a vida de pi - yann martel

Durante mais de duzentos dias, Pi terá que lutar por sua vida nas águas do Pacífico e aprender a conviver com um predador, Richard Parker, que aniquila a hiena, que por sua vez já havia dado cabo da zebra e do orangotango. A relação menino/animal é um prato cheio para Martel fazer ponderações sobre religião, vida política, amor, desejo e poder.



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O século XX, na literatura, foi paradoxal. Ao mesmo tempo em que desconstruiu toda a narrativa em busca de novas tendências e jeitos de se produzir um texto literário, também foi capaz de gerar uma infrutífera quantidade de textos, feitas exclusivamente para um ávido mercado em busca de montanhas de dinheiro.

Nas duas décadas finais do século passado, esta dicotomia aprofundou-se, criando uma ruptura abissal entre as duas maneiras de entender o ofício literário. Eis que A vida de Pi, de Yann Martel, autor nascido na Espanha e radicado no Canadá, traça uma interessantíssima ponte entre as duas vertentes tidas como inconciliáveis.

Vencedor do Book Prize de 2002, um dos mais importantes prêmios literários de língua inglesa, Martel viu-se envolvido em uma polêmica por conta de A vida de Pi: o livro teria sido um plágio de obra Max e os felinos, de Moacyr Scliar. Além disto, o autor canadiano teria minimizado a importância de Scliar, referindo-se a ele como “escritor menor”. Após uma gigantesca polêmica, Martel colocou panos quentes na história, afirmando que nunca havia lido o livro de Scliar, mas que agradecia ao escritor brasileiro pela “centelha criativa”. Em entrevista à Folha de S.Paulo, em dezembro de 2004, Martel finalizou a discussão, inclusive com o apoio de Scliar, que não considerou A vida de Pi um plágio.

Polêmicas à parte, o livro de Yann Martel é um belo idílio literário. Sua fusão da literatura ousada com o princípio básico de ser um bom contador de histórias funciona com mestria. Nas duas partes distintas do livro, ele destila uma belíssima história filosófica, lúdica e empolgante. O jovem indiano Pi, de dezesseis anos, é um sincretismo ambulante: é meio cristão, meio muçulmano, meio hindu. Seu pai é administrador de um zoológico em uma pequena província da Índia. Quando a conjuntura política do país começa a irritar o pai, todos embarcam em uma jornada para o Canadá. Obviamente, o navio que os levavam naufraga e somente Pi, um tigre chamado Richard Parker, um orangotango, uma hiena e uma zebra sobrevivem à tragédia e acabam confinados em um bote salva-vidas.

Durante mais de duzentos dias, Pi terá que lutar por sua vida nas águas do Pacífico e aprender a conviver com um predador, Richard Parker, que aniquila a hiena, que por sua vez já havia dado cabo da zebra e do orangotango. A relação menino/animal é um prato cheio para Martel fazer ponderações sobre religião, vida política, amor, desejo e poder. Mais. Aproveita a leveza de sua personagem principal para contar uma história, simples assim. É como encontrar o elo perdido da literatura, ainda que ele não seja ousado o suficiente em sua linguagem.

Mas se não bastasse esta ligação entre contar história e o filosofar literário, Martel fecha a obra com uma nova versão do enredo, o que deixa um gosto melancólico em tudo o que havia sido mostrado antes, como uma vaga lembrança de um belíssimo sonho. A vida de Pi é de um equilíbrio estilístico impressionante, algo muito difícil de se conseguir. Se Martel conseguirá repetir em suas obras futuras, isto é uma especulação complicada. Mas que esta sua obra pode ser colocada como uma das mais importantes deste novo século, não há a menor dúvida. E tomara que esta ponte de ligação das duas literaturas criada por A vida de Pi transforme-se numa nova maneira de encarar o fazer literário.

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Artigo da autoria de Danilo Corci

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