Em Maio de 1987 houve um daqueles pequenos acontecimentos que parecem dar forma concreta a certos desejos e aspirações das populações - mesmo que mal definidos, ainda sem as palavras ou a imagem exactas. Era preciso um acto ao mesmo tempo simbólico e real para que todos dissessem: era isto, isto! E ele surgiu como uma façanha louca e incrível, com o seu quê de anjo milagroso que desce sobre a Terra: Mathias Rust, um jovem alemão de 19 anos, piloto amador, voou de Helsínquia até Moscovo num pequeno avião Cessna, aterrando em plena praça Vermelha depois de iludir a defesa aérea soviética.
Na altura aconteciam coisas estranhas, é certo, e poucos se atreveriam até a adivinhar o que viria a ser o mundo. Pouco antes tinha havido um encontro entre o presidente Reagan dos EUA e o presidente Gorbachov da URSS. Mas as expectativas internacionais saíram goradas: o processo de desarmamento nuclear não avançou como esperado, e a Guerra Fria continuava, apesar da perestroika.
Para os que viram as imagens do acontecimento pela televisão (no tempo em que não havia internet), a proeza de Rust parecia uma vingança, uma partida infantil sobre a teimosia perra dos grandes políticos. O jovem conseguia criar uma ponte simbólica entre Leste e Oeste, e tudo neste voo - a surpresa, a juventude, a audácia - era uma promessa de vitalidade e mudança.
A verdade é que a viagem de Rust teve consequências importantes - para além de o levar à prisão durante catorze meses, na URSS. Gorbachov aproveitou a oportunidade: perante a humilhação pública internacional, convidou várias altas chefias militares a demitirem-se, o que lhe facilitou o processo de reformas em curso. A defesa russa fora atingida em cheio: embora os radares e alguns caças soviéticos se tivessem apercebido do pequeno avião, não foram capazes de o identificar, ou pareceu-lhes impossível que fosse aquilo que de facto era. Um bando de gansos, foi uma das explicações apontadas para a presença de Rust nos radares. O próprio Rust contou, em entrevista ao Washington Post, o terror que passou na sua viagem: "Durante todo o voo, eu estava em transe; era como uma experiência extra-corporal (...) Lembro-me de sobrevoar uma praia na Estónia. E disse para mim mesmo: 'Agora estou na União Soviética'". Quando um caça se aproximou, Rust teve muito medo mas, como poucos anos antes os soviéticos tinham chocado o mundo ao abater um Boeing das linhas aéreas coreanas com 269 pessoas a bordo, confiou que esse escândalo os faria pensar duas vezes antes de voltar a disparar, sem mais, sobre um avião desconhecido.
A história de Rust teve o seu tempo de antena nos media internacionais, e colocou uma grande pressão na vida do rapaz. Dois anos mais tarde, coisas ainda mais impensáveis aconteciam no mundo, e o pequeno gesto heróico passou a ser um episódio no caudal da história.
Em 2007, passados vinte anos sobre o voo, os jornais lembraram-se uma vez mais dele. Que tinha acontecido entretanto ao jovem magro e pálido, de óculos RayBan acastanhados? Muitas e bizarras coisas, na verdade. De volta à Alemanha, Rust alegou objecção de consciência para não prestar serviço militar - o que estava de acordo com a sua defesa da paz, que justificara o famoso voo. Teve assim de prestar serviço cívico num hospital, e aqui começam os acontecimentos que parecem pertencer à vida de outra pessoa: apaixonou-se por uma enfermeira desse hospital e, tendo sido rejeitado, apunhalou-a na barriga, pelo que foi condenado a alguns meses de prisão. Alegou mais tarde que a prisão na Rússia, juntamente com o impacto mediático e os problemas que teve depois de regressar, o colocaram numa situação emocional muito difícil, e que não encontrava explicação para o que fizera.
Depois, viu-se ainda a braços com a justiça por várias vezes: roubou uma camisola de caxemira; não pagou os móveis que uma empresa entregou em sua casa; e mais uma ou outra pequenas burlas. Casou, divorciou-se e voltou a casar. Com o dinheiro que conseguiu graças à notoriedade alcançada com o voo, diz ainda, conseguiu juntar uma fortuna razoável, e actualmente é sócio de uma empresa de investimentos na Estónia e jogador profissional de poker - ao que parece, com grandes lucros nesta última actividade. Chegou a criar uma organização - a Orion and Isis - dedicada à promoção da paz no mundo, mas o projecto deste think tank, que tinha como primeiro desafio o Médio Oriente, nunca teve grande impacto.
É difícil conciliar a imagem idealista do jovem Mathias Rust que desceu sobre a praça Vermelha com estes poucos factos relatados por vários jornais sobre a sua vida mais recente, sem justificação à altura do que moralmente nos confortaria. Confesso que é precisamente isso que me atrai em Rust como personagem, que o torna digno de um daqueles romances tresloucados de Dostoievski - o herói, o idealista ingénuo, o pequeno criminoso, o amante enlouquecido e o jogador, todos num único. Talvez sejam afinal expressões distintas de uma mesma forma de desatino. Ou talvez a vida e as suas regras, depois do incrível voo, se tenham tornado pequenas demais.
Tajana é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz. Saiba como publicar um artigo no obvious.
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História de vida incrível, que eu confesso, desconhecia.
Obrigado e parabéns pelo post.
Pra mim, que adoro o Poker e os extremos, foi inspirador ;)
Danilo Riot em 15 de abril de 2009
Acho que somos mais lúcidos aos 20 anos...A ilusão do mundo ainda não nos cegou totalmente.Pena que achamos justamente o contrário!
Silvania em 16 de abril de 2009
Formidável! Este é o tipo de post que enriquece.
enmikanoi em 16 de abril de 2009
Não, não somos mais lúcidos aos 20 anos, Silvania. Vamos limpando o olhar e o pensamento à medida que o tempo corre. Vejo as coisas mais claramente agora, que tenho 40, do que quando era jovem. Era um velho na altura :P
Rufus em 18 de abril de 2009
Rufus, sei que estou solitária neste pensamento, mas acreditei mais ainda nele depois que fiz 40 anos...Penso, as vezes, apenas que a famosa maturidade nada mais é do que finalmente aceitar toda a formatação que sofremos ao longo dos anos...
Abraços
Sil
Silvania em 19 de abril de 2009
Talvez, Silvania, mas podemos recusar aceitá-la, até porque nesta idade já perdemos muitos medos (há quem os ganhe, é verdade...) e possuímos informação e método que nos leva a discernir e desmontar essa formatação, coisa que um jovem de 20 anos manifestamente não consegue. Nos dias que correm a juventude está formatada de um modo que nunca julguei possível. Esta juventude é retrógrada e comodista! É dramático...
Rufus em 19 de abril de 2009
Não acredito que se possa generalizar sobre 'as pessoas' serem mais ou menos lúcidas numa determinada idade. Conheço exemplos de ambas as situações, e outras ainda que são lúcidas ou cegas toda a vida. Além disso, talvez a nossa própria ideia de o que é ser lúcido se altere ao longo do tempo. Certos aspectos da lucidez podem tocar o cinismo; outros, o idealismo mais ingénuo. E isso pode acontecer em qualquer idade. Ser lúcido é ver claramente - mas ver o quê, e a partir de onde? Não pode ser um conceito vazio, é preciso perceber de onde vem e onde incide essa claridade.
Concordo que hoje há uma formatação brutal, que opera de forma tão mais eficaz quanto se mascara nas ideias de libertação mais pura: a energia, a independência, a afirmação individual, a rebeldia, a juventude, a sensualidade desinibida... tudo isso é vendido e consumido hoje sempre nas mesmas dosagens. Basta olhar para as cantoras pop da MTV (sim, é uma embirração pessoal!).
tajana em 19 de abril de 2009
Muito bem observado, Tajana. Mas continuo a achar que os jovens de hoje, tendo mais informação, estão menos informados e, portanto, menos lúcidos que os de outras eras e, portanto, menos livres. A lucidez não é tão relativa como isso, digo eu na minha senilidade...
Rufus em 19 de abril de 2009
Talvez. Secalhar porque hoje precisam de fazer menos escolhas, e porque são mais protegidos. São em parte efeitos de um modo de vida que se foi criando para reduzir o risco de tudo e mais alguma coisa.
tajana em 20 de abril de 2009
Eu penso Rufus que é justamente o excesso de informação, melhor, os meios de informação,que todos nós dispomos hj o que nos confunde mais...Sem querer invocar a Teoria da Conspiração, eu desconfio muito de toda notícia veiculado hj em dia...Assim como desconfio do que como...
Com relação a lucidez dos jovens ser maior do que a nossa,usei a minha juventude como referência,não essa de hj...tenho 45 agora, e sinto que muito das minhas decisões são baseadas em conceitos que são crias da formatação que recebi...E não sei se é tão mais fácil prá gente perceber e anular isso na maturidade...
Silvania em 20 de abril de 2009
Tajana, fazer menos escolhas? Então e que escolhas é que eu tinha quando era "jovem"? Lembro que vivi parte da minha juventude antes do 25 de Abril e as escolhas, em termos de futuro e não só, eram poucas ou nenhumas - comer ou calar!
Sim, Silvania, o excesso de informação é contraproducente. Talvez alguns de nós - os maduros! - estejamos mais ou menos vacinados contra isso. Mas os jovens... nesse aspecto tenho pena deles.
Quanto à nossa formatação e às nossas decisões, atitudes, etc. serem baseadas no nosso condicionamento de outrora, bem isso é com cada um. Não podemos ficar agarrados ao passado, também somos feitos no tempo presente.
Rufus em 20 de abril de 2009
Pois, não sei bem explicar o que quero dizer com menos escolhas. Não é uma questão de menos liberdade ou de menos opções, isso é claro. Talvez seja mais a importância das escolhas que se fazem, o grau de risco - um pouco como a quantidade de informação versus o conhecimento de que se falou aqui. Mas também não sei se é bem isso. É uma ideia que ainda não sei explicar bem, uma ideia da ligeireza das cosias, e das escolhas. Hmm, deixa, não sou capaz de tornar isto claro.
tajana em 20 de abril de 2009
O que eu queria dizer, Tajana, é que sinto muito a falta de ideologia, a falta de significado nas coisas que os "jovens" fazem actualmente. São meras atitudes formais - nem sequer estéticas.
Ao menos a aventura de Mathias Rust teve isso: uma ideologia. Mas depois o muro caiu...
Rufus em 21 de abril de 2009
Não fiques triste, Rufus, eu faço-te um muro :)
tajana em 21 de abril de 2009
Wow, nunca ouvi falar disto em toda a minha vida.
Que história *tão* fenomenal!
Rufus e Silvania: aos vinte não somos novos nem velhos prá nossa idade mas sim desconhecedores. É a idade que nos traz conhecimento e, às vezes, maturidade e sabedoria. E com o aumento do conhecimento vem o medo. O medo que nos inibe a acção.
Sou um jovem com 64, ou se preferirem um velho com 18 (a ultima vez que comemorei os meus anos foi aos 18, daí prá cá tem sido o ano seguinte). Antes do 25 de Abril não era só comer e calar foi também "fazer e levar na tromba" foi resistir, novos e velhos, foi querer não aceitar, e para isso não foi preciso ideologia, foi só preciso gostar de liberdade.
Quanto aos novos é bom lembrar que quem os ensina e educa somos nós os mais velhos...
Tajana é escusado construir mais um muro, há um já ali prás bandas da Palestina - Israel, o Rufus (o nosso velhote) que escolha o lado e já tem um. E Tajana, há uma coisa terrível nestes dias que correm: é a liberdade de informação! Serve para o bem e o mal, publica-se só o politica e socialmente correcto! Já pensaram porque que é que há tantas noticias da América, da África, enfim de quase todo o lado, menos da nossa Europa: da Bélgica , Holanda, Alemanha, Dinamarca, etc.. Será que não se passa nada por aí? Não existem? Não existe Europa?
Pois a censura, um dia destes, até a palavra Liberdade vai querer apagar!!!
Isto já vai muito longo para tão fraco acontecimento. Até um dia destes
alfie em 30 de abril de 2009
Aqueles que como eu, que crescemos com o Muro e com o mundo bipolar, sentimos o fim da Guerra da Fria como uma época de promessas, onde a paz iria prosperar e o mundo inteiro seria livre.
Quem teve essa esperança, sente obviamente uma grande desilusão com o mundo de hoje. Mas o mais terrível dos tempos de hoje, é falta de ideologias e o ressurgir do obscurantismo ligado aos mitos religiosos.
Realmente essa historia, e supreendente...
eu ja tinha ouvido falar a respeito, mais nao sobre o q relamente tinha acontecido, muito bom post, muito esclarecedor