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Portal – inteligência feliz

publicado em recortes por São Reino | 2 comentários

Imagine-se um sonho tão lúcido que se bebe um copo de água e a sensação de sede saciada se prolonga muito tempo depois de acordarmos. Ou uma viagem lida e ou imaginada com tanta intensidade e pormenor que a narrativa que deixa em nós é tão válida como qualquer outra narrativa da memória e, para todos os efeitos, nos dá o mesmo.

 Portal – inteligência feliz

Imagine-se um jogo que brinca com a nossa percepção do espaço, do movimento e da velocidade, que nos introduz e ensina uma nova forma de pensar o espaço e de nos movermos no espaço, de passarmos de um lugar para outro. Chama-se "Portal" (Valve Software) e saiu em Outubro de 2007. Eu fui avisada há muito tempo, experimentei meses depois, no primeiro aniversário do jogo (e este texto, que tem estado na gaveta desde então, voltou hoje ao mundo dos vivos porque "Still Alive", a canção que Jonathan Coulton escreveu e compôs para o jogo, me apareceu inesperadamente numa playlist).

"Portal" é um jogo sobre a percepção do espaço. Dado que nos relacionamos com uma criatura de origem duvidosa, enorme, invisível e omnipresente, o espaço é também uma escala psicológica. "Portal" joga-se na 1ª pessoa: acordamos num cubículo de uma prisão ou de um laboratório de experiências científicas ou ainda de um laboratório de experiências científicas de uma prisão. No futuro ou no que parece o futuro, mas não muito distante. Uma voz feminina, com timbre binário, diz-nos que a experiência está prestes a começar. Começa. Em "Portal" não há armas e a defesa e estratégia para a resolução dos puzzles sucessivos chega-nos do instrumento que abre e fecha os portais, da lei da gravidade, da compreensão do espaço. Fazemos o que temos de fazer porque nos mandam (e podem), até ao fim das experiências, momento que não coincide com o fim do jogo. Antes e depois desse momento, a atmosfera é opressiva, mas o desafio espacial e lógico é constante e tão interessante que só nos podemos sentir bem durante o jogo.

O fim do jogo é adorável, com força, charme e humor capazes de gerar um pequeno culto.

E o que é diferente em "Portal" aguenta-se em vários níveis existenciais. Talvez por causa disso, uma das melhores e mais inesperadas características de "Portal" é a sensação pós-jogo, como depois de um bom filme, uma boa peça de teatro, um bom livro ou um bom sonho – ok, não aconteceu, mas as impressões são profundas, intensas e capazes de criar em nós memória e experiência. Um jogo muito yummy para a massa cinzenta.

Defeito – "Portal" é um daqueles jogos que exigem ligação à internet. Moda horrível que merece uma revolução, uma guerrilha de montanha, protestos mundiais, mudanças drásticas nos direitos e garantias dos consumidores/jogadores de jogos.

Jonathan Coulton - "Still Alive"

sao
Sobre a autora: São Reino é uma colaboradora multifacetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Saiba como fazer parte da obvious.

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2 comentários

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Este é sem dúvida o melhor jogo de todos os tempos... na minha opinião, é claro.

A simplicidade do conceito, juntamente com uma história engraçada e um conjunto de salas enigmáticas o suficiente, faz deste jogo uma experiência fascinante que toda a gente deve experimentar.

Quando comecei a jogar, só já parei quando acabei. E o jogo só peca por ser tão pequeno.

sao

António
Isso de começar e não parar até acabar foi precisamente o que me aconteceu :)
A simplicidade é assombrosa! Só mesmo uma grande ideia.
E, sim, é pequeno.
Numa outra perspectiva, aqui há uns anos, achei o mesmo do delicioso Ghost Master, um jogo de 16 missões, ou menos ainda, em que tínhamos de controlar uma equipa de fantasmas. Em cada missão havia um espaço (casa, navio, hospital, quinta) e devíamos assustar-ao-ponto-da-fuga e/ou enlouquecer os residentes. Nada católico e muito divertido. Acabou num instantinho e nunca mais sai um 2 (até há uma petição: http://www.ghostmaster.net/)

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