um voyeur sem vergonha - casanova, divine comedy



casanova divine comedy pop

Era verão de 1996 e eu estava de férias no Algarve com os adultos. Em certo sentido esta era uma daquelas viagens em que começava a prestar atenção às coisas com que eles perdiam tempo. Os álbuns que não apareciam nas revistas que eu lia, os jornais e aqueles livros todos que levavam tinham de ter algo de especial para serem tão essenciais à sobrevivência dos meus adultos.

Sentavam-se no pátio branco da casa, com raios de luz sobre as espreguiçadeiras. Puro relaxe. Foi nesse verão que me foi introduzido um conto de fadas diferente daquele da Cinderela: um de conteúdo mais moderno e exagerado pela poesia de Neil Hannon. Esta era uma daquelas obras de capa dura e com título em relevos dourados, bem ornamentada.

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Chamava-se Casanova e era um álbum dos Divine Comedy. Convenhamos que em 1996 eu tinha 12 anos, acho quase ofensivo para fãs, e até para os próprios músicos, assumir que entendi aquele álbum na altura, mas a teatralidade e humor que em parte já lhe conseguia compreender deixou-me encantada. Desde aí tem sido uma viagem em que o revisito e lhe continuo a descobrir recantos.

Mistura épocas: entro no quarto de um monarca libidinoso em Versailles, num bordel na idade média, vejo manifestações pela igualdade de classes, conheço dandies e yupies, assisto a uma ópera ou a um musical. Neil Hannon encarna todas estas personagens da nossa sociedade, e sem pieguices leva-nos numa viagem pelos caminhos de um inferno mascarado. E ainda por cima é zoófilo.

Pura sensibilidade e génio de um actor britânico que encontra na música pop o seu refúgio. Há neste álbum a nuvem cor-de-rosa do humor inglês dos Monty Python, com toda a paródia que este envolve, e não são poucos os momentos em que as gargalhadas são inevitáveis. É-nos dado o mote com os sorrisos meio envergonhados na canção inicial. Tal como no melhor dos romances, Casanova leva-nos através de caminhos inesperados e deixa-nos curiosos. É um palco colorido e espampanante, onde a pouca vergonha abunda e onde fitamos a arte de interpretar o mundo.

Artigo da autoria de Rita Cabral, Atol.

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