
Se tivessem faltado a Andrew Bird algumas das condições necessárias para ser um primoroso músico, daqui a uns anos ele seria, com certeza, uma personagem parecida com o mais velho habitante do bairro Christiania aka Free City, em Copenhaga, que toca violino e vive num quinto andar, rodeado por memórias e quinquilharias, e sem elevador.
No seu novo album Andrew Bird oferece-nos sons da natureza, dos portos e cidades por onde viajou, donde trouxe ritmos cadenciados e olhares, e faz-nos escutar o clamor de um que acredita ser, primeiro de tudo, animal. Os relatos poéticos e caminhos sonoros destas canções, construídas e interpretadas com agudeza e talento, revelam versos como: “so they took me to the hospital, they put my body through a scan, what they saw there would impress them all, for inside me grows a man...”

Constantes imagens, quase fantasmagóricas, que revelam a estranheza de um homem perante o mundo em que vive, e a frieza de uma sociedade desumanizada e avessa à mudança. Andrew Bird proclama, mais uma vez, o nosso fim. Exalta a capacidade de cada um, enquanto partícula, entre tantas outras. Rejeita o ódio e a redenção perante o que é exigido ("Love or hate acts as an axis, so procreate and pay your taxes"). Os seus medos estão em cada linha e persistem na renúncia à vida moderna.
Novamente, e cada vez melhor, ele cria puzzles (i)lógicos em que as canções ganham perspectivas tão complexas que nos sentimos (agradavelmente) submersos pelos seus pensamentos engenhosos. Podemos olhar para este conjunto de liberdades criativas de Andrew Bird quase como um manifesto pela preservação da relíquia que é a vida individual. Um longo exercício sobre o desastre do nosso projecto enquanto sociedade.
Imagino que o seu desejo seja poder continuar a ouvir a natureza e os seus sons, aqueles que tão bem utiliza e recria.
Comentários
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.
Bruno Ferreira
Excelente post! =D
O "Noble Beast" vai permanecer na minha playlist durante anos! Está fenomenal!
pessoalmente não conhecia... adorei. Obrigado Rita.
Rita mas não sou eu, pois não? ;)
nao rita... é a rita cabral :) mas acho que ela nao lê os comentários :)
Rita Cabral
Leio sim :) O Andrew Bird é muito bom. Tenta descobrir os álbuns anteriores, também valem muito a pena.
Rita: quem é viva sempre aparece :D já estou furiosamente a ouvir o ultimo album... francamente bom.
Eduardo Salvalaio
Aconselho a ouvir todos os discos do multi-instrumentista e poeta Andrew Bird. 'Armchair Apocrypha' de 2007 é uma maravilha de produção. Como sempre, belo texto.
Nuno
Ele é fantástico... adoro este músico :)
maria cristina espinosa
Adorei. Álias sempre que venho a este site só encontro assuntos agradáveis e interessantes.
Mas esse som achei demais tenho sa sensação que ele é um mix bem sucedido de todos os sons com que cresci desde antes dos doces beatles até depois dos doces bahianos.
Deixe-nos o seu comentário
O e-mail é obrigatório mas não será mostrado no site ou cedido a terceiros. Seja cordial e educado. Comentários ofensivos ou pouco dignos não serão publicados.