
O século XX, na literatura, foi paradoxal. Ao mesmo tempo em que desconstruiu toda a narrativa em busca de novas tendências e jeitos de se produzir um texto literário, também foi capaz de gerar uma infrutífera quantidade de textos, feitas exclusivamente para um ávido mercado em busca de montanhas de dinheiro.
Nas duas décadas finais do século passado, esta dicotomia aprofundou-se, criando uma ruptura abissal entre as duas maneiras de entender o ofício literário. Eis que A vida de Pi, de Yann Martel, autor nascido na Espanha e radicado no Canadá, traça uma interessantíssima ponte entre as duas vertentes tidas como inconciliáveis.
Vencedor do Book Prize de 2002, um dos mais importantes prêmios literários de língua inglesa, Martel viu-se envolvido em uma polêmica por conta de A vida de Pi: o livro teria sido um plágio de obra Max e os felinos, de Moacyr Scliar. Além disto, o autor canadiano teria minimizado a importância de Scliar, referindo-se a ele como “escritor menor”. Após uma gigantesca polêmica, Martel colocou panos quentes na história, afirmando que nunca havia lido o livro de Scliar, mas que agradecia ao escritor brasileiro pela “centelha criativa”. Em entrevista à Folha de S.Paulo, em dezembro de 2004, Martel finalizou a discussão, inclusive com o apoio de Scliar, que não considerou A vida de Pi um plágio.
Polêmicas à parte, o livro de Yann Martel é um belo idílio literário. Sua fusão da literatura ousada com o princípio básico de ser um bom contador de histórias funciona com mestria. Nas duas partes distintas do livro, ele destila uma belíssima história filosófica, lúdica e empolgante. O jovem indiano Pi, de dezesseis anos, é um sincretismo ambulante: é meio cristão, meio muçulmano, meio hindu. Seu pai é administrador de um zoológico em uma pequena província da Índia. Quando a conjuntura política do país começa a irritar o pai, todos embarcam em uma jornada para o Canadá. Obviamente, o navio que os levavam naufraga e somente Pi, um tigre chamado Richard Parker, um orangotango, uma hiena e uma zebra sobrevivem à tragédia e acabam confinados em um bote salva-vidas.
Durante mais de duzentos dias, Pi terá que lutar por sua vida nas águas do Pacífico e aprender a conviver com um predador, Richard Parker, que aniquila a hiena, que por sua vez já havia dado cabo da zebra e do orangotango. A relação menino/animal é um prato cheio para Martel fazer ponderações sobre religião, vida política, amor, desejo e poder. Mais. Aproveita a leveza de sua personagem principal para contar uma história, simples assim. É como encontrar o elo perdido da literatura, ainda que ele não seja ousado o suficiente em sua linguagem.
Mas se não bastasse esta ligação entre contar história e o filosofar literário, Martel fecha a obra com uma nova versão do enredo, o que deixa um gosto melancólico em tudo o que havia sido mostrado antes, como uma vaga lembrança de um belíssimo sonho. A vida de Pi é de um equilíbrio estilístico impressionante, algo muito difícil de se conseguir. Se Martel conseguirá repetir em suas obras futuras, isto é uma especulação complicada. Mas que esta sua obra pode ser colocada como uma das mais importantes deste novo século, não há a menor dúvida. E tomara que esta ponte de ligação das duas literaturas criada por A vida de Pi transforme-se numa nova maneira de encarar o fazer literário.

Comentários
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airton
opaa
axei teu blog no twitter to seguindo la bem legal
http://publicandobr.blogspot.com
Ivass
Deve ser bem interessante mesmo, sera que tem traducao???
Margaridaa
LI o livro ,(em francês), gostei muito. Surpresa de o encontrar aqui. :D
Rui
Bom dia, li este livro logo quando saiu em Portugal, mais ou menos em 2003 ou 2004. E até à altura foi um dos livros mais bonitos que tinha lido. Curiosamente nunca mais encontrei nada em português de Yann Martel.
ArTeC
Sim, é verdade, estou aqui a publicitar a nossa peça intitulada: NU.
6as e sábados às 22h no Bar Novo da Faculdade de Letras. Reservas: 221 799 0530.
Porque somos de Lisboa e porque, pelo que parece, gostamos de letras e de nos descobrirmos!
Saudações Teatrais! =D
Ivass, existe sim uma versão em Português. Procure numa livraria de referência.
Margarida, espero que tenha sido uma boa surpresa. Obrigado por comentar :)
Olá Rui... para mim foi um livro marcante. Ofereci vários e exemplares desse livro a Amigos. Inclusive era gozado por ter sempre 2 ou 3 exemplares repetidos na estante, simplesmente para poder oferecer.
tajana
Acho que foi o único romance dos últimos anos que tive paciência para ler - e que lia sempre com mais vontade, e sem querer parar. Gostei muito. O Martel sabe que, questões literárias à parte, poucas coisas têm um poder encantatório tão grande como uma história bem contada.
Bjr, estimo em saber que finalmente encontraste substituo para O Perfume!
gilvas
dado que amei max e os felinos, este life of pi tem um sabor prévio delicioso; minha expectativa se enquadra entre aquelas quase incontíveis. obrigado pela dica.
Marcelle
lindoo!!! *.*
gente olha só esse site q bacana o design dele:
www.studioserver.com.br/
• ele foi desenvolvido pela (namp.com.br)
DIEGO CORREA DE SOUZA
BONITO
Bruce
Esse livro aí não tava sendo acusado de plágio há um tempo atrás?
Robick
Li o livro. Achei o fim mal resolvido. Empolgou-me em algumas parte, a ideia do livro é interessante, mas...é apenas mais um livro.
Sendo ateu, as estórias sobre religião ou fé não me entusiasmam por aí além.
No fundo o que gostei mais, foram as estórias sobre a Índia. Foi o que me ficou do livro. Não tenho especial simpatia pelo Richard Parker :-)
Sim, houve alegações de plágio por parte de uma autor brasileiro, consta do entrada do livro na Wipédia:
http://en.wikipedia.org/wiki/Life_of_Pi
Carolina
Um dos meus livros preferidos.. e adorei essa ilustração de tigre
catarina
simplesmente genial!
mila
Fiquei com vontade de ler, e a capa do livro é linda, lírica...
paulo eugenio
é muito bom, e tem tradução sim, inclusive é da minha mãe, alda porto.
Alda Porto
Muito bom o artigo, mas esqueceram de citar a publicação do livro em 2004 pela Rocco, "A Vida de Pi", por mim traduzido.
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