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Kraftwerk: 1974, autobahn. A estrada e a história da música eletrônica

publicado em musica por | 25 comentários

Estamos dirigindo na auto-estrada /Em nossa frente há um amplo vale /O sol está brilhando com raios reluzentes... Um dos principais símbolos da Alemanha, as Autobahns cantadas pelo grupo Kraftwerk guardam um pouco da história germânica e de momentos decisivos para os rumos do moderno Ocidente.

Kraftwerk: 1974, autobahn

"Autobahn" é o nome do disco lançado em 1974 pelo grupo alemão Kraftwerk, na época sob a liderança de Florian Schneider-Esleben e Ralf Hütter. Seria conhecido como a obra que colocaria os rapazes no mapa e que marcaria profundamente a música pop nos anos seguintes.

A primeira versão da música título do disco era lonbguíssimas, tinha mais de 22 minutos e só pôde ser lançada nas rádios após uma edição que a levou para modestos 3:28 minutos, só assim poderia ser digerida por um público maior do que o interessado em perceber os meandros daquele álbum conceitual. "Autobahn" não era um hit como se acostuma empregar a palavra: era o primeiro encontro íntimo da música eletrônica com o público onde quase 30 anos de estudos matemáticos e sonoros finalmente produziam uma harmonia capaz de tocar as pessoas, independente do lugar que elas fossem, da cultura a que pertencessem.

A canção fala de um momento feliz em uma auto-estrada alemã. O sol, o horizonte, o passeio e o rádio tocando: wir fah'rn auf der autobahn (estamos dirigindo na auto-estrada).

Foi no governo Weimar e não no de Hitler, como apregoam, que as autobahns começaram a ser construídas. Em 1929, ano da grande depressão econômica global, o primeiro trecho começou a ser feito com a lentidão esperada de um projeto sem apoio político ou econômico, sendo entregue em 1931 o sonhado caminho que levaria automóveis e motocicletas de Colônia a Bonn sem a interferência de cruzamentos ou pedestres.

Kraftwerk: 1974, autobahn

Kraftwerk: 1974, autobahn

Em 1933, os nazistas começaram a executar um projeto dezenas de vezes mais ambicioso que o original, seguindo as megalomaníacas idéias arquitetônicas do chanceler Adolph Hitler. Servia ainda para objetivos econômicos e sociais do governo já que obras públicas, como se sabe, são uma forma rápida e inteligente de multiplicar as vagas de trabalho consequentemente diminuindo o desemprego e o plano funcionou primorosamente na Alemanha da época. Além disso, serviriam para ligar regiões estrategicamente interessantes na defesa militar e para a logística de ataque provocando, ato contínuo, as diferenças regionais - isso significava interligar o país e incentivar o nacionalismo pregado pelo ideal nazista. Nos anos anteriores e durante a Segunda Guerra, as estradas foram também usadas para dois outros importantes fins: pista de pouso para aviões e entreposto de trabalho escravo.

Kraftwerk: 1974, autobahn

Kraftwerk: 1974, autobahn

A grande guerra levou o mundo a um salto tecnológico jamais visto, ao menos não visto com aquela velocidade. Armas, aparelhos de telecomunicação, roupas, automóveis etc. foram aprimorados e, aproveitando os incentivos econômicos da reconstrução, novas possibilidades se abriram em áreas que nem tinham nada a ver com o conflito. As rádios começaram a dispor de estúdios bem equipados e dentro delas duas correntes disputavam pelo melhor conceito e melhor execução da chamada música eletroacústica: os franceses com a Musique concrète e os alemães com a Elektronische Musik.

Durante anos o grupo de Paris e o grupo de Colónia discutiram a respeito de métodos, cálculos, nomes, sinfonias e instrumentos, mas a verdade é que nenhum conseguia ser plenamente bem sucedido na harmonia daquelas execuções, nem torná-las realmente agradáveis. A entrada dos computadores na briga foi o início do entendimento entre os proto-DJs. Acadêmicos japoneses, poloneses, suíços, norte-americanos e italianos, capitalistas e comunistas, travavam embates em seus estúdios-laboratórios experimentais em uma concorrência sobre quem acharia os meios mais sofisticados de se produzir música algarítimica. Em 1963 surgiu o primeiro sintetizador, controlado por uma fita de papel perfurado. Vitória do bloco capitalista pois o americano Robert Moog seria o responsável por unir um teclado à calculadora gigante que eram os sintetizadores até então, e esse foi o passo decisivo para o acesso de outros àquela música visionária.

Na versão original de Autobahn encontramos um misto dos elementos já usados, até então, no Krautrock (rock-chucrute), mas tudo de modo nunca dantes visto ou ouvido. Esses são são elementos: a)um clássico sintetizador Moog executa toda a sessão de baixo da canção e determinados ecos; b) há um livre uso de phasing (a repetição de um determinado trecho), c) um vocoder, ou decodificador de voz, d) sistema de batidas 4/4 que cria uma impressão de ritmo parecida com a de estar dirigindo, e) flauta e guitarra acústicos e f) uma percussão eletrônica.

O resultado é uma imensa peça musical, quase monotônica de repetição contínua. A estrada, o passeio, a monotonia da paisagem, o vento e a experiência estão todos inclusos em cada pedaço de Autobanh, unidos por uma linha fina de ironia. O vídeo que se desenrola durante a sua execução não deixa dúvidas: imagens glamurosas, otimistas e romantizadas de famílias dirigindo felizes rumo ao sol... Ignorando os significados da estrada, hipnotizados pelos novos rumos da Alemanha Ocidental pré-queda do Muro de Berlim e pelas excitantes tecnologias que abarrotavam aquela parte da nação. Para Scheneider e Hütter , se via alí o início de uma existência semi-existência semi-humana.

Atualmente, as autobahnen ligam Alemanha, Áustria e Suíça por uma rede de 13,838 Km que cruza incríveis paisagens. São extremamente famosas já que, para além da musica e da história, não possuem limite de velocidade na maior parte de seus trechos.

prill
Sobre a autora: priscilla santos é adoradora de cervejas e colabora com o obvious. Saiba como fazer parte da obvious.

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Comentários

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Alex

Excelente postagem para uma excelente banda!

simplesmente o krautrock é, quanto a mim, um dos géneros musicais mais interessantes que há. Vale bem a pena ouvir os 22 minutos de autobahn!

Pedro Ribeiro

Ola,
só queria referir uma coisa. Tivemos um português pertencente aos Kraftwerk(não por muito tempo). Chama-se Fernando Abrantes. Fez a uma tournée pelo reino unido com eles.
Apenas queria deixar aqui esta informação.

Rufus

Magnífico! Um dos melhores posts que tenho lido aqui ultimamente. Prill e obvious ao seu melhor nível.
Parabéns!

koveiro

admiro mt o kraftwerk já conhecia a história da banda é fantástico, tive a chance de vê-los ao vivo
agora posso morrer feliz

Vera Santana

Gosto muitíssimo, desde sempre, de Kraftwerk!

O texto contextualiza bem a música.

Prill,

Você anda irritantemente espetacular.

bjs

Pessoal, agradeço muitíssimo o comentário, não imaginei qeu tantas pessoas se interessariam pelo tema e foi uma surpresa bacana demais.

Obrigada, obrigada! Voltem sempre

(pontuando)

Pedro Ribeiro: não sabia do Fernando Abrantes!wow

Rufus: je t'adore

Vera: estou até agora me perguntando como deu pra unir todos esses elementos. é por isso que história me encanta!

Luis Morgado

Excelente!

De facto mais um grande post para uma grande banda...

Parabens

www.gluvox.com

Rufus

Merci, ma chère ;)

f.junior

Excelente o post.

Edson Seabra

Ouço Kraftwerk há muito tempo. É Muito bom! São inovadores até hoje.

ADOREI O POST!!!!
Comecei a ouvir kraftwerk em março qdo fizeram show aki no brasil. Infelizmente naum pude ir...='[
Minha mais nova paixão!!!!

Muito bom o post... =)

Conheci o blog hoje e já tá nos favoritos..

muito bom o post. maravilha! gostaria de ver outros iguais a este falando do revolucionário kraftwerk.

fernando salazar

Recuerdo la primera vez que escuché a esta banda...todavía estoy buscando partes de mi cabeza, que volaron hacia todos lados....

Horacio

Tive meu primeiro contato com um disco do kraftwerk hà 35 anos e tenho todos os discos , em vinil, desde o primeiro disco me chamou atenção .

Graça francisco

Grande Banda de uma grande época do chamado rock electrónico e também sinfónico ou progressivo. Muito boa onda á semelhança de outras da sua época e estou a lembrar-me The Tangerine Dream, Jean Michel Jarre . Outros tempos em que a música era menos descartável.

antonio fernando

curto kraftwerk desde que me entendo por gente , gostaria de acresentar no meu orkut é possivel??
sem mais antonio.

MônicaPaixão

Curto muito seus post.Mais ainda quando coincide com meus gostos.Adoro que sejas "adoradora de cervejas".
Ave Lux Priscila!

Helder Felipe

Comecei a gostar de Kraftwerk com "Hall of the Mirrors", que a minha tia me apresentou há alguns anos... hoje estou com 17 e é bom saber que conheço do que há de melhor na cultura músical, o Kraftwerk está incluso.. hehe.

Poucos podem falar isso com razão.

(acho que vou frequentar mais esse site... eheh)

José Baroni

Magnífico texto. Autobahn é belíssima, muito pertinente seu comentário sobre a "fina ironia" presente, não só nessa, mas em muitas obras do Kraftwerk.

bill e ted

isso sim é um blog!
os djs atuais que me desculpem, mas deveriam procurar saber o que é música eletrônica. Na moral, sem maldade mesmo.
Um salve à todos e que DEUS esteja conosco.
E não se esqueçam:
sejam legais uns com os outros!

Marcel

Show...o Blog e a banda !!!
Ouço Kraftwerk desde os anos 80, um vizinho ouvia nas tardes de sábado no último volume, mesmo quem não gostava, já se antenava com a modernidade sonora. na época isso era 'tecnopop'.
Dizer o que...o Kraftwerk é o olimpo de QUALQUER som eletrônico que se toque no planeta hoje.
Eles são atemporais e continuam modernos para sempre.
Só a qualidade do material pra segurar até hje quatro caras, sem musiquinha fresca e sem muito apelo visual, só a MÚSICA !!!
Kraftwerk FOREVERRRR !!!!
Marcel canpelli - SP

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