociedades onde se insere, estamos perante um mundo de superficialidade onde as pessoas mal se tocam, onde o indivíduo está completamente só no meio de multidões e isto preocupa. È certo que este tipo de arquitectura que se deixa levar pelo artificio contribui para a descoberta de novas maneiras de ver e trabalhar o espaço e que a experimentação é sempre positiva na medida em que permite a evolução das mentalidades e maneiras de viver, todavia não deverá ser a arquitectura a dizer ás pessoas o caminho a tomar mas sim o contrário. O futuro contará o que se passou.

Artigo da autoria de Claudio Cruz, Atol.

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8 comentários

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

Alfredo Caiano Silvestre

Excelente artigo.
Parabéns.

Acredito que este texto reflete o pensamento humano atual, não somente na arquitetura, mas em todas as áreas da vida cotidiana. A busca pela forma sobrepuja a usabilidade, e a estética vem à frente, ditando as regras, criando um grande misto de espaços vazios e utilidades agudamente descartáveis.

Este artigo é pertinente num bolgue generalista como este. Realmente o Liebskind é um dos expoentes do star-system-podre que a arquitectura possui. E na minha opinião o Museu Judeu não é um bom edifício - usa artifícios para ser emocionante e forte na mensagem que quer transmitir MAS mal lá chegamos, percebemos esses artifícios todos, o que lhe tira imediatamente a mística. Num tema tão delicado como a perseguição judaica pré-II-Guerra-Mundial, é triste permitirem um museu tão pouco erudito que parece apenas querer sensibilizar sensibilidades de miúdos...

alvaro cunha

n concordo com a falta de qualidade arquitectónica do museu judeu e com a artificialidade fortuita deste que refere, o museu usa e abusa de um conjunto de artificios para simular estados de espirito que possam indiciar toda a monstruosidade que foi aplicada ao povo judeu, este artificios no entanto são expressão e neste caso muito bem aplicada. Penso que a arquitectura deve ser acima de tudo honesta e feita á medida, neste caso parece-me que o casaco serve na perfeiçao ao tronco do holocausto, na arquitectura o cuidado com o artificial deve ser extremo e no panorama actual não há cuidado algum! libeskind talvez num golpe de sorte viu a sua arquitectura adequar-se a uma tipologia, o museu dos horrores.

parabens pelo artigo

sergio

Excelente!

Matheus Melo

Minha opnião é que a forma que sobrepuja a utilidade tem sua função sim. Encaremos o piano como uma escultura, uma vez que o piano estritamente funcional já existia séculos atrás. Achem bonito ou não é arte e como tal tem sua função em si.

Vitor Costa , arqtº

Boa tarde Claudio.

Estas de parabens pelo que dizes no texto e especialmente pela critica voraz mais certeira ao que hj tambem me parece uma banalização da arquitectura.
Nos dias de hoje em que todos nós arquitectos lutamos para ganhar o respeito merecido na sociedade, é com artigos destes que pode ser o caminho para trazer devolta a arquitectura a essencia. pois é isso de que se fala " a arquitectura perdeu essencia"

Continua o bom trabalho, fica bem

e já agora lanço aqui um desafio a todos que partilham desta ideia, vamos formar um movimento, grupo ou o nome que se depois definir, par aproduzir trabalho neste sentido de dar valor e essencia a arquitectura outra vez-

fiquem bem
Vitor Costa

TT

Tudo estaria bem, menos o fim. "não deverá ser a arquitectura a dizer ás pessoas o caminho a tomar mas sim o contrário." Efectivamente, é isso que acontece. Longe vão os tempos em que a arquitectura tinha a pretensão de se constituir como uma disciplina com o poder suficiente para ditar às pessoas fosse o que fosse. O movimento moderno acabou, e foi tornado em moda mal chegou aos estados unidos. Virou internation style e nunca mais se recompôs. Hoje, se o Liebeskind faz os pianos assim, e se a Zaha Hadid desenhas as Melissas daquela maneira e o Gehry desenha chapéus parecidos com o Guggenheim é porque o público quer isso. O Gehry está completamente preso a um estilo que, já admitiu ele, não queria estar. E isto porque ou faz dessa maneira ou deixa de ter trabalho. As pessoas quando vão ter com o Gehry não lhe pedem um edifício, pedem-lhe um Guggenheim. O Gehry, e tantos outros, deixou de ter autonomia. Sim, isto é o fruto das pessoas tomarem conta e dizerem à arquitectura o caminho que ela deverá tomar. O que é preciso é precisamente o contrário, um movimento de recuperação disciplinar. Voltar a trazer para o interior da disciplina a discussão da sua evolução e não abraçar assim a mediatização fácil e imediata.

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